Hackerspace: onde as ideias não têm limites

Do único hackerspace do Estado já saiu um aplicativo para orientar a destinação adequada do lixo em Porto Alegre, da pilha e lâmpada ao sofá ou eletrodoméstico descartado. Agora está em gestação o projeto de um videogame que usa como base de hardware um microcontrolador de código aberto, open source, desenvolvido por um instituto de design de produto da Itália, o Arduíno. O Matehackers e todos os similares pelo mundo (quase 2 mil, segundo a Wikipedia) revelam uma paixão pela tecnologia, seus usos e novas possibilidades e apostam no conhecimento compartilhado.

Os integrantes do hackerspace gaúcho avisam que a atuação não tem nada a ver com a fama de quem vai invadir sistemas ou burlar propriedade de alguma inovação de mercado. Até porque os segredos costumam estar bem guarnecidos, avisam o sociólogo Joel Grigolo e o programador Lucas Fialho Zawacki, que participam do espaço situado no Vila Flores (polo de indústria criativa de Porto Alegre). “Hoje, quase tudo que se usa ninguém sabe como funciona. A gente não gosta muito disso, queremos saber como é feito para melhorar, ampliar a tecnologia”, diz Grigolo.

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Os hackerspaces viraram a versão moderna das garagens, onde jovens inovadores como Steve Jobs (Apple) e mesmo Bill Gates (Microsoft) teriam começado a saga de suas inovações em tecnologia da informação nos ano de 1970, hoje líderes em seus segmentos. No caso da Apple, uma das companhias mais valiosas do mundo. O movimento de hackerspace é global, tem muita força em países desenvolvidos e a meta de polos como o do Vila Flores é também multiplicar os espaços. Os valores que unem os participantes abrangem a ideia de conhecimento livre, acesso a códigos de programas e máquinas (open source) e a ênfase em fazer, colocando literalmente a mão na massa – conceito de makers (fazer, em inglês).

O Matehackers surge em 2012, após a sugestão de um estudante alemão que veio fazer intercâmbio na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). “O apelo é para quem gosta de tecnologia, mas a concepção envolve diversas áreas de conhecimento, de programadores a artistas e sociólogos”, descreve Zawacki, o único do grupo de fundadores que possui uma função função, a de tesoureiro. “A gente se sustenta, mesmo quem não vem aqui e gosta da ideia colabora.” O Matehackers não tem registro como empresa e não é um empreendimento, mas se transformou em um polo para dar origem a projetos de startups. O aplicativo LimPOA, por exemplo, surgiu em um evento com o POA Digital, agência digital ligada à prefeitura, e é considerado um exemplo de como o uso da tecnologia pode ajudar as pessoas na relação com sua cidade e gerar negócios.

EMPRESAS & NEGÓCIOS Blog Vida Startup Mate Hackers integrantes esq. para dir. Alan Ficagna e Lucas Fialho Zawacki Crédito Foto Patrícia Comunello Divulgação

Mais de 200 pessoas frequentam o espaço. Muitas podem ficar meses sem aparecer como o programador Ilson Bolzan, mas quando volta, como ocorreu em meados de maio, avisa que quer se juntar ao desenvolvimento de uma bicicleta para andar na cidade, ideia de Grigolo. Outros como Cleber Stein, Vlademir de Castro e Relsi Hur Maron estão sempre no Matehackers, virou vício.  O estudante de Ciência da Computação na Ufrgs Alan Ficagna aposta que o lugar supre a carência de espaços para quem gosta de ciência e tecnologia, escassos diante da diversidade de ambientes para cultura, lazer e esporte. “Dá para encontrar pessoas que pensam da mesma maneira. Precisamos que mais espaços como este sejam abertos”, motiva Ficagna.

Dumont será base no Fórum de Software Livre

“Já estamos preparando o Dumont Hackerspace para o  Fórum Internacional de Software Livre (FISL)”. O aviso está postado em uma rede colaborativa na internet e vira senha para convocar participantes dessas estruturas que se dedicam a desafiar possibilidades da tecnologia, mas principalmente compartilhando conhecimento e suas aplicações. O nome do quartel general dos hackerspaceanos no FISL, um dos eventos mais tradicionais na cena de produtores e usuários de tecnologia no mundo que atrai milhares de pessoas a Porto Alegre, é simbólico e pura inspiração.

O sociólogo Joel Grigolo, do Matehackers, explica que é uma referência a Santos Dumont, o brasileiro que é conhecido como pai da aviação e que fez a proeza de colocar a primeira máquina no ar. Mas mais que isso, Dumont abriu os detalhes da sua invenção, o Demoiselle, e fez valer, pela primeira vez, para os integrantes do Matehackers, o que hoje é um dos valores do movimento, o open source. “É o primeiro inventor brasileiro com as especificações de como fez para criar o aparelho bem documentadas”, traduz Grigolo.

Com Dumont e seu código aberto, os integrantes dos hackerspace querem fazer do segundo ano com endereço delimitado no FISL um acontecimento. O fórum vai de 8 a 11 de julho no Centro de Eventos da Pucrs. “Como todos sabem, o objetivo é representar a comunidade de hackerspaces brasileira. Portanto, desejamos que todos participem da concepção e operação do espaço”, avisa Guilherme Krüger Araújo pela rede. Com isso, da programação a iniciativas que podem marcar a edição do FISL, tudo é  compartilhado.

Entre as ações, deve estar o I Encontro Latino-americano de Hackerspace. O evento buscará aproximar a rede de espaços, que seriam 23 na região (segundo a Wikipedia). A aposta é que a iniciativa ajudará a popularizar o fórum e também dará impulso à criação de mais espaços. Neste ano, o FISL foca a cultura hacker. Para fazer valer a fama do meio, o Dumont espera desenvolver algum projeto prático no ambiente, o que deve incluir ações práticas, conjugando o conceito de makers e o hacking colaborativo. No dia 7, um dia antes do começo do forum, vai ocorrer o Churrascker, no galpão da Vila Flores, onde fica o Matehacker. Será o jeito de abrir os trabalhos com um típico código da hospitalidade e culinária gaúcha aos visitantes.