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Fórum Social Notícia da edição impressa de 27/01/2010

Maduro, o FSM deve construir utopias, diz Lula

Gabriela Di Bella/JC

Para Lula, FSM amadureceu

Gisele Ortolan

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva lembrou ontem, em sua conferência no Fórum Social Mundial (FSM) de sua passagem pelo evento em 2003, logo após assumir a presidência da República, e aproveitou para fazer uma balanço de seus sete anos gestão.

Mas também avaliou o próprio FSM. Falando de improvisso, disse que o Fórum, que veio com a proposta de um outro mundo possível, está mais maduro em relação a suas lutas e práticas depois desses dez anos. Mas sugeriu aos participantes que façam uma carta final com poucas reivindicações.

Ao projetar o futuro do evento, o presidente conclamou os participantes a continuarem acreditando e "construindo utopias". Também fez referência à saida do evento da Capital gaúcha e apontou que, se o evento tivesse continuado em solo gaúcho, "teria se tornado enorme".

Por duas vezes durante seu pronunciamento de 42 minutos, ontem no ginásio do Gigantinho, que recebeu quase 7 mil pessoas, Lula falou por duas vezes sua ida a Davos, na Suíça, para participar do Fórum Econômico Mundial - evento ao qual o FSM faz contraponto.

O presidente, que repete este ano o trajeto de 2003, quando também veio a Porto Alegre para depois participar do encontro na Europa, sustentou que Davos "não tem mais o glamour que tinha naquele ano". Segundo ele, o sistema financeiro já não pode desfilar "como se fosse exemplar porque provocou a maior crise dos últimos anos" em razão de sua incapacidade adminsitrativa.

"Vou com o orgulho para dizer que, se em 2003 o grande medo era de que Lula não conseguiria governar, agora posso mostrar que foi um torneiro mecânico quem mais fez universidades e mais criou escolas técnicas neste Pais", discursou.

O presidente também relatou a cobrança dos participantes do primeiro FSM sobre o fim da dívida com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e da situação atual, em que o Brasil é credor de US$ 14 bilhões junto ao fundo emprestados durante a crise mundial.

Em tom de desculpa, disse que nem sempre o que um governante planeja é o que consegue realizar. "Quando mais fizemos, mais a sociedade vai demandar. Tem gente que acha que isso é ruim. Acho que a razão pela qual se chega ao poder é a de se criar uma outra relação entre estado e sociedade", sustentou, exemplificando a aproximação do seu governo com causas dos movimentos sociais e dos direitos humanos. "Tem gente que acha que a democracia é um pacto de silencio, quando é o contrário", sustentou.

Outro tema da fala de Lula foi a situação do Hati. Os representantes do FSM cobraram que o Brasil atue para impedir o possível domínio norte-americano. Lula falou das ações de auxílio humanitário feitas pelo País há cinco anos e da recente aprovação do envio de mais 900 soldados.

"Os brasileiros ensinaram como se deve ser uma força de paz, sem sonegar os direitos humanitários. Devemos estar indignados do que aconteceu. Não podemos esquecer que foi o primeiro país negro a conquistar a independência em 1904. Talvez este terremoto mexa com a vergonha dos governantes para que se faça no Haiti agora o que poderia ter sido feito há dez anos, quando começou a se discutir a democracia naquele país", analisou, pedindo solidariedade dos manifestantes do Fórum.

Sobre Copenhague, disse que o Brasil foi com a melhor proposta e está pronto para o debater sobre clima. Falou que quer igualdade de condições com os países ricos e respeito à soberania e aos interesses de cada pais. "Não aceitamos mais que coloquem o dedo sujo de óleo no combustível limpo produzido neste País".

Público aplaude petista e aclama Dilma

O presidente Lula afirmou, no final de seu discurso de ontem, que voltará a participar do Fórum Social Mundial (FSM) em 2011, como fez nas outras edições, "mas desta vez como ex-presidente". A pausa que fez na sequência foi a deixa para que o público entoasse Olé, olé, olá/ Dilma, Dilma.

