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ENTREVISTA ESPECIAL

- Publicada em 31 de Agosto de 2015 às 00:00

Brasil poderá ser um modelo para o mundo, opina De Masi

 Italiano projeta que o Brasil pode ser um novo modelo civilizatório para o mundo

Italiano projeta que o Brasil pode ser um novo modelo civilizatório para o mundo


MARCELO G. RIBEIRO/JC
O sociólogo italiano Domenico De Masi, popular pela difusão de seu conceito de "ócio criativo", já veio ao Brasil em mais de 100 ocasiões. Estreitou amizade com personalidades como o arquiteto Oscar Niemeyer e o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) e não demorou a adotar o País como objeto de estudo.O resultado é o livro "O futuro chegou", que faz uma análise dos prós e contras dos modelos sociais e econômicos existentes no mundo, destacando o Brasil como uma potencial inspiração na configuração de uma nova ordem mundial. "O Brasil é um país que está se desenvolvendo de maneira muito rápida, diretamente do período rural ao pós-industrial", afirmou De Masi, salientando também fatores históricos como a ausência de guerras e a convivência pacífica entre diferentes etnias, cenário que diverge de outras partes do mundo.Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, concedida em Porto Alegre por ocasião de uma palestra na Fundação CEEE, o italiano projeta que o Brasil pode ser um novo modelo civilizatório para o mundo. Segundo ele, essa visão se intensificou nos últimos 15 anos, com os governos de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT).No entanto, salienta que, agora, essa imagem mudou para a de um país sem planos para o amanhã. "O Brasil está concentrado no escândalo da Petrobras, na corrupção, que é uma coisa importantíssima, mas que não deve impedi-lo de projetar o futuro, pois se não o faz, outro o fará."Jornal do Comercio - O senhor refere que o Brasil é o "país do futuro", em uma alusão ao livro de Stefan Zweig (publicado em 1941), mas o senhor também observa a existência de uma história de saques e violência extremas, além da corrupção. Como superar isso e ser um modelo para o mundo?Domenico De Masi - A violência no Brasil é diferente daquela que, no mesmo período de tempo, aconteceu na Europa. Em sua história, o Brasil nunca esteve em guerra contra ninguém, com exceção do Paraguai. Todos os países da Europa guerrearam continuamente entre si, além de terem feito sucessivas revoluções. O mesmo vale para o resto do mundo, como os Estados Unidos, e países da África e da Ásia. No Brasil, existem mais de 40 etnias, que convivem muito pacificamente. Nos Estados Unidos há igrejas para brancos e para negros. Lá houve o ataque às Torres Gêmeas. Eu duvido que este ataque teria ocorrido se elas estivessem aqui. O Brasil é aceito no mundo como um país prevalentemente pacífico e portador da paz e democracia. Também existe aqui um modelo de vida muito particular, original em seu conjunto, com sua biodiversidade, diversidade também étnica, cultural. O Brasil é a sétima potência mundial por seu PIB; é o terceiro do mundo no uso da internet, tem a maior reserva de água do mundo, a maior produção agrícola; é um país que está se desenvolvendo de maneira muito rápida, diretamente do período rural ao pós-industrial. São todas vantagens extraordinárias, que se constituem em um modelo de vida.
O sociólogo italiano Domenico De Masi, popular pela difusão de seu conceito de "ócio criativo", já veio ao Brasil em mais de 100 ocasiões. Estreitou amizade com personalidades como o arquiteto Oscar Niemeyer e o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) e não demorou a adotar o País como objeto de estudo.

O resultado é o livro "O futuro chegou", que faz uma análise dos prós e contras dos modelos sociais e econômicos existentes no mundo, destacando o Brasil como uma potencial inspiração na configuração de uma nova ordem mundial. "O Brasil é um país que está se desenvolvendo de maneira muito rápida, diretamente do período rural ao pós-industrial", afirmou De Masi, salientando também fatores históricos como a ausência de guerras e a convivência pacífica entre diferentes etnias, cenário que diverge de outras partes do mundo.

Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, concedida em Porto Alegre por ocasião de uma palestra na Fundação CEEE, o italiano projeta que o Brasil pode ser um novo modelo civilizatório para o mundo. Segundo ele, essa visão se intensificou nos últimos 15 anos, com os governos de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

No entanto, salienta que, agora, essa imagem mudou para a de um país sem planos para o amanhã. "O Brasil está concentrado no escândalo da Petrobras, na corrupção, que é uma coisa importantíssima, mas que não deve impedi-lo de projetar o futuro, pois se não o faz, outro o fará."

Jornal do Comercio - O senhor refere que o Brasil é o "país do futuro", em uma alusão ao livro de Stefan Zweig (publicado em 1941), mas o senhor também observa a existência de uma história de saques e violência extremas, além da corrupção. Como superar isso e ser um modelo para o mundo?

Domenico De Masi -
A violência no Brasil é diferente daquela que, no mesmo período de tempo, aconteceu na Europa. Em sua história, o Brasil nunca esteve em guerra contra ninguém, com exceção do Paraguai. Todos os países da Europa guerrearam continuamente entre si, além de terem feito sucessivas revoluções. O mesmo vale para o resto do mundo, como os Estados Unidos, e países da África e da Ásia. No Brasil, existem mais de 40 etnias, que convivem muito pacificamente. Nos Estados Unidos há igrejas para brancos e para negros. Lá houve o ataque às Torres Gêmeas. Eu duvido que este ataque teria ocorrido se elas estivessem aqui. O Brasil é aceito no mundo como um país prevalentemente pacífico e portador da paz e democracia. Também existe aqui um modelo de vida muito particular, original em seu conjunto, com sua biodiversidade, diversidade também étnica, cultural. O Brasil é a sétima potência mundial por seu PIB; é o terceiro do mundo no uso da internet, tem a maior reserva de água do mundo, a maior produção agrícola; é um país que está se desenvolvendo de maneira muito rápida, diretamente do período rural ao pós-industrial. São todas vantagens extraordinárias, que se constituem em um modelo de vida.
JC - Seria um modelo para o mundo?

De Masi -
Neste momento, o mundo está em busca de um modelo. Que modelo de vida ou sociedade tem o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama? O Brasil tem características que o tornam um candidato muito forte a ser criador de um modelo de civilização, porque tem todos os elementos que já citei, uma democracia já consolidada, ao que se juntam características antropológicas, como o fato de ser o país mais mestiço, antes de isso também acontecer no resto do mundo. Foi uma mestiçagem pacífica, o Brasil tem uma reserva de água, mas tem também de alegria, convivência, solidariedade, erotismo. São valores que o resto do mundo está perdendo, e que entendem serem os pontos fortes do Brasil.

JC - Vivemos muito seriamente a questão da violência urbana e a existente nas periferias...

De Masi -
A violência dos ricos contra os pobres é permanente, e ocorre em todas as épocas históricas e países do mundo. Os ricos sabem como se apropriar da riqueza dos pobres, e têm medo deles. Quanto mais alguém é pobre, mais os ricos têm medo e mais colocam em vigor sistemas de manipulação ou repressão. A distância entre ricos e pobres é muito grande. Segundo um ranking da revista Forbes, as 85 pessoas mais ricas do mundo têm uma riqueza equivalente à de 3 bilhões de pessoas. Essa apropriação de riquezas é tipicamente neoliberal. É o neoliberalismo que cria essa distância crescente. Na verdade, os dois únicos países em que o abismo entre ricos e pobres diminuiu foi o Brasil e a China. No Brasil, 80 milhões de pessoas mudaram seu nível econômico, em uma população de 200 milhões. Na China, de 1,4 bilhão de pessoas, 300 milhões subiram de nível, com a diferença de que a China é uma ditadura de partido único. O Brasil é uma democracia. Isso naturalmente cria uma hostilidade diante de todos os ricos do mundo, porque são neoliberais, e estes não podem tolerar um país social-democrata como o Brasil.

JC - Viveria no Brasil?

