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Bar Ocidente Notícia da edição impressa de 03/12/2010

Ocidente atravessa gerações e completa 30 anos no Bom Fim

Ricardo Araújo, especial JC

GABRIELA DI BELLA/JC

“Estamos fazendo 30 anos...é, a nossa vida começa com o Ocidente”. A frase é disparada ao telefone, entre uma conversa e outra com os convidados da festa que acontece nesta sexta para comemorar as três décadas do bar que mitificou a esquina entre a Osvaldo Aranha e a João Telles. Berço de uma juventude artística nos anos 1980, palco de uma mudança cultural na década de 1990 e protagonista de uma revitalização do bairro Bom Fim nos anos 2000, o Ocidente, sem dúvidas, é um dos bares mais significativos de Porto Alegre.

Neste mesmo dia 3, mas em 1980, seis amigos abriam as portas do Bar Show Seis Amigos Limitada. “Era um nome que entrava perfeitamente em um contrato social”, explica Fiapo Barth, remanescente da administração original. O Brasil vivia ainda sobre a repressão do regime militar e todo cuidado era justificado. No entorno do bar havia a “Esquina Maldita”, entre a Sarmento Leite e Osvaldo Aranha. O bairro respirava desde os anos 1960 uma reunião natural de estudantes, militância, artistas, boemia e, claro, a polícia. Os anos 1970 passaram e com eles a sensação de que cedo ou tarde a opressão cederia. Como toda ação remete a uma reação, quanto mais censurados eram os jovens na época, mais eles criavam e precisavam de locais para se expor. Foi a partir dessa necessidade que o Ocidente surgiu. “Ele tem muitas ideias, foi formado por muitas ideias, mas a básica é o espaço, ter a disponibilidade do espaço para que as coisas acontecessem. Uma liberalidade de espaço para que as coisas possam acontecer. O resto é com o povo”, conta Fiapo.

E o povo, na primeira noite, tomou conta. Sem ninguém saber, o então recém-criado grupo de teatro Balaio de Gatos invadiu o bar para uma apresentação. Cada ator se posicionou discretamente em um ponto estratégico até que a performance começou: Uma mulher que deixara as janelas de casa aberta perdera a chave e, neurótica com o temporal que se aproximava, caminhava e angustiava o restante do bar; outra se atirava pelas paredes e gritava “minha vida, minha vida”. “Eram coisas loucas, não tinham muito sentido. Nem me lembro direito”, esforça-se Patsy Cecato, atriz presente na apresentação. A recepção foi tão positiva que Patsy, além de se lançar na carreira teatral junto ao grupo, arrumou o primeiro emprego como garçonete do Ocidente. E o bar, já nas primeiras horas, confirmou a vontade de ser palco do que viria a acontecer.

Com a proposta de reunir quem tivesse algum interesse artístico, o Ocidente bem que tentou se tornar um reduto da dramaturgia. “Foi onde mais investimos. Todos nossos investimentos foram para que acontecesse teatro”, explica Fiapo, quando é interrompido pelo som de uma guitarra que se preparava para a apresentação, “mas a música tomou conta”, ri o administrador do bar.

O Ocidente viu e ouviu o surgimento das bandas mais relevantes do contestável gênero rock gaúcho. Por lá passaram TNT, Cascavelletes, Graforréia Xilarmônica, De Falla, Replicantes, Julio Reny, Eureka, Nei Lisboa, entre tantos outros grupos que vingaram ou desapareceram. “A música em Porto Alegre não tinha para onde ir, caiu aqui e se achou”, admite Fiapo. “O Ocidente está entrelaçado na minha carreira. O lançamento dos Cascavelletes fizemos lá, o TNT surgiu lá”, confirma Nei Van Soria. Carlos Gerbase que já havia usado o bar como locação para seu primeiro filme - Inverno - em 1983, junto com sua banda Os Replicantes fizeram do não palco do Ocidente palco de shows memoráveis que entraram para o folclore da casa. A primeira apresentação da banda punk em 1984 teve como pirotecnia arremesso de ovos contra os músicos. “As pessoas achavam que punk era sujeira então tinha que atirar ovo na banda porque ela era punk. A gente ficou p. da cara. O Afonso, um dos sócios do bar, pensou que acharíamos ótimo, que iria fazer parte do espetáculo. Aí que a banda ficou punk mesmo, ficou braba”, se diverte ao lembrar o cineasta.  