O petista também foi homenageado com o mesmo cântico às 20h18min, quando as luzes do Gigantinho foram diminuídas. O público também entoou Lula!/ Guerreiro!/ Do povo breasileiro!. Mas, o presidente só apareceu mais de meia hora depois para falar a quase 7 mil pessoas.

Além de delegados do FSM, prestigiaram o evento ministros - Dilma Rousseff (Casa Civil), Tarso Genro (Justiça), Luiz Dulci (Secretaria-Geral), Edson Santos (Igualdade Racial), Paulo Vanuchi (Direitos Humanos) e Altermir Gregolim (Pesca) -, o prefeito de Porto Alegre, José Fogaça (PMDB), que foi vaiado ao ser anunciado, os senadores petistas Paulo Paim e Ideli Salvati, o governador da Bahia, Jacques Wagner, além de deputados, secretários e vereadores. A governadora Yeda Crusius não foi ao evento, mas recebeu a comitiva presidencial no desembarque, por volta das 19h, no aeroporto Salgado Filho.

No palco ficaram apenas Lula o presidente da CUT, Artur Henrique da Silva Santos, e a presidente do ONG Cotidiano Mulher, uruguaia Lilian Celiberti, e o coordenador do Ibase, Cândido Grzwybowski. Eles cobraram de Lula ações na área de direitos humanos e democracia.

FSM vai ao Gigantinho para ver presidente

No evento que atraiu mais público nesta edição do Fórum Social Mundial (FSM) - depois da Marcha de Abertura - quase 7 mil pessoas foram ontem ao Ginásio Gigantinho, em Porto Alegre, para assistir ao pronunciamento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Uma fila imensa se formou por toda a calçada do estádio Beira-Rio e dobrou em direção à avenida Padre Cacique, que estava com uma pista bloqueada para abrigar os participantes.

A massa vermelha que se distinguia de longe poderia ser confundida com torcedores do Internacional, que lotam o local em dias de jogo. Ontem, no entanto, a multidão era composta de militantes do PT, da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e, em menor escala, de outros partidos de esquerda.

A maioria dos ativistas usava camiseta vermelha com os dizeres Lula é Brasil Social Mundial e boné da CUT. Mas também teve público apartidário, caso da argentina Valentina Chirici, que enfrentou 18 horas em um ônibus de Buenos Aires até Porto Alegre para participar do FSM.

"É o meu sonho estar aqui e poder entrar em contato com tantos movimentos sociais", alegrou-se a portenha, que trabalha em uma ONG ligada à economia solidária. Valentina foi uma das primeiras da fila e chegou às 15h para conferir o discurso de Lula. "Pelo que falam no exterior, ele parece ser bom", arriscou.

Há três anos morando em Estocolmo, na Suécia, a gaúcha Paola Santoretto aproveitou a vinda ao Brasil para conferir as atividades do Fórum. "Espero poder levar conhecimentos para meus alunos na Suécia", destaca a professora universitária de Mídia e Tecnologia. O namorado de Paola, o sueco Nicklas Keijser, nunca havia participado de um Fórum Social Mundial e ficou empolgado com o evento.

Previstos para serem abertos às 16h, os portões permaneceram fechados até as 17h. O atraso irritou quem estava na fila. Revoltados com a demora, os militantes exigiam acesso, que logo foi liberado.

Perto das 19h, mais de 3 mil pessoas ainda esperavam para entrar no Gigantinho - o ginásio, que tem capacidade para 12 mil pessoas, teria ocupação máxima de 10 mil participantes no encontro de ontem.
Cerca de 175 homens da Brigada Militar faziam a segurança externa do local. O efetivo estava dividido em cinco pelotões, cavalaria, grupamento de incêndio e tropas do Batalhão de Operações Especiais.

Todos que entravam eram submetidos à revista com detector de metais e não era permitido portar bandeiras, faixas ou quaisquer objetos que pudessem ser arremessados. O acesso foi lento e as medidas de segurança desagradaram alguns militantes que foram proibidos de levar seus cartazes.

Mas na fila, a manifestação foi livre e, em certos momentos, virou campanha eleitoral - teve gente segurando faixas com mensagens de boas-vindas de deputados do PT, outros distribuíam panfletos e alguns parlamentares levaram até carro estampado para marcar presença.