De Masi -
Viveria também na China, na França. Gosto muito de todo o mundo. Há muitos lugares no mundo onde gostaria de viver. Mas prefiro viver no país onde nasci e viajar sempre. Acho que esta é a centésima vez que venho ao Brasil. A primeira vez que vim ao Brasil, há uns 20 anos, foi a Porto Alegre. Na época o prefeito era o Tarso Genro (PT), que me convidou para uma palestra.

JC - Em seu livro "O futuro chegou", o senhor salienta os ganhos dos governos de FHC e Lula, colocando-os como complementares na evolução econômica e social do País. Atualmente, no entanto, vivemos uma polarização entre estes dois partidos, expressa em protestos, mobilizações e principalmente nas redes sociais. Na sua opinião, o que essa polarização diz sobre o Brasil?

De Masi -
A polarização também acontece nos Estados Unidos, entre democratas e republicanos; na Itália, entre a esquerda e o bloco de direita, com Berlusconi e muitos outros. A polarização é típica da democracia industrial. Aqui, acho que durante a última eleição, Aécio Neves (PSDB) estava muito abaixo nas pesquisas, mas com a queda de Marina Silva (PSB), ele acabou crescendo. Então houve uma ilusão da direita de que o Aécio pudesse vencer. Os ricos brasileiros investiram muito nele e tinham muita esperança de vitória. Porém, Dilma Rousseff (PT) venceu por pouco, e isso criou um grande rancor na direita, porque viram fugir a possibilidade da vitória que estava vindo quase de bandeja. Isso criou uma reação muito forte, porque a democracia liberal do mundo não pode tolerar que haja uma social-democracia brasileira. O neoliberalismo busca ser expansivo, tenta contagiar o mundo.

JC - Tanto no exterior quanto no Brasil, estamos vendo uma contestação das formas correntes de representação política. O que o mundo está buscando?

De Masi -
A crise dos modelos políticos é universal. O modelo soviético caiu e a Rússia ainda não elaborou um exemplo alternativo; o de Mao Tse-Tung, na China, também caiu, e não há substituição; nos Estados Unidos, há um modelo que se baseia na potência militar e científico-econômica, mas não há um conceito de democracia a ser exportado. Com a invasão ao Iraque, a guerra contra o Afeganistão, os Estados Unidos perderam a imagem de grande democracia mundial, imprimindo uma imagem mais imperialista. O mesmo se passa no Brasil. Estamos todos em busca de um novo modelo para o mundo. Os modelos que experimentamos nasceram nos séculos XVIII e XIX, em que havia um desequilíbrio grande entre a população instruída e a analfabeta, em que os alfabetizados eram 2% ou 3% da população; hoje a população mundial é maior, somos 7 bilhões de pessoas que não são apenas bocas a se alimentar, mas que também pensam. É muito mais complexo governar 7 bilhões de cérebros pensantes. Não só a maior parte das pessoas têm instrução, como são interconectadas, o que faz com que constituamos um cérebro global que não havia antes. É complicado criar um modelo político para essa nova sociedade, e tudo isso depende dos intelectuais, pois o modelo político é criado por intelectuais, não por políticos.

JC - O que o senhor pensa de novos partidos como o Podemos, na Espanha?

De Masi -
Essa é uma das forças que surgem a partir da ideia de que este modelo atual não funciona mais. Na verdade, o Podemos é uma força que representa a necessidade de um novo formato, que ainda não existe e que não será criado pelos políticos ou as massas, mas pelos intelectuais. A civilização ocidental atual foi criada por Adam Smith, Montesquieu, Tocqueville, Marx... não há gente como eles agora, que possa criar um modelo para o futuro. Devemos buscá-lo, os jovens devem buscá-lo.

JC - Em que medida o Brasil pode se inserir no conceito de "knowledge workers"? Há indicativos de que essa perspectiva possa superar o modus operandi tradicional, a pontos de sermos uma pátria do compartilhamento?

