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entrevista especial Notícia da edição impressa de 20/04/2015

Democracia digital inibe o populismo, diz Gloria Álvarez

Lívia Araújo

CLAITON DORNELLES/JC
Gloria Álvarez é diretora de projetos do Movimento Cívico Nacional da Guatemala
Gloria Álvarez é diretora de projetos do Movimento Cívico Nacional da Guatemala

A imagem da guatemalteca Gloria Álvarez, de 30 anos, passou a correr o mundo por meio das redes sociais, quando um vídeo de seu pronunciamento no Parlamento Iberoamericano da Juventude, ocorrido em setembro de 2014 em Zaragoza, na Espanha, viralizou. Nele, a cientista política e apresentadora de programas de TV e rádio na Guatemala, fala sobre a chance de que a tecnologia e a internet têm para combater o populismo, e ideia de República como a garantia da manter as instituições do Estado.

A popularidade alcançada por seu discurso e a defesa de ideias liberais como a livre iniciativa e o direito à propriedade privada, fez com que Gloria fosse uma das personalidades convidadas pelo Movimento Brasil Livre (MBL) a falar em São Paulo durante a manifestação pelo impeachment de Dilma Rousseff (PT) em 12 de abril, e uma das palestrantes do 28º Fórum da Liberdade, realizado na semana passada em Porto Alegre. No evento, Gloria, que é diretora de projetos do Movimento Cívico Nacional, entidade que se dedica à disseminação de conhecimento sobre processos políticos e ferramentas democráticas na Guatemala, teceu críticas ao discurso de “ricos contra pobres” e à transferência de riquezas, que ela entende como uma “compensação” de governos populistas à falta de justiça social existente.

Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, Gloria reitera a mensagem de que “a tecnologia serve para que os cidadãos se empoderem com o conhecimento livre, sem depender unicamente da educação pública”, por meio do contato com outras realidades e a possibilidade de informar, em tempo real, o que acontece em sua realidade e denunciar corrupção, falta de transparência ou violações de direitos humanos. Segundo ela, essa é a receita para combater a “cartilha” populista, baseada em propagar o ódio e a ideia de que ricos estão contra pobres, o que criaria um ressentimento e a busca por culpados.

Jornal do Comércio – O que é o Movimento Cívico Nacional?

Gloria Álvarez – A raiz do MCN é a morte do advogado Rodrigo Rosenberg, que denunciou um plano de funcionários do governo, ligados à UNE (Unidade Nacional pela Esperança, partido de orientação social-democrata). Depois disso, ele apareceu morto, e então a população da Guatemala saiu às ruas para exigir a renúncia do presidente Álvaro Colom. A renúncia não aconteceu, porém, durante esses protestos, quatro amigos decidiram fundar um movimento com o objetivo de fazer o trabalho que os partidos políticos não estavam fazendo, que é o empoderamento da cidadania, por meio de um espaço de debates, fóruns. São espaços nos quais os partidos deveriam estar ativamente, mas não acontece. Eu entrei no MCN em 2013, e meu trabalho é levar para as diferentes regiões da Guatemala, seminários, cursos, não apenas sobre política, mas também sobre ecologia, empreendedorismo, violência familiar, entre outros temas. Um dos trabalhos que fazemos é a favor do conceito de República, e concluímos, de acordo com nossos estudos, que o principal inimigo da republica é o populismo.

JC – Que aspectos atualmente caracterizam o populismo na América Latina?

Glória – Os governos populistas seguem uma “cartilha”, que é baseada em propagar o ódio dentro da sociedade, através de um discurso de povos contra povos, ricos contra pobres; incitando esse ódio, a sociedade começa a criar um ressentimento, sentir uma apatia, porque a sociedade não busca colaborar, mas sempre buscar culpados, e isso é um terreno fértil para populistas. Adolf Hitler, depois da Primeira Guerra Mundial, lançou a ideia de que a culpa por sua crise econômica era dos judeus. E, quando existem crises econômicas somadas à falta de justiça, é comum que as massas se volte ao extremismo, que é o que está acontecendo na América Latina.