Fora do Gigantinho, a animação ficava por conta de uma roda de capoeira com crianças vindas de Alvorada. Vestidos de branco e tocando berimbau, os capoeiristas atraíram a atenção de quem esperava para entrar no Gigantinho. Dentro do ginásio, desde às 18h30min os participantes conferiram diversas apresentações musicais, como a do cantor Nei Lisboa e dos destaques das escolas de samba de Porto Alegre.

O presidente Lula era aguardado para as 19h30min, mas depois das 20h sua chegada ao Estado ainda não havia sido anunciada. A demora não atrapalhou o clima festivo e "olas" que passavam pelas arquibancadas animaram o ginásio.

Centrais sindicais são movimento com maior visibilidade no Fórum

Fernanda Bastos

A concentração para a marcha de abertura do Fórum Social Mundial (FSM) 2010 - Grande Porto Alegre, segunda-feira, no Centro da Capital gaúcha, foi uma mostra do espaço que as centrais sindicais estão ocupando nesta edição.

Com representação numerosa e exibição ostensiva de faixas, cartazes, camisetas e bonés, são o movimento de maior visibilidade do FSM. Na passeata inaugural, por exemplo, levaram carros de som e, com centenas de sindicalistas, tomaram o Largo Glênio Peres, gritando palavras de ordem.

O grupo quer levar a discussão de causas dos trabalhadores para a construção de uma nova agenda estratégica para o mundo. "O movimento sindical é fundamental para a construção dessa agenda mundial", avalia o organizador do FSM e presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) no Rio Grande do Sul, Celso Woyciechowski. A CUT estima ter mais de 500 participantes de diferentes regiões do País no Fórum.

De acordo com Woyciechowski, o movimento sindical tem o papel de fiscalizar as empresas e cobrar atitudes mais justas para a sociedade. Ele destaca, ainda, a questão ambiental como um tema que ganhará espaço nos debates. "O trabalho e a produção têm que estar inseridos nessa negociação", aponta.

O presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) no Rio Grande do Sul, Guiomar Vidor, calcula que mais de mil pessoas ligadas à entidade estejam participando desta edição do FSM.

Ele acredita que a importância do evento está em concentrar diferentes posições. "O FSM tem se posicionado como agregador de forças. Ele capta todo o tipo de luta global, principalmente a trabalhista."

O presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT) no Estado, Paulo Barck, espera que mais de 100 dirigentes sindicais e associações comunitárias da organização se envolvam com as atividades do FSM. "Eles tentarão chegar às propostas que podem fazer o mundo melhor", analisa. Ele relata que a entidade mobilizou cerca de mil pessoas, ligadas direta e indiretamente ao movimento, para o FSM.

"No FSM juntamos forças para ver as coisas acontecerem", reflete. Barck acredita que, passados dez anos após a primeira edição, o inimigo dos trabalhadores continua sendo o neoliberalismo. "Vamos abordar a crise econômica para gerar alternativas e propostas concretas ao capitalismo e ao neoliberalismo", projeta.

Nesse sentido, o presidente da Força Sindical no Estado, Cláudio Janta, acrescenta que o FSM é o palco ideal para a discussão das políticas trabalhistas. Conforme Janta, além do número expressivo de brasileiros, mais de 30 dirigentes sindicais de outras nações prestigiam o encontro.

A organização não confirmou os dados informados pelas centrais porque ainda não finalizou o credenciamento de participantes.

Intelectuais apontam fadiga no crescimento

O modelo de crescimento que pavimentou a economia do século 21 está dando sinais de fadiga. Para o geógrafo David Harvey, professor da Universidade da Cidade de Nova Iorque, os investimentos para gerar expansão média de 3% ao ano de produtos e serviços da economia são insuficientes. Para Harvey e demais especialistas que analisaram a conjuntura econômica ontem, dentro do 10º Fórum Social Mundial (FSM), um dos problemas está no direcionamento de grande volume de recursos para o sistema financeiro, em detrimento da aplicação na economia real.

