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SAÚDE Notícia da edição impressa de 04/02/2015

Arte ajuda a prevenir a tuberculose em Porto Alegre

Projeto desenvolvido com moradores de rua busca promover a conscientização de uma forma não convencional

Isabella Sander

JONATHAN HECKLER/JC
Taimara usa arte no combate à tuberculose em moradores de rua
Taimara usa arte no combate à tuberculose em moradores de rua

Música, dança, grafite e teatro podem ajudar a combater a tuberculose? Segundo um projeto organizado pela prefeitura de Porto Alegre, sim. Com um cenário de altos índices de contração da doença na Capital, muitas vezes vinculada à presença do vírus HIV no organismo do paciente, e numerosos casos de abandono do tratamento, as equipes da Secretaria Municipal da Saúde (SMS) resolveram buscar na população de maior risco uma solução. Os porto-alegrenses em situação de rua, então, foram procurados e deram sugestões de como o município poderia abordar o tema de uma forma atraente e não convencional.

Conforme a coordenadora da Atenção Primária em Saúde da SMS, Taimara Slongo Amorim, as oficinas de música, teatro, dança e grafite foram iniciadas na sexta-feira. “Apresentamos os oficineiros às pessoas em situação de rua durante o lançamento do projeto, no dia 24 de janeiro. Ali, foram mostradas quais seriam as atividades oferecidas e montamos um cronograma até maio. Em breve, fecharemos o resto do cronograma do programa, que terminará em janeiro de 2016”, relata. De acordo com o Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Porto Alegre tem pelo menos 1,6 mil habitantes que residem nas ruas.

Os oficineiros selecionados pela prefeitura dão suas aulas semanalmente, de segunda-feira a sábado, nos Centros de Referência Especializados para População em Situação de Rua (Centro Pop) I e II, no Abrigo Marlene, voltado para idosos vulneráveis socialmente, e na Escola Municipal Porto Alegre (EPA), que dá aulas de ensino básico e profissionalizante para moradores de rua. Na primeira parte da aula, são repassados ensinamentos práticos sobre alguma das modalidades artísticas e, na segunda, representantes da SMS conversam com as pessoas presentes a respeito de cuidados com a saúde. Ao final do projeto, a ideia é que os alunos criem um jingle para uma campanha de conscientização sobre a tuberculose.

Pedro Henrique Sena é um dos responsáveis pela oficina de percussão e criador da Reciclave, proposta de execução da música de maneira sustentável, através de produtos recicláveis. Ontem, na EPA, o músico, junto com outro colega, ensinava seus alunos a tirarem diversos tipos de som de objetos como garrafas plásticas, latas de tinta e sifões, além de instrumentos tradicionais, como violão. “A música é a ferramenta por que nós chegamos a eles de um jeito mais acessível, sem abordar diretamente questões como remédios e doenças. E a grande ideia de trabalhar com percussão é que há todo um estigma de que balanço, batuque são coisas vinculadas a uma população mais carente, negra, de rua, e muitas pessoas que moram nas ruas são catadoras. Então, por que não unir as duas coisas e deixar que eles se descubram na música através do material que eles mesmos encontram em calçadas e contêineres?”, questiona.

Juarez Negrão, de 39 anos, é estudante da EPA e busca concluir o Ensino Fundamental lá. Na instituição, soube das oficinas e resolveu participar. “Gosto muito de música e tenho me esforçado para aprender cordas e percussão, mas não sou muito bom. Minha relação maior nessa área é compondo letras”, admite.

A prefeitura pretende fechar as portas da EPA até o final de maio. Negrão faz parte de um grupo de alunos que procura impedir o fim das atividades da instituição. “Participar de atividades aqui dentro, durante o verão, quando há recesso do ano letivo, também é uma forma de mostrar a importância da EPA para as pessoas mais necessitadas”, pondera, apresentando a instituição como fonte de ressocialização de moradores de rua. “Esse trabalho motiva a galera a fazer atividades como essa, artística”, opina.

Formado pela EPA em 2014, Marcelino José Guedes, de 28 anos, se alternava entre o aprendizado sobre como dominar as baquetas em uma bateria feita de galões de água e como formar acordes no violão. “Estou na escola desde 2002 e, mesmo já tendo me formado, agora participo do Núcleo de Trabalho Educativo, que também funciona aqui. Foi assim que soube dessas oficinas e estou aproveitando tudo o que oferecem, enquanto não consigo recuperar minha documentação e começar a trabalhar”, explica.

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