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Entrevista Especial Notícia da edição impressa de 10/08/2015

Sartori pegou o Estado com “tempestade perfeita”, avalia Yeda

Guilherme Kolling e João Egydio Gamboa

MARCO QUINTANA/JC
“O déficit é muito maior e Sartori não pode contar com a ajuda da União”
“O déficit é muito maior e Sartori não pode contar com a ajuda da União”

No primeiro ano de mandato, 2007, a ex-governadora Yeda Crusius (PSDB) parcelou o salário dos servidores públicos estaduais, situação que se repetiu em julho, quando o atual chefe do Executivo, José Ivo Sartori (PMDB), tomou a mesma medida. A tucana avalia que a situação de Sartori é muito mais difícil, não só pelo déficit maior projetado para este ano, como também pela crise política e as dificuldades do governo federal. "O Brasil quebrou." Por isso, Yeda apoia o pacote de medidas propostas por Sartori, como a reforma da previdência estadual. Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, ela ainda comenta semelhanças entre o início das duas gestões, caso do projeto de aumentar a alíquota de ICMS, que não passou no governo da tucana. Também fala da conjuntura nacional e critica a intervenção no PSDB do Rio Grande do Sul.

Jornal do Comércio - O governador Sartori diz que a situação do Estado é mais difícil do que ele pensava. A senhora, ao assumir, também observou que o quadro das finanças era grave. Qual era a situação?

Yeda Crusius - Falei que era muito difícil já na campanha, e tínhamos um plano de governo, o que a gente propunha em quatro anos, a resolução desses problemas. Assumimos e confirmamos (o quadro). Eu não herdei um governo do PT, herdei do PMDB (do governador Germano Rigotto), portanto, tínhamos a realidade do governo, não precisamos buscar do começo. E se confirmou que o déficit era R$ 1,5 bilhão. O do Sartori é muito maior, R$ 5,4 bilhões é o que ele herda agora. E não tinha os dados, teve perda de tempo até ver a verdadeira dimensão do problema. Outra semelhança é que a gente disse: "não podemos perder receita". E a lei do aumento das alíquotas (do ICMS) do tempo do Rigotto fenecia em 31 de dezembro (de 2006). Então, comecei com menos receita (o projeto para manter o aumento do ICMS não foi aprovado). Sartori agora enfrenta uma recessão até então maquiada, assim, tem menos receita. E não pode contar com a ajuda do governo federal. Eu sabia que não teria, por outra coisa, político-partidária.

JC - O ajuste no seu governo foi feito mesmo sem passar o reajuste da alíquota do ICMS...

Yeda - Comecei com menos receita. Havíamos proposto cortar 25% dos cargos de confiança (CCs) e gastos em custeio. Com menos receita, cortamos 30% dos CCs e do custeio. Sartori começa com um déficit, o dele é muito maior, e com perda inicial de receita, não tem de onde buscar – eu não tinha por não contar com o governo federal, a experiência do primeiro mandato do Lula (PT) mostrava que não viria para os não amigos. No caso do Sartori, o Brasil quebrou nesse período. E no orçamento que ele herdou, há receitas previstas que não vão se concretizar.

JC - Há também o problema estrutural das finanças.

Yeda - A gente via três problemas: a dívida, o Rio Grande do Sul é o mais endividado; a previdência, o Estado é o que tem a maior proporção de inativos sobre ativos; e a estrutura tributária, a parte fiscal. E continuam esses problemas estruturais. Apesar de eu ter encaminhado o aumento de capital do Banrisul – quiseram colocar um rótulo como se tivesse privatizado, diziam que era igual ao (ex-governador Antonio) Britto (PMDB, 1995-1998), mas eu fiz um IPO (oferta inicial de ações), aumentei o capital do Banrisul –, fiz dois fundos de aposentadoria com esses recursos. E, com um empréstimo do Banco Mundial, reestruturamos (em parte) a dívida. E fiz o déficit zero, então ataquei os três problemas. Mas o governo Sartori herda a mesma coisa, com a diferença que naquele tempo ainda tinha céu de brigadeiro, não tinha crise internacional, a taxa de juros Selic não era 14,25%. Então, Sartori herda uma conjuntura pior, pega a tempestade perfeita. E pega a crise política, a crise da confiança, o Brasil está em recessão, não está tendo aquela expansão mínima do governo federal, que traz receita, emprego, investimento. Ele pega a crise perfeita.

JC - E teve também em comum o parcelamento do salário dos servidores, que, no seu caso, foi no primeiro ano. O problema é a política salarial do Estado?

