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LITERATURA Notícia da edição impressa de 03/08/2015

Livraria Bamboletras, uma pequena gigante

Ricardo Gruner

JOÃO MATTOS/JC
Livraria Bamboletras, de Lu Vilella, completa 20 anos
Livraria Bamboletras, de Lu Vilella, completa 20 anos

A receita é simples: paixão pela literatura, um pouco de loucura e muita dedicação aos clientes. Lu Vilella, proprietária da livraria Bamboletras, diz que esses são os ingredientes que fazem o seu trabalho sustentável há 20 anos. As duas décadas foram completadas no último dia 15, mas, por enquanto, a empreendedora não tem planos de comemorar nem de expandir o negócio: "O que pretendo, daqui para frente, é exatamente o que tenho até agora, uma pequena grande livraria. Pequena no tamanho, mas grande na diversidade de títulos, no atendimento e no vínculo com a comunidade".

A livraria está localizada no Centro Comercial Nova Olaria (Lima e Silva, 776) desde 1996, mas sua história começou um ano antes, na Rua da República. Lu Vilella havia se formado em Jornalismo e foi fazer pós-graduação em Literatura. "Estava lendo com uma leitura mais orientada e específica e descobri um universo para crianças que eu nunca via nas livrarias", relembra ela, que resolveu apostar no nicho infantil. Na República, ela trabalhava com duas sócias. Quando conheceu o Nova Olaria, se mudou e passou a atuar com uma equipe composta por ela e mais cinco funcionários.

Se inicialmente os livros para meninos e meninas eram o foco de uma seleção criteriosa, no novo espaço, essa atenção passou a ser dividida com obras relacionadas à literatura, filosofia, teatro, música, cinema e artes visuais. Em um ambiente que inclui bancos ilustrados com reproduções de Van Gogh e canecas estampadas com imagens de Frida Kahlo e Cortázar, Lu Vilella credita que as diferentes manifestações artísticas são indissociáveis. "Tudo ajuda as pessoas a se conhecerem e a conhecerem o mundo. A arte existe para nos salvar", afirma ela, que também vende CDs e DVDs.

De acordo com a livreira, o perfil da Bamboletras se diferencia bastante de boa parte dos empreendimentos concorrentes - e os clientes sabem disso. "Me propus a ter um local onde não existe 'lixo cultural'", orgulha-se, apontando que os seus mais vendidos não são os mesmos das megastores. Além do interesse pessoal dos compradores, a troca de indicações entre público e funcionários se tornou marca na rotina da livraria. Há até quem chame a proprietária de "personal booker" devido às suas sugestões.

Outra faceta da identidade do espaço é um relacionamento próximo com os produtores locais. A valorização dos expoentes do Estado pode ser constatada na vitrine, onde constam obras como o songbook de Vitor Ramil. "Temos uma obrigação de abrir as portas para a cultura daqui", posiciona-se Lu, relatando que também vende ingressos para espetáculos teatrais. "Não fica 1% para a livraria, mas é um vínculo que tenho com o pessoal do teatro. Diretores e atores frequentam o espaço."

Lu Vilella não sabe me informar o tamanho do catálogo com que trabalha, mas salienta um olhar especial para obras que chama de "fundo de acervo". A proprietária se refere a títulos que nunca faltam em seu domínio. Pé de Pilão, de Mario Quintana, é um exemplar que a livreira possui desde que abriu a loja, por exemplo. Ao conquistar um público cativo com essa fórmula, a Bamboletras permite-se não participar do evento literário de maior movimento na Capital, a Feira do Livro. Segundo Lu, a última vez que trabalhou em estande na Praça da Alfândega foi em 2005. "A maioria das pessoas que vai lá não é meu público, é aquele que lê uma vez por ano", justifica. No período da feira, ela enfrenta uma pequena queda nas vendas, mas afirma que a equação é equilibrada em dezembro - a partir do dia 1, alguns clientes chegam para fazer ranchos de Natal.

Mesmo que a celebração às duas décadas não esteja confirmada, tampouco existem razões para reclamações. A livreira começou seu negócio antes do boom das megastores em Porto Alegre, sobreviveu às mudanças no mercado e preza por manter o relacionamento com a comunidade e não focar apenas no negócio. "Tenho uma amiga, professora universitária, que diz 'Bah, Lu, coisa boa é estar em um lugar onde as pessoas entram porque querem'", lembra a proprietária, satisfeita. "É verdade. Aqui, as pessoas estão em busca de conhecimento por vontade própria."

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