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Música Notícia da edição impressa de 31/01/2011

Show resgata 30 anos de Massafeira Livre

Helio Barcellos Jr.

SANTANDER CULTURAL/DIVULGAÇÃO/JC
Cantor se apresenta em Porto Alegre e lança livro sobre o movimento cultural
Cantor se apresenta em Porto Alegre e lança livro sobre o movimento cultural

Ednardo se emociona ao falar do Massafeira Livre, o movimento composto por um festival de música e de artes cênicas realizado em 1979 no Theatro José de Alencar, em Fortaleza, no Ceará. As canções dos shows, reunindo mais de duas dezenas de músicos, foram gravadas semanas depois em uma gravadora no Rio de Janeiro. A proposta, que reuniu 400 artistas, era de ser um caleidoscópio de todos. E foi o que aconteceu, apesar da forte repressão da ditadura então em vigor.

Em 2008, o cantor começou a se debruçar sobre um novo capítulo do movimento que mudou para sempre a trajetória dos artistas que o integraram. Ele organizou o livro Massafeira - 30 anos - Som - Imagem - Movimento - Gente, que tem 312 páginas, centenas de fotos, além de um encarte com os dois discos remasterizados. Ednardo comenta que o livro, que teve três mil exemplares editados, é procurado que nem água, que vai se esgotar logo, ainda que muitos exemplares tenham sido distribuídos em escolas e bibliotecas. Nomes como Rodger Rogério, Petrúcio Maia, Augusto Pontes, Teti, Stélio Valle, Ricardo Bezerra, Mona Gadelha participam com depoimentos ou textos próprios na obra. Eles também estão nos discos, assim como Patativa do Assaré, Belchior e Fagner.  Entre outros dados, o livro reproduz também um texto que Ednardo escreveu à época da Massafeira, que “se materializou em forma de um grande ajuntamento de som, imagem, movimento, poesia e muita gente transando, tudo isso numa efervescência febril, bela e loucamente solta durante quatro dias”. Em sua essência, o Massafeira mudou a visão dos artistas, que passaram a achar que não era mais necessário ter que viver no centro do País para garantir seu sustento.

Na quarta-feira, Ednardo estará em Porto Alegre para um show e o lançamento do livro. Ele, que também participou do evento coletivo Cio da Terra em Caxias do Sul, em 1982, vai cantar músicas da Massafeira, seus maiores sucessos, como Pavão Mysterioso e Manga Rosa, e também vai mostrar novidades. “Vai ser um show de voz e violão, eu diria que será um repertório de passeio amplo, uma panorâmica de minha carreira, um sarau litero-musical”, destaca.

Ednardo acredita que o resgate da Massafeira Livre pode vir a influenciar artistas que hoje em dia estão começando, porque ele relembra o conceito de espetáculo coletivo. “No livro fazemos questão de ressaltar que a gente pode fazer coisas deste tipo, que é possível realizar eventos sem filtragem pré-determinada, que é possível encontrar uma saída dentro de um mercado que aposta sempre nos mesmos nomes, que por melhores que sejam, acabam sufocando a expressão de muitos outros”, argumenta. Para ele, o Ceará e o Rio Grande do Sul são polos gêmeos em função de suas possibilidades existenciais, pois a batalha de fazer, de ser aceito pelas grandes comunicações de massa, é exatamente a mesma.

Apesar do sucesso, quase não existem registros do movimento na imprensa do passado.  A censura impediu que fosse amplamente divulgado nos veículos. Muitas entrevistas foram realizadas, mas jamais foram publicadas ou exibidas. Mais do que isso, havia agentes da repressão infiltrados nos bastidores do show. Ele mesmo chegou a sofrer uma prisão relâmpago e teve sua casa invadida, com livros e discos destruídos. Além disso, vários dos artistas do Massafeira foram presos, sob as acusações de participação em movimentos estudantis, de promover caravanas culturais ou de realizar trilhas sonoras para espetáculos de grupos de teatro. Ednardo lembra que os artistas viviam no exílio em sua própria terra, mas, sem saber, estavam fazendo história.

“Eles são muitos, mas não podem voar”

Foi em 1976 que Pavão Mysterioso, a música mais conhecida de Ednardo, transformou-se em um ícone de sua carreira artística. A música fez sucesso em todo o Brasil porque era o tema de abertura da novela Saramandaia, de Dias Gomes, em que Wilza Carla explodia, Juca de Oliveira voava e Sônia Braga pegava fogo, em função de seu furor uterino. Hoje Ednardo diz que é quase impossível não cantá-la em seus shows. Ele diz que é uma honra, que ela é uma referência: “Músicas de outros tempos não me deixam aperreado, canto com muito prazer, com a mesma energia de sempre, não fico de saco cheio”, comenta. Ele lembra que há alguns semanas fez um show no Canecão, no Rio, quando 90% das pessoas eram muito jovens. Ele achou que elas não se lembrariam, mas na hora todos cantaram.

O músico acredita que é a internet que ajuda a fazer com que os sucessos do passado continuem na boca do povo. “Ela representa um campo mais favorável para os artistas do que as gravadoras”, diz. De Pavão Mysterioso, Ednardo lembra que a música também foi gravada mais de 20 vezes, inclusive na Europa, virou hino GLS e é considerada sagrada pelos índios do Xingu. Mas ele diz que o sucesso dela não mudou sua trajetória, pois ele já não era mais um garoto quando estourou. Ela, aliás, nem era uma música nova, pois integrou originalmente o segundo dos três discos que gravou antes da novela.

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