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Literatura e cinema Notícia da edição impressa de 11/11/2010

Meirelles foge da partitura

Caroline da Silva

REPRODUÇÃO MASTER BOOKS/DIVULGAÇÃO/JC

“Houve um tempo em que eu respondia que não queria ver a cara das minhas personagens quando me chegavam pedidos de adaptação de romances meus ao cinema.” A frase é de José Saramago no livro Cegueira, um ensaio, lançado recentemente por Fernando Meirelles. O escritor português diz que era um radical da escrita: “o que não passava pela palavra posta num papel simplesmente não existia”. E, sendo assim, o cineasta brasileiro se tornou uma das vítimas dessa intransigência. Assim que o livro Ensaio sobre a cegueira foi publicado no País de língua portuguesa da América Latina, o diretor imediatamente o procurou para manifestar o seu interesse em adaptá-lo. Não fosse Saramago o ter ignorado, teria sido o seu primeiro filme, antes de Cidade de Deus e O jardineiro fiel.

Esses dois longas, aliás, já haviam representado um flerte de Meirelles com o mundo da literatura. Já havia sido publicado o roteiro de Cidade de Deus junto a curiosidades da produção e uma versão em italiano de O jardineiro fiel. Mas Cegueira, um ensaio (Master Books, 144 págs., R$ 190,00) tem sido considerado sua primeira obra literária porque traz reflexões escritas diretamente por ele.

O título faz referência ao processo desenvolvido no set de filmagem, pois no livro o diretor de cinema revela suas inquietudes, a metodologia, os improvisos e seu ponto de vista durante todo o processo de contar a comovente história sobre a humanidade em meio à epidemia de uma misteriosa cegueira. A edição também reúne 285 imagens inéditas de locações, elenco, bastidores e reproduções de cenas. Cegueira, um ensaio foi idealizado por Silvinha Meirelles, irmã de Fernando, que é autora de livros infantis. Ela reuniu e editou os textos publicados no blog de Meirelles sobre as filmagens de Ensaio sobre a cegueira.

Meirelles conta que escrever lhe ajuda a organizar as ideias: “Às vezes no processo de um filme, que é tão longo, a gente esquece algumas ideias ou motivações que estavam no início do processo. Ir anotando essas coisas fazem com que eu sempre saiba para onde queria ir”. O diretor também admite que o projeto foi encampado por sua irmã. “A Silvinha teve a ideia e concebeu o livro, chamou uma artista gráfica para fazer o projeto e negociou a publicação. Além disso, como ela escreve melhor do que eu, fez a revisão do meu texto. Fez um pouco o papel de uma editora”, afirma.

Na obra, ele escreve que filma como um jazzista. Na entrevista, fala que isso tem relação com o improviso, sim, mas não só isso: “Para comparar, (comparar método e não capacidade de direção, não ousaria tal coisa) eu diria que o Hitchcock seria um músico clássico”. Meirelles relata que, antes de começar a rodar, o cineasta considerado o mestre do suspense havia desenhado cada enquadramento do seu filme com a lente que iria usar, com o movimento de câmera e o tempo de duração do plano. “O Guel Arraes faz assim também, ele sabe em que palavra do ator vai cortar o plano antes de rodar. O processo de filmagem para estes diretores consiste em conseguir reproduzir da forma mais precisa possível o que está desenhado em seus storyboards, como um pianista que conhece a partitura que vai tocar e sabe o que buscar em cada compasso”, destaca, usando uma bela metáfora. “Mas há também diretores como eu, mais jazzísticos, que conhecem a música que vão tocar, sabem onde precisam chegar, mas no caminho se permitem sair da partitura e usar estímulos jogados pelos outros músicos (atores, equipe) no calor da apresentação. Eu não faço storyboards, vou decidindo o que farei em seguida na medida em que rodo, isso faz com que o set seja um momento de criação coletiva e não de execução de um plano.”

Um dos questionamentos que aparecem no livro é se o diretor havia se vendido ao mercado, por ter aceitado cortar certas cenas de Ensaio sobre a cegueira, como apontaram sua mulher e filha e ele negou. Hoje, Fernando Meirelles tem uma resposta conclusiva: “Um filme que custa US$ 25 milhões é um produto de mercado e precisa ser vendido. Seria irresponsabilidade minha se não pensasse nisso. Quando quero ser subjetivo, descompromissado e livre na minha criação, faço um desenho no meu caderno ou escrevo um blog sobre um filme”.

É possível descobrir como foram criadas as caras das personagens de Saramago através da leitura de Cegueira, um ensaio. E sobre o produto final, o próprio escritor declarou no livro: “Nunca esquecerei a tremenda emoção que experimentei ao ver passar por trás de uma janela, em fila, as mulheres que vão pagar com os seus corpos a comida que lhes havia sido sonegada, a elas e aos seus homens. Essa imagem resume, para mim, todo o calvário da existência da mulher ao longo da História”.

Olhos para ver

Hoje, durante a 56ª Feira do Livro de Porto Alegre, a mesa-redonda do Ciclo Fahrenheit 451 homenageia o autor José Saramago. O filme Ensaio sobre a cegueira foi exibido ontem nas Sessões da Feira e nesta quinta, às 19h, na Sala Leste do Santander Cultural (Sete de setembro, 1.028), haverá o debate sobre a obra. Participam da atividade a professora de Literatura da Ufrgs Márcia Ivana de Lima e Silva e as psicanalistas Lucia Serrano Pereira e Lucy Linhares da Fontoura.

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