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Entrevista Especial Notícia da edição impressa de 18/04/2011

Yeda rompe o silêncio: perder o déficit zero é um retrocesso

Pedro Maciel e Guilherme Kolling

Marcelo G. Ribeiro/JC
''Considero  o déficit  zero o Plano  Real do Rio Grande  do Sul'', diz Yeda.
''Considero o déficit zero o Plano Real do Rio Grande do Sul'', diz Yeda.

Desde que deixou o Palácio Piratini, em 1 de janeiro, a ex-governadora Yeda Crusius (PSDB) evitou comentar sua gestão e os movimentos do seu sucessor, Tarso Genro (PT). Ela rompe o silêncio sobre o tema nesta entrevista ao Jornal do Comércio, em que faz um balanço de seu governo e rebate a tese de que o déficit zero não existiu. A tucana avalia que seus críticos “só sabem governar com déficit” e diz que não manter o equilíbrio das contas será uma grande perda para o Estado. “O que há de pior para acontecer ao Rio Grande do Sul é o déficit.”

Yeda ainda observa a postura do Sindicato dos Professores (Cpers) em seu governo e após a posse de Tarso - “recusaram R$ 1,5 mil e agora aceitaram R$ 1,1 mil. A questão do Cpers foi política”. Também fala de seus projetos, como a criação de um instituto e a elaboração de dois textos para fazer um registro histórico do seu governo (2007-2010) - um sobre a política e outro sobre a gestão. Ela também planeja manter um site para publicar suas opiniões e formar grupos de discussões sobre conjuntura. A ex-governadora diz que se manterá afastada da linha de frente partidária no próximo período, descarta concorrer à prefeitura de Porto Alegre em 2012, mas diz que será atuante nas eleições municipais. Só despista ao falar sobre seus planos para 2014.

Jornal do Comércio - Qual é o balanço do seu governo?
Yeda Crusius -
O que eu fiz durante quatro anos foi o projeto que a gente desenhou em 2006. Acho que teve muito sucesso. Conseguimos realizar a maior parte das coisas que propusemos. Não conseguimos as PPPs (Parcerias Público-Privadas), mas deixamos bons fundamentos. É um modo de investir necessário, porque o Estado é pequeno em termos orçamentários. Apesar de eu ter renegociado a dívida, que era a maior conta, a segunda maior conta é a previdência. E se não resolver a questão estrutural da previdência, o Rio Grande do Sul vai continuar patinando. Então, a gente encerrou 2010 com o dever cumprido, com a criação das novas secretarias - Justiça, Irrigação, Transparência, Infraestrutura. E criamos a Secretaria de Relações Institucionais, pagamos as dívidas do passado (da Consulta Popular). Então, as secretarias novas são a marca do governo, uma das primeiras coisas que foram mudadas...

JC - No novo governo.
Yeda -
É. Irrigação passou a ser não sei o quê, criaram uma agência (AGDI) no lugar da Sedai (Secretaria de Desenvolvimento)... Depois de sair, em 31 de dezembro, vejo que a qualidade de vida melhorou, que o servidor público está pacificado pelas políticas públicas que a gente fez em 2009 e 2010. A gente deu carreira para todo mundo, só não deu para o magistério, porque a liderança do PT (na Assembleia Legislativa) impediu a votação do piso de R$ 1,5 mil (para os professores). Agora, aceitaram R$ 1,1 mil. A questão do Cpers foi política. Mas todas as outras carreiras de servidores receberam. É só eu andar pela rua que encontro alguém que me lembra o que a gente fez mudando a carreira: Daer, Brigada (Militar), Polícia Civil. Enfim, nesse período, deu para ver mudanças estruturais, que permanecem.

JC - O déficit zero foi questionado pela atual gestão, que apontou um déficit de R$ 150 milhões no final de 2010.
Yeda -
É que eles não sabem... Déficit zero não é receita igual à despesa num determinado tempo. Déficit zero é um modo de governar, de tal maneira que se gaste só o que se arrecada. E conseguimos arrecadar muito mais, então, podemos gastar muito mais. O equilíbrio das contas públicas - que é diferente de déficit zero - foi ter construído, ano após ano, um orçamento equilibrado e realista. Em 2007, a gente só gastou o que tinha em caixa. E fiz o IPO do Banrisul, um reforço de caixa apreciável. Em 2008, renegociamos a dívida com o Banco Mundial (Bird). Em 2009, pretendíamos conquistar o déficit zero. Graças a ter dado certo o Banrisul e o Bird, antecipamos o déficit zero, o que significou pagar o décimo-terceiro (salário do funcionalismo) sem empréstimo. E fornecedores, precatórios, fizemos um novo Simples, encaminhamos pagamentos da Lei Britto, tudo em 2008. E, em dezembro, deu para pagar o décimo-terceiro. Isso é déficit zero. Gastar o que se arrecada, pagando tudo o que a lei exige.