De Masi -
Quando Marx escreveu O Capital, a cidade mais avançada e industrializada do mundo era Manchester, na Inglaterra. Lá, 94% da população era de operários. Só 6% era de trabalhadores intelectuais. Hoje, a situação na Itália, nos Estados Unidos e em parte do Brasil, é que um terço da força de trabalho, em média, é de operários, outro terço é de funcionários de banco, gente que trabalha com burocracia, e outro terço é de trabalho criativo, então mudou totalmente a estrutura do trabalho. O trabalho criativo se baseia em regras totalmente diferentes das do trabalho físico ou burocrático. O trabalho do operário acontece totalmente dentro da fábrica; o trabalho do jornalista acontece na redação, mas ele poderia trabalhar tranquilamente em sua própria casa, sem pegar trânsito, despesas com combustível, poluição, manutenção das vias. Porém, ainda organizamos o trabalho como no século XIX. Isso é o chamado "cultural gap": na era industrial ainda tínhamos uma mentalidade rural e, na pós-industrial, temos a mentalidade do período anterior. E isso nos dá uma sensação de crise, o que nos impede de projetar o futuro. O Brasil não projeta seu futuro. Está concentrado no escândalo da Petrobras, na corrupção, que é uma coisa importantíssima, mas que não deve impedi-lo de projetar o futuro, pois se não o faz, outro o fará.

JC - Sobre a questão laboral, no Brasil a tecnologia está modificando a relação de trabalho, fazendo com que o profissional fique sempre conectado e disponível 24 horas por dia. É possível reverter esse processo?

De Masi -
Usamos a palavra "trabalho" para indicar tudo. Dissemos que um operário, um minerador, um jornalista, um artista trabalham, mas há três coisas diferentes: há o trabalho físico, o intelectual executivo e o intelectual criativo. O criativo não tem horário, é de 24 horas. Se tens de escrever um artigo, tua mente está pensando sobre ele o tempo inteiro, no cinema, à refeição, durante o sono. Naturalmente, para o criativo, a tecnologia é de grande ajuda, porque com o computador e a wikipedia, tenho todas as informações de que preciso. Depois, há o trabalho executivo, intelectual ou material. Este trabalho é fortemente diminuído graças às máquinas, mas quando se introduz uma máquina no escritório, o horário de trabalho deveria ser reduzido.

JC - Atualmente, como o Brasil é visto no exterior?

De Masi -
Mudou muito a imagem do Brasil durante o mandato de dois presidentes: Fernando Henrique Cardoso e Lula. Os dois presidentes tiveram um papel importantíssimo e na sequência certa, pois Fernando Henrique reorganizou a economia e acumulou riqueza; e Lula tratou de distribui-la. O problema do capitalismo é criar a riqueza, mas também a distribuir, e FHC deu prioridade à riqueza, e Lula à sua distribuição. E a imagem do Brasil mudou neste período. Antes, era o samba, o futebol, que se converteram na imagem de um país sério, criativo, mas neste último ano, a imagem do Brasil está mudando novamente, visto como um país que não sabe para onde ir, sem consenso. Nos últimos 15 anos a imagem do Brasil foi positiva, o País teve um PIB que cresceu por 30 anos seguidos.

Perfil

Domenico De Masi nasceu na cidade italiana de Rotello em 1 de fevereiro de 1938. Frequentou a universidade em Perugia, onde se graduou em Direito com uma tese sobre a História do Direito. Nos últimos anos de universidade, iniciou seus estudos em sociologia, ramo no qual se especializou em Sociologia do Trabalho, em Paris. Aos 22 anos, já lecionava na Universidade de Nápoles. Atualmente, é professor de Sociologia das Profissões na Universidade La Sapieza, de Roma, e é diretor científico da empresa de consultoria organizacional, formação, pesquisa e comunicação em Roma, fundada em 1978 pelo sociólogo. De Masi é famoso por seu conceito de "ócio criativo", segundo o qual o ócio é um fator de estímulo à criatividade pessoal. Escreveu diversos livros, como Desenvolvimento sem trabalho, A emoção e a regra, O ócio criativo, O futuro do trabalho e O futuro chegou. O Brasil é um dos principais focos de pesquisa do italiano. Em 2010, a cidade do Rio de Janeiro lhe concedeu o título de cidadão honorário.