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Teatro Pós-dramático Notícia da edição impressa de 20/08/2010

Explosão de criatividade

Helio Barcellos Jr.

GILMAR LUÍS/JC
Hans-Thies Lehmann definiu o gênero
Hans-Thies Lehmann definiu o gênero

Uma parte considerável do teatro mundial ocidental sofreu transformações radicais nos últimos quarenta anos. O texto deixou de ser o eixo central da encenação e os personagens se transformaram em figuras. O diálogo e até mesmo a fusão com outras artes - como o cinema, a dança e as artes visuais - tornou-se intenso. Os roteiros passaram a desconsiderar a necessidade de estabelecer um “começo, meio e fim” e o ator deixou de ser um robô, um mero instrumento nas mãos do diretor (que também perdeu sua supremacia e autoridade). O ator foi convocado a pensar, transformou-se em criador e coautor do espetáculo. A vida passou a ser mostrada em fragmentos, as imagens se tornaram abstratas e o teatro aproximou-se da linguagem dos sonhos.

O movimento, que evidentemente não foi planejado, partiu de uma série de criadores que intuíram algo de errado no drama convencional, em geral marcado por conflitos amorosos, familiares, de ordem política ou moral. Com raras exceções, perceberam que ele já não era mais capaz de fascinar, muito menos de provocar a catarse entre seus espectadores. Entre eles, o dramaturgo alemão Heiner Müller, o norte-americano Bob Wilson, o polonês Tadeusz Kantor, o alemão Klaus Michael Grüber, o canadense Robert Lepage e o belga Jan Lauwers, além de grupos como o Théâtre du Soleil (da França), de Ariane Mnouchkine, e da coreógrafa alemã Pina Bausch.

É neste contexto que entra em cena o pensador alemão Hans-Thies Lehmann, um professor da Universidade de Frankfurt am Main apaixonado por teatro. Ele observou as inovações por mais de uma década, conseguiu realizar a síntese e ganhou renome mundial ao batizá-lo de teatro pós-dramático. Ele lançou um livro de mesmo nome em 1999, na Alemanha, que recebeu uma versão nacional oito anos depois pela editora Cosac Naify. A repercussão da obra acabou lhe trazendo ao Brasil.

Na semana passada, quando esteve em Porto Alegre, Lehmann atraiu cerca de 150 espectadores, entre artistas, estudantes e público, em cada um dos três encontros que protagonizou e que formaram o recheio do seminário Teatro contemporâneo: para além do drama. A parceria reuniu o Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Ufrgs, o Instituto Goethe e a Secretaria Municipal da Cultura.

O Teatro pós-dramático, para o professor, é uma festa em que os participantes devem se lembrar dos que não podem participar dela. “Do contrário, não é nada”.  Em sua fala, ele explicou várias razões que provocaram as rupturas do fazer teatral. Uma delas é a retomada da consciência de que o teatro é o lugar do pensamento e da crítica. Outro motivo é a constatação de que o cinema e a televisão sabem suprir muito melhor a necessidade para o drama do que o teatro. 

Mas, mais do que isso, ele destacou que a forma dramática não é mais concebível em um mundo marcado pela ideia de um sujeito conectado em rede. “A vida privada é cada vez menos experimentada, seguimos o modelo de um personagem fragmentário dividido em trechos, episódios, fases”, declarou.  Falou que o ser humano precisa de mais flexibilidade, ainda que cada um tenha a vontade do drama dentro de si, impregnados por uma lógica cristã, que ele considera irreal. “Mas os filmes de Hollywood seguem a antiga tradição à perfeição e não se preocupam em fazer uma reflexão artística profunda.”

Apesar da ironia, Lehmann destacou que não se deve desprezar o teatro de entretenimento, ele também gosta de se divertir e não vê problema algum nisso. “Mas esta modalidade não me interessa, não faço ciência teatral com ela”, disparou. Muito menos história. Citou Goethe, que apresentava apenas uma vez por ano as peças pelas quais é reconhecido até hoje. “No resto do tempo ele encenava os melodramas que o público tanto gostava”. Algo não muito diferente das grandes instituições teatrais de hoje, mas “o sucesso das massas não é idêntico a seu efeito, o das massas caiu no esquecimento”. Provocativo, declarou que estudar este tipo de teatro diz mais respeito aos sociólogos, que podem vir a identificar que tipo de montagem atraiu mais em determinadas épocas.