JC - E o questionamento...
Yeda -
Em todos os quatro anos as críticas vinham, me lembrava o PT quando era deputada federal: votou contra o Plano Real. Assim como votaram contra o déficit zero. Considero o déficit zero o Plano Real do Rio Grande do Sul. Em letras simples, a gente colocou as finanças em ordem, com o orçamento cumprido. Então, essa é uma crítica de quem não sabe o que colocar no lugar da crítica. Mas eu posso dizer com todas as letras: essa é uma crítica de quem só sabe atuar com déficit. É a maneira de economia que eles fazem.

JC - E a segunda metade de sua gestão?
Yeda -
Em 2009, querendo fazer a (reforma) nas carreiras do servidor público no primeiro ano da Assembleia sob a direção do PT (deputado Ivar Pavan), deu no que deu. E no dia 5 de agosto de 2009, aquilo que eles vinham tentando fazer e não tinham sucesso, que foi a entrevista coletiva dos seis procuradores (do Ministério Público Federal propondo o afastamento de Yeda por causa da fraude no Detran). E naquele dia se registrou uma nova CPI e um processo de impeachment. Ao qual o presidente da Assembleia monocraticamente deu andamento. Como isso tudo foi solucionado até outubro, em novembro, entrei com uma lei de reestruturação das carreiras. Mas percebi que, com aquela presidência da Assembleia, os funcionários iriam ser prejudicados. Aí, retirei. E voltei (a enviar os projetos em 2010), porque era o (deputado Giovani) Cherini (PDT, presidente da Assembleia). Em fevereiro, disse: “Cherini, negocie que eu mando de volta a matriz salarial da Brigada e da Polícia Civil”. E deu o sucesso que deu. Foram aprovadas todas as reestruturações de carreira, menos a do magistério, porque a liderança do PT impediu.

JC - Qual sua avaliação dos 100 dias de governo Tarso?
Yeda -
Nosso governo foi buscar receita para poder gastar mais, renovamos o contrato com o PGQP, fomos ao limite na gestão de despesa e receita, cortamos 30% dos cargos de confiança (CCs), cortamos custeio. Reduzimos as despesas intermediárias para poder aumentar as despesas finalísticas. Um governo com metas, que coloca tudo de modo transparente através de indicadores públicos. Mas para gastar mais, tem que reduzir gastos intermediários, com cargos de confiança. E agora (no governo Tarso) aumentaram bastante (os CCs), com salários altos. Tem que olhar cada milímetro de despesa, a presidente Dilma (Rousseff, PT) aceitou fazer isso através da assessoria do (empresário Jorge) Gerdau (Johannpeter). Tem que olhar todos os dias. Foi o que a gente fez. Então, quem não sabe atuar sem déficit já fixou a sua meta de déficit, aposentando uma virtude que é para ser exercida diariamente: buscar o equilíbrio das contas públicas e, portanto, o déficit zero. Nós praticamos essa virtude. Se o déficit zero ele (Tarso) já está gastando...

JC - A propósito da comparação do déficit zero ao Plano Real, o ex-presidente Lula (PT) manteve a economia estável. A senhora projeta retrocesso na área econômica aqui no Estado?
Yeda -
Equilibrar as finanças e dar transparência sempre foi a nossa forma de entender como se usa o dinheiro público. Dei transparência às contas públicas, todo o mês a Secretaria da Fazenda dava a posição mensal, criamos o Portal da Transparência, compromisso com o Bird. Então, digo, pela mesma análise: o que há de pior para acontecer ao Estado do Rio Grande do Sul é o déficit. E não precisa acontecer. É até ridículo colocar a culpa logo que entra na falta de R$ 150 milhões. “Mas espera um pouco. A arrecadação de janeiro ainda não havia acontecido e é muito maior do que R$ 150 milhões.”

JC - E os R$ 3,6 bilhões? O atual governo diz que são depósitos judiciais e não dinheiro em caixa. É isso mesmo? Qual era o valor no início de sua gestão?
Yeda -
O caixa único: zero. O caixa do Tesouro do Estado: zero. Ou seja, se na Justiça alguém que depositou judicialmente o dinheiro tivesse ganho a causa, não teria como receber. Encontrei em zero os depósitos judiciais. E gradativamente parei de usar o caixa único. No início, precisava para pagar pessoal. Não havia folga, a situação das finanças tinha uma total crise. Não mexi mais em depósitos judiciais, não mexi no caixa único. E deixei uma situação em que no dia 1 de janeiro se poderia gastar.