Yeda - Não. Nem eu nem o Sartori pensamos isso. Não pode é fazer festa com dinheiro público, aplicando aumentos muito superiores ao crescimento do PIB e da inflação, que foi dado pelo governo Tarso (Genro, PT). Eu já tinha dado aumento, herdei o não pagamento das leis Britto, que deram aumentos salariais às categorias em 1995. Doze anos depois, em 2007, começamos a pagar os atrasados. E os salários. Reestruturamos todas as carreiras, menos as lideradas por sindicatos que não permitiram, o da Brigada e o dos professores. Depois do déficit zero, dei aumento salarial para todo mundo, fiz concursos, mas com previsão de receita realista. Então, não é o salário (o problema), foi a expansão salarial. Tarso fez uma gestão temerária das finanças, deu aumentos e não tinha receitas previstas para pagá-los. Agora, o problema imediato de desembolso é salário. O que eu fiz? Quando me vi com receita menor, avisei em janeiro que não ia dar para pagar salário. Sartori falou desde o começo: "Não vai dar para pagar salário". Ninguém acredita, até a realidade bater na cara. Eu cortei 30% de custeio e de CCs. A primeira medida do governo Tarso foi preencher os 30% que eu tinha cortado, dobrar, quadruplicar o valor dos CCs... E a gente também reestruturou, criei subsídios para carreiras jurídicas – Procuradoria, Defensoria, Ministério Público e Tribunal de Justiça.

JC - Fim dos penduricalhos...

Yeda - Eu acabei com os penduricalhos, o salário inicial de cada categoria era R$ 11 mil, R$ 14 mil... Agora recriaram os penduricalhos, tem "o auxílio 1", "o auxílio 2, 3, 4...", que o Sartori tem que pagar. É um aumento salarial extraordinário, a inflação fica muito longe dos aumentos que eles estão se dando.

JC - A senhora fazia um balanço mensal das contas. Como avalia a divulgação do parcelamento agora, no dia do pagamento dos salários, 31 de julho?

Yeda - Sartori tinha dito que não tinha dinheiro para pagar a folha. É outra linguagem, a governadora é economista, Sartori conhece poesias magníficas... Criamos um grupo para apresentar mensalmente as contas. Mas quando chegou a hora de parcelar, não estávamos tão mal quanto Sartori. Do nosso corte, conseguíamos pagar o resto até o dia 10 do mês seguinte. Sartori não tem esse caixa.

JC - Nesse contexto, passa o aumento da alíquota do ICMS?

Yeda - Olha, eu tentei não ter queda de receita. Não tive sucesso. Na primeira vez, pedi que o governador Rigotto mandasse. Na segunda, incluía uma reestruturação dos impostos. Poucos dias antes, estourou a Operação Rodin e não passou o projeto. A questão política que se coloca com essa operação da Polícia Federal do ministro (da Justiça, na época) Tarso. Perdemos a oportunidade de fazer uma reestruturação. Sartori está tentando, com projetos estruturais relevantes, inclusive da previdência. Espero que passe, principalmente a Lei de Responsabilidade Fiscal Estadual, para que não aconteça o sacrifício que fizemos de 2007 a 2010, e o próximo (governador) se refestele com o que a gente deixou. E deixei um monte de dinheiro em caixa.

JC - As projeções para os quatro anos do governo Sartori são de déficits. É possível ter um superávit até 2018?

Yeda - Sim. Ninguém acreditava que em dois anos alcançaríamos o déficit zero. O que o governo Satori disse na caravana (sobre a situação das finanças) é que continuam os problemas estruturais, e a ele se soma a crise brasileira, que não é "marolinha".

JC - Uma ação de curto prazo para pagar salários é elevar o limite de saques dos depósitos judiciais de 85% para 95%. Seria uma alternativa emergencial?

Yeda - Sartori tem que tomar emprestado de onde der. Usar depósito judicial é tomar emprestado, depois tem que devolver e pagar juros. Ele está olhando as possíveis fontes. E tomou uma atitude interessante – eu fui ao Supremo (Tribunal Federal) pedir para parcelar salários, e ele também foi agora. Sartori saberá construir a saída para que, dentro de "x" meses, se possa pagar o salário em dia.

JC - E a renegociação da dívida com a União?

Yeda - O governo federal não vai fazer nada. E vai diminuir o que manda para cá.

JC - Há solução estrutural sem renegociar a dívida?

Yeda - Tem. Resolver a previdência, o governo federal já fez, o estadual tem que fazer. Demora, mas tem que começar, fazer o fundo de contribuição do servidor, que decide quanto quer ganhar. Paga quanto quiser para ganhar quanto quiser. Isso está tão claro que não acredito que não vá passar. Resolve o problema de agora para adiante. É estrutural.

JC - O ex-governador Tarso entende que o Estado poderia resolver o atual problema financeiro com mais empréstimos a partir do novo espaço fiscal...

Yeda - Ele não deixou espaço fiscal. Isso é conversa mole, vamos falar sério. É o contrário do que eu deixei: espaço para empréstimo, cumpri a Lei de Responsabilidade Fiscal, então ele estava autorizado a contratar empréstimos e contratou todos os que podia.

JC - Mas a mudança do indexador da dívida com a União não abre um espaço fiscal?

Yeda - Não é a solução. Se ajuda, bem-vindo. Mas o governo federal não vai deixar (pegar novos empréstimos). Quando assumi, se dizia: "ah, o governo federal tem que ressarcir as estradas que o Estado fez, o polo petroquímico". Esquece. O passado se registra. Mas se constrói mecanismos novos.