Para fugir das fórmulas

Entre dezenas de citações, referências, ideias de filósofos e de gente de teatro, Lehmann acabou estabelecendo uma relação do teatro pós-dramático com os filmes do cineasta francês Jean-Luc Godard. Lembrou de um ataque que recebeu de um crítico, exigindo que ele respeitasse o começo, o meio e o fim em seus filmes, de acordo com a eterna Poética de Aristóteles. “O senhor tem razão, mas não exatamente nesta ordem”, respondeu.  Ele também falou de um de seus grupos de teatro prediletos, o inglês Forced Entertainment, que na peça Blood Messy traz um palhaço que tenta contar a história do mundo, mas é interrompido a todo momento, nunca consegue ultrapassar as primeiras frases.

Gentil, Lehmann mostrou-se satisfeito em manter contato com os artistas porto-alegrenses e elogiou: “Me alegra muito estar cercado por colegas que não têm interesse somente em teoria ou apenas pela prática”. Ele também deu uma dica aos admiradores dos textos de Bertolt Brecht. Sugeriu que se dediquem mais às peças didáticas do que às épicas, a títulos como Aquele que diz sim, aquele que diz não. Nas entrelinhas, pareceu sugerir que os artistas busquem criatividade, que desenvolvam ideias próprias com a sua singularidade, que não siga fórmulas nem cópias. E enfatizou: “Existe tanto o bom quanto o mau teatro pós-dramático”.

Da difícil tarefa de fazer perguntas

Depois da conferência matinal realizada no palco do Instituto Goethe, no dia 12 de agosto, um segundo encontro com o teórico alemão Hans Thies-Lehmann também foi realizado na mesma noite, mas no Teatro Renascença. No palco, ele esteve rodeado por catorze encenadores (todos enfrentando a difícil missão de fazer perguntas pertinentes), além do tradutor Peter Naumann.

Dentre eles, alguns que se consideram pós-dramáticos; outros que são de fato, não se preocupam com isso ou talvez nem suspeitem. A intenção da organização do evento foi a de provocar a reflexão dos próprios artistas em relação a sua criação. O diretor Júlio Conte, por exemplo, escreveu vários artigos em seu blog relacionados à presença de Lehmann. “O teatro que faço é o teatro possível para o artista que sou”, assinalou.

A atriz e a diretora Mirna Spritzer foi a encarregada da mediação e a lista de entrevistadores foi composta pelos diretores, atores e coreógrafos (no palco, da esquerda para a direita): Camilo de Lélis, Inês Marocco, Gilberto Icle, Patrícia Fagundes, Marco Fronchetti, Jezebel De Carli, Breno Ketzer Saul, Mirna Spritzer, João de Ricardo, Alexandre Vargas, Aírton Tomazzoni, Mônica Dantas, Roberto Oliveira e Júlio Conte). Nas encenações de cada um deles, é possível encontrar elementos que podem ser vistos como atribuições do teatro pós-dramático, modos de fazer teatral ímpares que estão merecendo um estudo aprofundado.

Mirna perguntou como fica a posição do ator dentro deste contexto. Lehmann explicou que ele é sobretudo um artista que faz um exercício de reflexão conjunta. “O ator não vai mais apresentar suas emoções, vai se manter neutro, querendo que o espectador descubra as emoções ao invés de recebê-las prêt-à-porter”, destacou. O professor acrescentou que a formação teórica deveria ser reforçada, que os atores vão fazer muitas descobertas se saírem do modelito Stanislavski. “Com isso, não digo que o esqueçam, mas que ele não ocupe o centro da reflexão”, ressaltou.