A francesa Susan George, que integra a Associação pela Taxação das Transações Financeiras em Apoio aos Cidadãos (Attac), e o economista Paul Singer, secretário de economia solidária do Ministério do Trabalho e Emprego, defenderam que os bancos devem ser públicos ou comunitários. A solução asseguraria o direcionamento de recursos e investimentos para atender às demandas reais. "Se a meta é crescer 3%, considerando que a média desde 1750 foi de 2,5%, é preciso gerar o mesmo grau de oportunidade de investimentos", condicionou o geógrafo. Ele alertou para a nova bolha prestes a estourar na economia, desta vez, na China, que estaria vivendo espiral de valorização de ativos.

Para Harvey, os sucessivos superávits das economias foram deslocados, nas últimas décadas, a ativos, mercado imobiliário e commodities. "Tivemos 30 anos sucessivos de crises no sistema financeiro. Hoje a oferta de moeda está dissociada da construção da vida real", confrontou, para indicar ainda que as experiências comunistas e socialistas também não conseguiram dar respostas às necessidades de crescimento. O palestrante citou ainda que o sistema capitalista está na sua fase de destruição, sugerindo esgotamento de reformas.

Singer apontou que a busca de mudanças e de um "outro mundo possível", parafraseando o lema do FSM, deve conjugar múltiplas mudanças, que atingiriam o sistema de produção, a tecnologia, as relações sociais e a estrutura de classes, o sistema político-institucional, o uso de recursos ambientais e vida cotidiana. Susan George situou a forma de exploração da natureza, com recentes dados sobre aquecimento global e dificuldades de acordo para frear emissão de poluentes, como foco de novas crises.

"A vida no planeta ficará quase impossível", advertiu a dirigente da Attac. "A solução é inverter a ordem de prioridade, colocando o ambiente em posição mais relevante que a economia e a sociedade", sugeriu Susan, que criticou o deslocamento de terras para cultivos dedicados à produção de biocombustível.

A dirigente da entidade defendeu que a chamada crise ecológica se sobrepõe à econômica. "Podemos fazer transição para um novo sistema econômico, mas na área ambiental, depois de certo ponto, não se pode mais voltar atrás." Susan propôs que os bancos, que tiveram forte aporte de recursos públicos nos Estados Unidos e Reino Unido, devem direcionar crédito para projetos ecológicos e que foquem pesquisas de uso sustentável da natureza. "Temos de fazer um acordo verde, não sobre custos, mas para direcionar investimentos à expansão de fontes gratuitas de energia e produção de agricultura sustentável", ilustrou.

Paul Singer chegou a criticar a tese de que o crescimento agrava a degradação ambiental. Para Singer, a recuperação do ambiente faz parte das expansões e precisam ser buscadas. O economista citou a China, que cresce a taxas de mais de 8% ao ano, que enfrenta problemas com recursos naturais, mas começa a buscar saídas. Ele também lembrou que as atividades que mais crescem estão ligadas a áreas de serviços, que não geram impacto ambiental.

Empresas poderão pagar 5% de participação nos lucros

Como forma de compensar a dedicação do trabalhador, uma comissão formada pelo governo federal, juristas e organismos da sociedade civil discute um projeto de lei que pode determinar às empresas repartir 5% do lucro líquido com os funcionários, a chamada Participação dos Trabalhadores nos Lucros e Resultados da Empresa (PLR), prevista na Constituição.

De acordo com a proposta apresentada ontem, no Fórum Social Mundial, a PLR passaria a ser obrigatória e as companhias que não cumprissem a norma seriam penalizadas com aumento no Imposto da Renda. A ideia inicial é fazer com que as companhias repassem 2% do lucro de forma igualitária aos empregados e os 3% restantes com base em critérios próprios. A proposta integra um texto com outras sugestões para regulamentar o mercado de trabalho, como a regulamentação da atividade terceirizada, proteção das práticas sindicais, autorização para o pagamento e débitos trabalhistas com correção monetária e normas para o trabalho em casa. A comissão que debate o projeto de lei pretende fechar a proposta ainda neste semestre e encaminhá-la para a Casa Civil.