JC - O Tribunal de Contas do Estado (TCE) apontou que o governo Tarso cumpriu o mínimo constitucional para saúde e se aproximou do da educação...

Yeda - Não cumpriu! Como vai cumprir o mínimo constitucional com empréstimos? Depósito judicial é empréstimo. O TCE disse que não viu irregularidade, embora o Ministério Público de Contas tenha feito ressalvas fortíssimas.

JC - No plano nacional, qual é a sua avaliação da conjuntura?

Yeda - É um incêndio em Brasília. Tem fatos definindo uma guinada, um deles é a Lava Jato. O quadro institucional a partir da Constituição de 1988 permitiu que haja um grupo, no Paraná, que tenha se proposto a fazer uma "Operação Mãos Limpas", como o da Itália. E, assim, o juiz Sérgio Moro formou essa equipe, fez um estudo do que precisa para ter sucesso no processo de limpeza da corrupção endêmica que tomou conta do setor público. Infelizmente, pela opção que fez, o governo do PT reeleito não governa. Então, há uma crise política gravíssima no País. E, junto com ela, uma crise econômica, criada pelo governo.

JC - A senhora acha que a presidente Dilma Rousseff (PT) vai ficar quatro anos sem conseguir governar?

Yeda - Eu não acho que ela possa ficar quatro anos... A questão é que ela, como presidente, não tem projeto. Não é esse o projeto do PT, ajuste fiscal. O País não vai crescer! Não tem confiança.

JC - A senhora acha que Dilma não completa o mandato?

Yeda - Depende dela.

JC - O PT abandonou a presidente?

Yeda - O PT se desmanchou como partido. Qual é o projeto do PT? O poder pelo poder? Temos que ter uma mudança.

JC - E o PSDB? Já se fala em disputa interna entre o senador Aécio Neves e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin.

Yeda - O partido tem pessoas em condições de ser presidente da República hoje. Alckmin, José Serra ou Aécio, eles saberão fazer. Feliz quem tem tal conjunto de lideranças. Agora, dentro do partido é sempre assim (a disputa)... É só ver aqui (no Estado).

JC - No Rio Grande do Sul, há uma comissão provisória dirigindo o PSDB, presidida pelo deputado Nelson Marchezan Jr.

Yeda - Não é uma comissão provisória, é muito mais grave do que isso. É uma junta interventora, como nos tempos da ditadura.

JC - A senhora não concorda?

Yeda - Acabamos de fazer eleições para os diretórios de Porto Alegre, São Leopoldo, de repente, "ah, não valeu!" Como? Tirar os eleitos? É uma junta interventora.

JC - É a orientação nacional.

Yeda - Não posso concordar.

JC - A tese é que o PSDB não lança candidatos e não tem aqui a mesma força que tem no Brasil.

Yeda - É pouco ser eleita governadora do Estado? Fomos grandes aqui, governamos o Estado, fizemos o partido crescer. Não vou polemizar, não faz sentido. É muito objetivo: um Estado que tem um PMDB do Pedro Simon, um PDT do Leonel Brizola, um PT do MST e do Olívio, um PP das prefeituras. Cadê o espaço para o PSDB? Não cabe todo mundo com o mesmo tamanho. Mas não precisa ser tão pequeno quanto a gente está sendo.

Perfil

Yeda Rorato Crusius (PSDB) nasceu em 1944, em São Paulo. É graduada pela USP em Economia. Em 1970, radicou-se em Porto Alegre e se tornou professora da Ufrgs. Nos anos 1980, ficou conhecida como comentarista de economia na televisão. Em 1990, filiou-se ao PSDB. Foi ministra do Planejamento no governo de Itamar Franco. Em 1994, elegeu-se deputada federal, reelegendo-se em 1998 e 2002. Candidatou-se à prefeitura de Porto Alegre em 1996 e 2000, mas acabou derrotada nas duas ocasiões. Foi eleita governadora do Estado em 2006. No plano econômico, buscou equilibrar as contas do Estado durante a sua gestão com o chamado déficit zero, mas teve dificuldades políticas após a Operação Rodin da Polícia Federal – que mostrou a fraude de R$ 44 milhões no Detran e provocou uma CPI na Assembleia. Teve atritos com o vice-governador Paulo Feijó (DEM) e até um pedido de impeachment por deputados da oposição. Yeda se manteve no cargo e, em 2010, tentou a reeleição, mas ficou em terceiro lugar na disputa. Em 2014, foi candidata a deputada federal, mas não se elegeu.
COMENTÁRIOS
Roberto - 10/08/2015 - 18h06
Muito boa a explanação da ex-governadora. A esquerda no poder trás apenas incompetência e populismo.


Márcio -
12/08/2015 - 11h17
Faltou questionar o que a ex-governadora pensa sobre o fato de ela própria, juntamente com os demais ex-governadores, receberem uma pensão do Estado de mais de 30 mil reais por apenas quatro anos de trabalho.


Carlos Kauer -
18/08/2015 - 14h40
Lamentável que Yeda não tenha sido reeleita, com certeza o RS estaria bem melhor.

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