Teatro, cinema, música e também moda. As convergências de manifestações artísticas efervesciam pelas janelas do Ocidente e foi inevitável que elas se misturassem. “Teve esse pessoal da moda que interferia no pessoal da música que interferia no pessoal do teatro então tivemos uma renovação visual de todos os grupos. Muitas atrizes foram cantar em bandas e muitas bandas foram fazer teatro. Essa caldeira eu acho que foi legal”, enfatiza Fiapo. Sem qualquer placa que identifique o lugar e com a visão externa inexistente devido à localização no segundo andar do bar, o Ocidente, ao reunir tantos expoentes de uma cultura artística, criou também lendas as quais mitificaram o espaço. “Isso foi uma das razões que nunca necessitamos ter divulgação, a lenda era maior que nós. O que o bairro disse da gente (risos) nem nós sabíamos de tudo que havíamos feito”, recorda o administrador.

Os anos 1980 se aproximavam do fim e o Ocidente começava a se transformar. “Éramos um boteco escroto mesmo. O chão quase caia, o banheiro era péssimo, a cerveja era sempre quente, as janelas eram sempre quebradas. Essa foi a primeira fase, onde tudo era mais criativo”, reflete Fiapo. A cultura vigente à época que refletia ideais hippies foi se modificando. A repressão, antes escancarada e legitimada, agora acontecia disfarçada e podia ser contrariada. Em 1988 ocorreu a famosa invasão do Ocidente. Policiais invadiram o bar e encaminharam todos os presentes ao Palácio da Polícia para identificação. Ônibus usados pela brigada ficaram estacionado na Osvaldo Aranha a fim de transportar os detidos. “Essa abordagem foi direcionada para a gente, foi pessoal e muito mais séria. As pessoas foram humilhadas, foi inconcebível, não podia acontecer”, conta Fiapo. Gerbase, que não estava na ocasião, recorda que as abordagens eram corriqueiras: “Na famosa invasão no Ocidente eu, infelizmente, não estava (risos). Mas lembro de vários momentos que tínhamos que ter cuidado na hora de sair do bar porque a polícia estava ali realmente a fim de encher o saco”.

Entre criações e confusões, a década acabava e o Ocidente cunhava uma cultura local. “É inimaginável os 80 sem o Ocidente. Ele foi pioneiro, fundamental e que abrigou gente de diversos campos”, conclui o cineasta, complementado pelo músico Nei Van Soria: “O Ocidente, de certa forma, era um curso de pós-graduação, ou graduação, artística sem professor. Foi uma verdadeira escola para toda uma geração.”

O início dos anos 1990, contaminados pelo aumento do consumo de cocaína e a disseminação da Aids, interferiram na cultura do bar. “Tivemos uma fase que a danceteria tomou conta, que era a casa selada e as bandas tocavam às 4 horas da manhã. Uma fase meio obscura em que as pessoas tinham uma batida difícil”, reflete Fiapo.

De volta às origens

Jimi Joe atacando de DJ em 1997
FOTO OCIDENTE/DIVULGAÇÃO/JC

De 1994 a 1996 o bar fechou. A retomada veio em forma de música, como não poderia deixar de ser. A fim de quebrar o clima pesado que existia na época, o músico Jimi Joe resgatou na disco music dos anos 1970 um espírito sumido do bar. “Tivemos uma limpeza no ar. O Jimi foi buscar na disco a alegria, uma música toda em tom maior. Aquilo mudou a cidade novamente. Eu não tive intenção de voltar, tive que retomar as atividades por razões da empresa e a cidade veio de uma forma. O espaço do Ocidente não havia sido preenchido.”, conclui Fiapo.

