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Especial Notícia da edição impressa de 17/04/2012

Crítica, uma arte: a humanidade nas entrelinhas

Ricardo Gruner

ANTONIO PAZ/JC
Doutora em Literatura Comparada, Léa Masina defende crítica literária com embasamento teórico
Doutora em Literatura Comparada, Léa Masina defende crítica literária com embasamento teórico

Segundo os dicionários, a palavra crítica possui diversos significados, desde “análise de produção intelectual” e “capacidade de julgar” até “censura” e “apreciação desfavorável”. Nesta e nas próximas quatro terças-feiras, o Jornal do Comércio dá espaço para que teóricos e jornalistas discorram sobre a dimensão e o papel desta atividade. A exemplo do vocábulo grego krikein (quebrar), que deu origem ao termo em português, a série é dividida: serão cinco textos, contemplando artes plásticas, cinema,  música, teatro e literatura - este o foco da primeira reportagem, publicada hoje.

“Sem dúvida, um bom crítico é antes de tudo um bom leitor”. A frase é de Léa Masina, doutora em Literatura Comparada. A acadêmica lecionou na Ufrgs, possui livros publicados - seja como organizadora ou autora -,  tem outros em vista e ainda é responsável por um centro de estudos literários voltados para escritores ou escritores propensos. Lá, coloca a crítica a serviço do autor e da qualificação do texto.

De acordo com ela, a atividade é um metadiscurso. Em linguagem menos formal, alguém escreve e outra pessoa analisa tal produção, o que requer conhecimento prévio. “A crítica literária é, em primeiro lugar, uma disciplina acadêmica, trabalha de mãos dadas com a teoria literária (sem a qual não se movimenta), e tem um fundo comparatista”, frisa.

Ainda nas palavras da doutora, uma crítica pode aparecer em diversos formatos, desde algo simples, como a resenha, até ensaios, monografias e teses. O primeiro deles é o mais comum, e deve conter uma mínima referência ao tema da obra, à linguagem utilizada para expressá-lo, e também precisa abordar como ele é tratado. Para ela, resenha normalmente é uma crítica sem fundamento teórico com somente o primeiro momento da crítica: “Gostou? Não gostou? Por quê?”.

O escritor e jornalista Tailor Diniz, que durante 12 anos escreveu para a revista Aplauso e hoje edita a Vox, ligada ao Instituto Estadual do Livro, destaca o papel da subjetividade no estilo. “Não digo que fazia crítica literária porque crítico é quem tem uma formação, se prepara para aquilo, mas fiz resenhas de acordo com minhas opiniões”. Se os dois diferem-se na formação profissional, concordam em alguns aspectos relacionados à capacidade analítica. Também para Tailor, parte do que forma o crítico é o tempo de leitura: “As pessoas sem formação científica também podem ter olhares interessantes sobre os livros. Quanto mais tu lês, mais ficas exigente”.

Para resenhar um livro, ele o decifra com um caderno de anotações ao lado, em que ressalta tanto o aspecto formal quanto o conteúdo, a fim de facilitar a elaboração do texto. Segundo ele, a boa literatura é aquela que tem um equilíbrio entre história e narrativa. “Vou chover no molhado, mas um exemplo é Grande sertão: veredas. Ali tu te fascinas pela forma e ao mesmo tempo não perde o interesse”.

Entretanto, não são somente estes elementos que fazem um bom livro ou mesmo um clássico. Outra explicação é a receptividade do público.  “Por que as pessoas lembram de Shakespeare e não de Marlowe?”, instiga Léa. “Porque ele captou melhor os sentimentos e os conflitos humanos. O ciúme, a cólera, a maldade, o sangue, os complexos, os problemas psíquicos. Shakespeare teve que inventar vocábulos para sentimentos que as pessoas tinham e não sabiam nomear. A literatura existe para dar nome ao que a gente não sabe dizer.”

Ao estender este ponto à literatura brasileira, pode dizer-se o mesmo a respeito de Machado de Assis e os “olhos de ressaca” de Capitu (em Dom Casmurro). São qualidades como essas que os diferem de outros autores, o que respalda a importância de um acervo de referências para comparação. Já o “mau livro”, segundo ambos, é aquele que não prende o leitor, seja por uma narrativa com temas pouco desenvolvidos ou mal-apresentada.

Sobre as avaliações negativas, Léa considera: ninguém tem o direito de destruir uma obra, até porque às vezes é necessário muito preparo para digeri-la. “Estou tentando ler O cemitério de Praga, do Humberto Eco, e achei muito difícil. Aí um amigo ligou e disse que tá lendo pela segunda vez, que é preciso conhecer a história do racionalismo francês no século XIX, então percebi por que não estava entendendo”, exemplifica ela.

Além da academia

Como a área acadêmica tende a ser mais fechada e o espaço para crítica literária nos jornais diários é quase inexistente, outros tipos de atividades estão surgindo. Dentre as iniciativas de âmbito local estão o Sport Club Literatura e o Gauchão da Literatura.

Organizador do Gauchão, Rodrigo Rosp, um dos editores da Não Editora e da Dublinense, explica o projeto: “Às vezes, na imprensa, é publicado o serviço do lançamento do livro. Depois disso fica um vácuo. O Gauchão veio como espaço de crítica para os livros que estão sendo lançados”. No campeonato, “juízes” convidados recebem dois títulos, ficando responsáveis pela elaboração de uma resenha que aponte os méritos e falhas de ambos. Apitam os jogos desde escritores até jornalistas e acadêmicos dos mais pós-graduados. “É legal pegar todas essas visões”, conta ele.

Com o mesmo ideal de colocar a produção literária em debate, o Sport Club Literatura transforma o StudioClio (José do Patrocínio, 698,) em uma arena. Nela, resenhistas avaliam obras ao vivo, sejam elas clássicos da literatura ou jogos alternativos ou modernos. “Não deixa de ser também uma espécie de crítica, são convidados capacitados que defendem suas convicções. E é um avanço, algo salutar, porque se está falando de livros. Alguns títulos saem do esquecimento”, avalia Tailor Diniz.

Um célebre autodidata

Como parte da programação do 5º Festipoa Literária, o Cinebancários estreia hoje o documentário Wilson Martins - a consciência da crítica. Focado no crítico literário Wilson Martins, falecido em 2010, o filme fica em cartaz até o dia 22, sempre às 15h.

Com direção de Douglas Machado, a obra se baseia em uma longa entrevista feita com Martins em 2002. Como complemento, são inseridos depoimentos de outras figuras literárias, a exemplo de Affonso Romano, Luiz Antonio de Assis Brasil e Moacyr Scliar, entre outros.

Durante sua carreira, o crítico atuou em O Estado de S. Paulo, no Jornal do Brasil, teve colunas na Gazeta do Povo e em O Globo, além de ter sido professor na Universidade Federal do Paraná e da New York University. Dentre sua obra, estão livros como História da inteligência brasileira, que lhe rendeu o prêmio Jabuti, e Crítica literária no Brasil.

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