Na palestra do dia seguinte, realizada novamente no Instituto Goethe, tendo o crítico teatral do Jornal do Comércio Antonio Hohlfeldt como mediador, o pensador alemão respondeu a outros questionamentos, como o feito pela historiadora e filósofa Paulina Nólibus em relação ao número restrito de espectadores atraídos por um espetáculo sem formulação tradicional. “Os artistas devem fazer o teatro que corresponde a sua visão de mundo, se conseguir cativar só um público pequeno, isso é o destino e a gente tem que conviver com ele”, disse. Lehmann, um homem que acredita que o Estado precisa da arte, mesmo que ele não saiba disso, se declarando contra a cobrança de ingressos, afirmou: “Se você quer ser famoso, não experimente. Experimentar não dá garantia de nada, mas terás uma oportunidade”.

Impressões de encenadores

Ouvindo Lehmann percebe-se que ele não fala de algo exatamente seu, mas apenas constata uma tendência que se iniciou na aurora do séc. XX, com os movimentos sócio-culturais libertários que vieram a irromper em Paris em 1968, quando estudantes e intelectuais levantaram a bandeira de uma estranha revolução que, embora sufocada, continua em andamento. A Escola Social de Frankfurt vem enfrentando as questões que surgem a partir da fragilidade da condução racional do destino da humanidade. E Habermas, citado por Lehmann em suas palestras, propõe um novo paradigma que, resumidamente, é a descentralização dos sujeitos num agir comunicativo e numa ética do diálogo. Penso que a constatação do pós-dramático, contribuição de Lehmann para esse novo paradigma, não se restringe só ao teatro, mas é uma reflexão inter-relacionada com outras áreas do saber, principalmente com as filosofias de Derrida, Foucault e Deleuze. Lembro-me de uma frase de Lehmann, citando Habermas: “Ninguém chegou, ainda, a ser totalmente ele mesmo”, e me indago se seria  pós-dramático o teatro do pós-humano. O fantasma de Nietzsche, a dançar de felicidade, tem aparecido com frequência por todo lado. Sinal dos tempos.

-Camilo de Lélis, diretor teatral e ator (Grupo Face e Carretos)

Lehmann foi supergeneroso, ele se dispôs a responder um monte de perguntas, achei ele muito legal, dentro da medida e sempre indo um pouco além. Ele tem um conhecimento impressionante de filosofia e história, acho que hoje em dia é um dos pensadores mais importantes que reflete sobre teatro e alcançou até mesmo um status de celebridade com seu livro. Me manifestei de forma muito pessoal  no palco, quando disse que era fã dele, mas é um luxo ele ter vindo a Porto Alegre para realizar uma discussão que gera polêmica. Eu acho bacana quando a gente lê um livro repleto de especificidades e acaba se identificando, encontrando semelhanças com o teatro que a gente faz. Mas acho que é ruim tentar entrar na gaveta do teatro pós-dramático. Quem tentar transformar as ideias dele em regras estará fadado a ser apenas uma cópia. Pensar que “agora vou fazer o teatro pós-dramático” significa engessar sua arte, o negócio é tentar fazer a sua própria história.

- Jezebel de Carli, diretora teatral e atriz (Santa Estação Cia. De Teatro)

O embasamento teórico é de primeira linha e as análises e interpretações confirmam o talento ensaístico de Lehmann, que nos ensina a ler as teatralidades híbridas presentes no mundo. É um estudioso que sabe, como poucos, compreender e explicar os processos criativos da cena contemporânea. No entanto, esta corrente teórica e europeia de pensamento chega ao Brasil com um considerável atraso. A minha formação nunca foi linear, logo o teatro que faço possui procedimentos cênicos multifacetados. Já nasci dentro desse movimento. Na criação, como ator, lido com cada cena, não me preocupo com a história, não importa se é aristotélica ou não, cada momento da peça, cada ação, tem que ter uma verdade e uma verdade que conta só para o ator, porque ela pode ser uma verdade absolutamente contrária à verdade falada no espetáculo. Acho que o teatro não deve se alimentar só de teatro, porque vira incesto. O teatro tem que ser um forno que queima outras coisas. O mal do teatro é que ele só fala de si mesmo o tempo todo, é uma coisa ensimesmada, é autofágico.

-Alexandre Vargas, diretor teatral e ator (Grupo Falos & Stercus e CPTA - Centro de Pesquisa Teatral do Ator)

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