A volta trouxe uma nova cara para o bar. O Sarau Elétrico, presente desde 1990 como representante da literatura, foi a cada ano se consolidando. O almoço, sempre priorizado pela administração, cunhou-se como um dos principais da comida vegetariana na cidade. A música eletrônica do Estado deu seus primeiro passos na pista da casa. As festas foram ganhando identidade a ponto de se tornarem o carro-chefe financeiro do espaço.

OCIDENTE/DIVULGAÇÃO/JC
O bar em 1981
O bar em 1981

“Hoje em dia ele se alterou e é natural que tenha alterado. É um crescimento do bar se modificar. Ficar fiel a um comportamento que aconteceu há quase 30 anos seria ficar datado. Porém, ele mantém o viés da proposta alternativa”, comenta Nei Van Soria. O fato de se modificar não é negado por Fiapo, que admite que o bar, hoje em dia, é tratado como negócio: “Pensar em shows, eventos, isso faz parte do negócio. Isso que dá a respeitabilidade, não é a danceteria ou a grande festa do final de semana - que realmente tocam o negócio. Sempre pensamos primeiro o evento, depois o almoço e por último a danceteria”.

Da mesma forma que o bar foi se moldando conforme seus frequentadores, essa repaginação não foi diferente. Enquanto nos anos 1980 a mistura e experimentação eram o mote, hoje as diferenças permanecem, porém segmentadas. “Hoje as coisas não se misturam e isso é muito ruim. O público de show não vai ao Sarau. O pessoal do Sarau não vai a show e nenhum deles vai ao teatro. E isso tinha nos anos 80, as pessoas vinham aos shows, vinham ao teatro, vinham ao que tivesse. Elas precisavam de um ambiente fértil para se reunir. Hoje eu acho que as pessoas tentam se profissionalizar muito cedo, não tem aquele período de experimentação”, analisa Fiapo.

O show não pode parar

Nei Van Soria comemorou os 40 anos de carreira no local
FOTO EURICO SALIS/DIVULGAÇÃO/JC

“Pelo que vejo no público de hoje, acredito que ainda precisam do Ocidente”, enfatiza Fiapo. E o plano não é parar enquanto a demanda necessitar. O maior desejo do administrador é conseguir que a casa onde o bar se instalou há 30 anos um dia realmente se torne própria. O prédio de 140 anos sofreu diversas reformas nesse tempo. Modernizações e adequações conforme as novas leis sempre foram cumpridas. “A ideia, se o prédio chegar a ser do Ocidente, é nunca parar. Todo esse crescimento estrutural fizemos em cima de um prédio alugado. Como foi feito em muitas etapas pequenas é um festival de puxadinhos”, friza Fiapo.

O “festival de puxadinho” Ocidente, justamente por ser assim desde o início, é que encanta e conserva-se na vida e no imaginário gaúcho. “Ele é simples, ele nunca foi um bar confortável ou chique. Ele é um bar que tu te sente livre, tu tens liberdade”, sentencia Gerbase.

E se Porto Alegre não tivesse o Ocidente? “Acho que seria muito difícil. Ele serviu como palco, literalmente, e como fórum para os delírios de todo mundo”, responde Nei Van Soria. Mas para um dos jovens que fundaram o bar, a pretensão nunca foi maior do que a diversão: “Acho que o Bom Fim estaria morto, mas nunca tivemos a pretensão de mudar a cidade. Queríamos um lugar para nos divertir. Antes de mais nada queríamos um lugar para nos divertir”, esclarece. A diversão, então, se estendeu para três gerações.

COMENTÁRIOS
bebete indarte - 03/12/2010 - 09h40
AMO AMO AMO o OCIDENTE> LUGAR MÁGICO, dediquei uma homenagem no FACEBOOK pro bar. PARABÉNS FIAPO, parabéns à todas as pessoas que gostam, se envolveram, com o OCIDENTE! A festa é nossa.

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