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literatura 03/08/2015 - 22h29min

Valter Hugo Mãe arrebata público em palestra em Porto Alegre

Amanda Jansson Breitsameter

Luiz Munhoz/Fronteiras do Pensamento/Divulgação/JC
Valter Hugo Mãe palestrou na noite desta segunda-feira no Fronteiras do Pensamento
Valter Hugo Mãe palestrou na noite desta segunda-feira no Fronteiras do Pensamento

O escritor português nascido em Angola Valter Hugo Mãe participou, na noite desta segunda-feira (3), do Fronteiras do Pensamento. Dirigindo-se para um Salão de Atos lotado na Ufrgs, em Porto Alegre, com um sotaque português carregado, o escritor começou sua fala comentando sobre sua timidez, chamando a atenção para o fato de "haver tantos olhos na plateia". "E vocês olham muito", brincou, arrancando risos do público. 

Mãe prosseguiu lendo um texto que disse ter escrito para o evento, a que deu o título de A Síndrome do bom rapaz, no qual abordou sua inclinação "patológica" à bondade e à generosidade, obrigação que lhe veio de infância e que ele classificou como "uma grande porcaria". "Às vezes penso que fui a criança mais enganada e roubada da história da humanidade", leu, seguindo: "Sou perfeitinho para fazer tudo o que for extremamente responsável, o que me torna um chato até para mim mesmo".

Por diversas vezes, Valter, como disse gostar de ser chamado, parecia levar o público para dentro de um de seus romances, levantando questões e lendo trechos profundos que arrancavam aplausos fervorosos da plateia. Abordando a ideia de coletividade, ao dizer que o outro só pode se encontrar na sociedade, nas outras pessoas, Mãe afirmou: "Nunca podemos aprofundar nosso conhecimento se não estivermos em causa de outra pessoa, de mais alguém. Para a solidão, só caminham aqueles que viram algo dar errado", disse. "Quem opta constantemente pela solidão, opta por deixar de ser gente", seguiu, citando seu último romance, A desumanização

Durante sua fala, uma surpresa: uma senhora passou mal na plateia e teve de ser atendida pela equipe médica de plantão no evento. Mãe pediu um intervalo de cinco minutos e, na volta, disse: "A senhora está bem, o que me deixa descansado, porque fiquei pensando que o que estou dizendo faz as pessoas passarem mal. Claro, faz sentido, já que estou piorando em todos os sentidos", riu-se, acompanhado dos presentes.

Perguntado sobre suas referências artísticas e pessoais, Mãe lembrou o dia em que conheceu José Saramago, um de seus grandes admiradores: "Além de admirar o escritor, eu sentia honra de estar com a pessoa José Saramago, um indivíduo que sempre se incomodou com o coletivo, que defendeu o coletivo, que sempre foi contestador". 

Conhecido em Portugal também por suas poesias, canções e desenhos, o autor afirmou que, "antes de tudo", é escritor, mas sente uma "angústia por todas as áreas artísticas", ainda que se diga um mau desenhista e um cantor ruim. Perguntado sobre as descrições sutis e geralmente breve de seus romances, ele apontou que "não é preciso explicar tudo ao leitor", e que ele gosta que os próprios leitores possam imaginar por si sós como as coisas são, deixando sempre espaço para que o outro se coloque em relação à sua obra. "A literatura precisa colocar em perigo o conforto do leitor, para que ele sinta que aquele livro pode mudar alguma coisa", refletiu.

Ao final de sua fala, uma sessão de perguntas feitas pelo público, requisitada à organização do evento pelo próprio autor, puxou o assunto para reflexões sobre a vida, obviamente - a dizer por sua obra - um dos pontos fortes do autor. "A literatura é ficção, e a vida real tem essa tragédia de ser, bem, real. Então, na vida real é sempre mais difícil compreender as falhas e os defeitos dos outros", disse.

Após uma pergunta sobre o contexto político atual, Mãe afirmou, comentando o fato de a "Europa estar retrocedendo em relação a valores", sobre a volta de ideologias nazistas e de valores totalitários e xenófobos. Segundo ele, tudo o que poda o direito de outras pessoas não é sequer passível de discussão. "Cada um deve cuidar dos seus direitos. Eu não quero casar com um homem, então não tenho nem que opinar a respeito disso", defendeu, recebendo ovações. 

Perguntado sobre se planeja seguir a carreira acadêmica, com um doutorado, Mãe seguiu dando provas de seu bom humor, e fechou a noite novamente arrancando risos e aplausos da plateia: "Quero muito fazer um doutorado, mas minha relação com a Academia é desastrosa. Estou muito defasado. Algumas pessoas conhecem minhas obras, estudam alguma das coisas que eu escrevi. Como vou entrar numa turma e ser idiota? As pessoas vão postar no Facebook 'Olhem, Valter Hugo Mãe perguntou tal bobagem'. Parece que nós perdemos o direito à ignorância", concluiu.

O autor vem chamando a atenção do público e da crítica editorial com seu texto intenso, profundo e por diversas vezes assinalado de poesia. Dotado de uma prosa única, marcada intensamente pela inovação literária e pela oralidade narrativa, abolindo por vezes o uso de maiúsculas para manter a fluidez da escrita e,conforme ele próprio, "uma espécie de democracia das palavras", o escritor foi reconhecido por seu conterrâneo José Saramago como um "tsunami literário" já por seu segundo romance, o remorso de baltazar serapião, que recebeu em 2007 o prêmio José Saramago. O Nobel da literatura ainda afirmou que, ao ler a obra de Mãe, teve a sensação de assistir "a um novo parto da língua portuguesa".

Valter Hugo Mãe nasceu em Saurimo, uma cidade angolana, em 1971, alguns anos antes da dissolução do Império Português, em 1975. Estudou direito e literatura portuguesa moderna e contemporânea em Portugal, onde vive desde a infância. Lançou livros de renome, como o nosso reino (2004), o remorso de baltazar serapião (2006), a máquina de fazer espanhóis (2010) - grafados assim mesmo, com as letras minúsculas, assim como o nome do autor e dos personagens e lugares contidos nas obras; e O filho de mil homens (2012). Seu mais recente lançamento, A desumanização (2014), é ambientado nos fiordes islandeses.

COMENTÁRIOS
Filipe Renne Rossato - 06/08/2015 - 13h40
ótimo texto, gostaria muito de tê-lo visto e me senti minimamente parte da plateia com a leitura. tomara que ele venha mais vezes, mas não só dentro do Fronteiras hehe.

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