JC - Quando a senhora pediu empréstimo ao Bird houve questionamentos do PT. Como avalia o pedido do governador Tarso Genro ao Banco Mundial?
Yeda -
Agora ele pode. Quando começamos nossa gestão, não podíamos, porque a gente não cumpria a Lei de Responsabilidade Fiscal. A gente não podia conversar com o Bird, com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Então, o déficit zero dá sustentabilidade às contas. Aí dá para conversar com qualquer banco, o limite de endividamento melhorou. Mas se fizer déficit, não vai poder. Eles desviam a análise dos problemas, criticando quem está no poder - um contrato com o Bird aprovado por unanimidade na Assembleia, no Congresso. Agora, quando procuro o Banco Mundial, eu, Yeda, sou submissa. Quando eles procuram, querem o bem do Rio Grande do Sul. Faz parte da evolução da política comparar o discurso com a prática.

JC - Quais seus projetos agora, pós-governo?
Yeda -
Estou formando grupos para estudar o cenário nacional e o papel do Rio Grande do Sul. Tem ainda um foro de formação de opinião na rede (internet). E depois de governar o Rio Grande do Sul, estou acumulando documentos que me permitem escrever dois capítulos: o da política que envergonhou o Rio Grande nas manchetes nacionais, e o da parte do sucesso de governar. Mas quero escrever por pessoas que possam opinar sobre esse período. A gente tem que ter um ambiente e vai ser o instituto.

JC - E a sua vida partidária?
Yeda -
Não vou estar na linha de frente. Nem convém.

JC - A senhora é citada por colegas do PSDB como possível candidata à prefeitura de Porto Alegre em 2012. É possível?
Yeda -
Não. Eu vou ajudar a eleger alguém. Não precisarei ser chamada. Temos deputados eleitos, estaduais e federais. Aliás, para o PSDB foi um milagre ter eleito cinco estaduais, com o massacre pelo qual passamos durante quatro anos. O partido não cresceu. Mas as eleições municipais de 2012 são uma ótima oportunidade para mostrar que cumprimos o nosso programa de governo. Praticamos um governo municipalista. Vou estar muito presente para ajudar as pessoas a se elegerem.

JC - E se a senhora for convocada pelo PSDB para concorrer?
Yeda - N
ão tem crise que precise chamar a ex-governadora para ser candidata a prefeita.

JC - E pensa em voltar a concorrer ao governo do Estado?
Yeda - O
projeto de mostrar que o Rio Grande do Sul é governável foi cumprido. Não vejo por que eu deveria ser outra vez governadora. Só se fosse em nome de um projeto. Quando começou 2011, eu disse: vou descansar um mês. Depois, volto e faço planos. Nisso, deu o Japão, a candidatura do Obama, a Europa está numa crise fenomenal. Mudou o cenário. Como vou pensar para daqui a três anos... É muito cedo ainda.

JC - E a inflação?
Yeda -
Já acendeu a luz vermelha. Com a volta da inflação, se vê - a herança que o Fernando Henrique (Cardoso, PSDB) deixou e que o Lula sabiamente seguiu no Banco Central (BC) -, a gordura acabou. A volta da inflação é o que de pior pode acontecer para o Brasil.

JC - Como a senhora avalia as medidas da presidente Dilma?
Yeda -
Olha, se tivessem no rumo certo, a inflação já teria declinado. E não declinou. Não existe um plano de combate à inflação. Ninguém conhece o plano do governo federal. E o BC não é mais o mesmo.

Perfil

Yeda Rorato Crusius, 66 anos, nasceu em São Paulo (SP). Vive em Porto Alegre desde 1970. É economista, pós-graduada pelo Instituto de Estudos e Pesquisas Econômicas da USP e pela Universidade de Vanderbilt (EUA). Foi professora titular do Departamento de Ciências Econômicas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), onde coordenou o Centro de Estudos e Pesquisas Econômicas do curso de pós-graduação. Atuou como analista e articulista de jornais, rádios e tevês. Recebeu diversos convites para cargos públicos e partidos políticos, mas só decidiu se filiar quando o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) foi criado, na Constituinte em 1988, defendendo o Parlamentarismo. Em 1993, foi ministra do Planejamento, Orçamento e Coordenação, na gestão do presidente Itamar Franco. Em 1994, Yeda elegeu-se deputada federal, sendo reeleita em 1998 e 2002. Nos três mandatos, foi apontada como uma das 100 parlamentares mais influentes do Congresso. Em 2006, elegeu-se governadora com 3,3 milhões de votos. Tentou a reeleição em 2010, mas Tarso Genro (PT) venceu no primeiro turno.

COMENTÁRIOS
Benjamin - 20/04/2011 - 19h54
A exelentissima ex-governadora, assim como o ladrao do Rigotto, e sem falar no delinquente do sr.Brito, colocaram nosso estado em uma situacao precaria em favorecimento às empresa privadas... Sem falar no saque aos cofres publicos atraves das estatais CEEE,DAER,CORSAN, etcc...O programa deveria ser COFRES ZERO. Nao posso mais ver nem ouvir falar desta tipa. Atte Saudacoes Benja

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