JC – Onde acredita que isso ocorra de maneira mais forte?

Glória – Em toda a América Latina é possível ver exemplos disso, em maior ou menor âmbito. Campanhas políticas, em toda o continente, tanto de esquerda quanto de direita, estão usando essa tática populista, do “nós e os outros”. No México, na Argentina, em qualquer período eleitoral, os partidos sempre pregam a ideia de que a riqueza não se cria, mas deve ser repartida. Quando estão no poder, há pontos em comum, como enfraquecer o Poder Legislativo, porque é importante que todos os deputados estejam a favor do Executivo. Não se denunciam casos de corrupção, não há transparência, e quem denuncia corre o risco de perder seu trabalho ou sua vida, como foi o caso do promotor argentino Alberto Nisman (que denunciou um suposto envolvimento da presidente da Argentina, com uma organização terrorista iraniana, e foi encontrado morto uma semana depois, em janeiro). Depois vemos a manipulação das liberdades econômicas, expropriam empresas, como na Venezuela, ou fecham meios de comunicação e ameaçam jornalistas.

JC – Então é contra a distribuição de riqueza ou possibilidade como a taxação de grandes fortunas?

Gloria - Muitas pessoas confundem direitos com necessidades. Todos precisamos de educação e saúde, mas para obter essas coisas, precisamos ter garantido o direito à vida, à liberdade, à propriedade. Com isso, cada pessoa, por si mesma e por seu trabalho, poderá ter essas necessidades satisfeitas, sem precisar depender de ninguém. Quando existe a chamada transferência de riqueza por parte dos governos, estes não estão empoderando sua gente, mas mantendo uma relação de dependência onde a única coisa que lhes dão é comida, mas não as ferramentas para que cheguem a uma situação de autossuficiência. É claro que, se em algum ponto, por exemplo, é necessário um investimento estatal em educação, sou a favor de um sistema de “vales”, em que um pai de família pode decidir em que escola colocar seus filhos. No caso dos tributos, eu apoio o que chamamos de impostos proporcionais. Sou contra os impostos progressivos porque isso tira o incentivo de quem quer acumular riqueza. E quem ganha menos acaba preferindo ter um negócio informal a se formalizar. Na Guatemala, por exemplo, de cada dez empresas, oito são informais e não pagam impostos.

JC – Por outro lado, candidatos populistas continuam sendo eleitos. Por que isso acontece?

Glória – Acho que não podemos culpar as pessoas por votarem nesses candidatos, porque, em geral, fazem parte de populações a quem nunca foi garantido o direito à vida, à propriedade privada, à liberdade. Sempre foram roubados, violados. Nunca há um policial que lhes proteja, ou advogados, ou alguém que lhes faça Justiça. São pessoas que se acostumaram a viver com a possibilidade de que sua vida acabe amanhã, que sua propriedade pode ser tomada. Estão resignadas. Dessa forma, quando um candidato promete trazer benefícios materiais, isso, de certa forma “compensa” essa falta de justiça. Acho que essa é uma das principais razões para, quando a lei e a justiça não valem para todos, as pessoas seguirem votando nesse tipo de candidato.

JC – O que acha da apropriação feita por Hugo Chávez do bolivarismo? Existe de fato uma aproximação entre a conduta histórica de Simón Bolívar e a ideologia política atualmente vigente na Venezuela, Bolívia e Equador?

Gloria – Eu creio que, neste momento, Bolívar está se debatendo em seu túmulo com o que está acontecendo e com a maneira com a qual estão usando seu nome. O objetivo de Bolívar... o que ele nos anunciou foi que, se nós da América Latina não nos unirmos, não trabalharmos em conjunto; se não nos considerarmos uma federação de nações, países como os Estados Unidos sempre nos manterão dependentes. A ideia que Bolívar tinha, era de uma América Latina unida nos âmbitos do comércio, da imigração, que déssemos boas-vindas às nossas diferentes culturas. Ele queria que realmente a região trabalhasse em conjunto. Creio que se deva revisitar o que Bolívar disse e o que tentou implementar na América Latina, pois o que Hugo Chávez fez foi prostituir seu legado.

JC – Em seu pronunciamento no Parlamento Iberoamericano da Juventude, na Espanha, você disse que o populismo na América Latina pode ser combatido com a tecnologia. De que forma e com quais resultados?

Glória – Primeiro, a tecnologia serve para que os cidadãos se empoderem com um conhecimento livre, sem depender unicamente da educação pública. Por meio da tecnologia, você pode ter acesso a livros, filmes, cursos on-line, tutoriais que permitem que qualquer pessoa possa passar a ver a educação como algo que depende dela, não sendo só um receptor do que o Estado lhe dá. Isso é fundamental, porque, na medida que o cidadão adquire maior intelecto, começa a questionar-se e entender como funciona a economia, e não é mais tão facilmente manipulado, que é o que o populismo busca, manipular massas. Além disso, a tecnologia economiza custos de comunicação e de distância. É possível ter contato com outras realidades e se pode saber que alternativas há em outros países quanto ao combate à corrupção, à falta de transparência violações de direitos humanos. E, basicamente qualquer um, com seu perfil no Facebook, com sua conta no Twitter, pode informar em tempo real o que está acontecendo. Cada cidadão pode encontrar mil maneiras de colaborar, não só no campo político, mas no psicológico, social, cultural, artístico, enfim.

JC – No mesmo pronunciamento, você fala na importância de manter os valores republicanos e a democracia por meio do parlamento. O que pensa de conceitos novos como a democracia direta, principalmente com possibilidades como a democracia digital?

Gloria – Penso que a democracia digital é fundamental. Vivemos no século XXI, mas nossas instituições têm mais de 25 séculos. Precisamos, sim, trazer a democracia ao século XXI, e se, por meio do seu celular, você pode acompanhar as atividades de um deputado. Trata-se de dar ferramentas ao cidadão. Sem democracia, a sociedade se transforma em uma tirania de oligarquias, e sem República, as democracias se tornam demagógicas. As duas são necessárias, para que nenhuma das duas se desvirtue.

Perfil

Gloria Álvarez, de 30 anos, é cientista política e diretora de projetos do Movimento Cívico Nacional da Guatemala, que atua no combate à corrupção e prega a transparência na gestão de governos de seu país. É formada em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidad Francisco Marroquín, com especialização em Culturas e Desenvolvimento de Políticas Públicas pela Universidade Sapienza, de Roma, Itália. Possui experiência técnica e administrativa em projetos de cooperação internacional e negociações de conflitos, além de conhecimentos em política em contextos latino-americanos e internacionais, voltados a áreas como cultura, comunicação, desenvolvimento sustentável e estratégias participativas. Tem experiência de 10 anos em meios de comunicação de massa e apresenta programas de rádio e televisão. Atualmente, comanda um programa na TV Azteca, da Guatemala, chamado "Hijos de la politica", e outro na rádio Libertópolis, "Viernes de Gloria".
COMENTÁRIOS
JOÃO PEDRO SANTOS COSTA - 20/04/2015 - 18h58
Uma grande liderança jovem que desponta na América Latina. A cultura e discernimento dessa moça é de causar inveja a muitos que crem que entendem de política. Que sua carreira seja longa e coroada de êxito.


Fernando Monteiro -
24/04/2015 - 19h34
Onde existe democracia absoluta? Onde república sem vícios? No Brasil há leis de oportunismo por parte do legislador(caçador de votos) que restringe o direito do cidadão de manifestar-se. Nem todos, em pleno direito de gozo civil, podem votar. Falta o poder moderador nas repúblicas para coibir a ambição de agentes públicos encastelados nos três poderes. A Res-Pública aqui é mais deles que do povo. Parlamento um dos mais onerosos. Não interessa às massas votarem. Só o fazem em troca de

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