Perda de espaço dos EUA marcou a década

Há dez anos, quando foi realizado pela primeira vez o Fórum Social Mundial (FSM), a conjuntura política era outra. O mundo ainda não havia presenciado o 11 de Setembro ou a crise financeira mundial, que ainda assola os Estados Unidos.

Aos convidados que participaram da mesa de discussões sobre o tema, ontem no Cais do Porto - no segundo dia de debates do seminário Dez Anos Depois: Desafios e Propostas para Outro Mundo Possível para refletir sobre os rumos do FSM - coube fazer essa análise e projetar perspectivas para o futuro.

Todos os palestrantes concordaram pelo menos em um ponto: a hegemonia política, econômica e militar dos Estados Unidos foi alterada nos últimos dez anos, mudando o tabuleiro do poder no mundo.

Se as décadas de 1970, 1980 e 1990 foram marcadas pela definição clara de uma contraposição entre hemisférios Norte e Sul, hoje a história é outra, afirma o diretor do jornal Le Monde Diplomatique Bernard Cassen.
"Os Estados Unidos perderam parte de sua hegemonia política, militar e econômica. Política, porque fracassaram na criação de mercados comuns na Amércia Latina - como a Alca (Área de Livre Comércio das Américas).

Econômica porque foram fortemente afetados pela crise no setor imobiliário. E militar, afinal não se consegue mais vencer as guerras que travaram, seja aquela no Afeganistão ou no Iraque", avalia Cassen.

Ocorreu nos últimos dez anos o que ele chamou de redistribuição do poder. "Basta ver que as atenções do mundo não estão mais voltadas para as reuniões do G-4 (grupo que reúne as quatro maiores economias do mundo), mas sim do G-20", ressalta.

Quando se pergunta o que contribuiu para essa derrocada da hegemonia norte-americana sobre o mundo, o coordenador do Fórum Social nos Estados Unidos, Michael Leon Guerrero, explica: "Uma série de fatores. As guerras, as lutas internas como o direito dos imigrantes e outras minorias, o 11 de Setembro, a eleição de Barack Obama".

Segundo ele, os Estados Unidos passam por profundas crises que devem se agravar nos próximos anos. "A grande expectativa com a eleição de Obama era de que as reformas sociais ocorreriam, mas nada disso parece estar em marcha", avalia Guerrero.

A maior economia do mundo é abalada por problemas comuns aos latino-americanos como altas taxas de desemprego - cerca de 10% -, dificuldades nos orçamentos estaduais, e desarticulação dos movimentos sociais que perderam força.

Contudo, o maior desafio que os Estados Unidos terão pela frente é a discussão dos direitos dos imigrantes. "Obama deveria assumir uma atitude mais ofensiva e garantir as mudanças necessárias, mas infelizmente os bancos são quem faz o lobby nos Estados Unidos hoje", relata Guerrero.

Preso, ativista palestino enviou vídeo em defesa de sua causa

Um dos convidados para o painel Conjuntura Política do seminário Dez Anos Depois: Desafios e Propostas para Outro Mundo Possível não compareceu por ter sido preso em dezembro para ser interrogado pelo Exército israelense.

Libertado no final de semana, o palestino Jamal Juma não veio ao Fórum Social Mundial (FSM) em Porto Alegre, mas levantou a pauta para a comunidade internacional através de um vídeo, exibido ontem no Cais do Porto.
Juma conclamou todos a lutar pelos direitos dos palestinos em Israel. Ele lidera a principal resistência à construção do muro da Cisjordânia - Stop the Wall Campaign.

Boliviano critica investimentos externos do Brasil

O coordenador do Centro de Estudios Aplicados a los Derechos Econômicos, Sociales y Culturales da Bolívia, Gustavo Soto Santiesteban, chamou a atenção do público do painel sobre Conjuntura Econômica no seminário de avaliação dos dez anos do Fórum Social Mundial para o "perverso" projeto do Brasil de investimentos no setor de energia e telefonia em seu país.

"Com o apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), projetos de investimento nestes setores estão a serviço do mercado emergente, contra os interesses do povo boliviano." Ele criticou nominalmente a Petrobras; sinal de que, apesar de a estatal brasileira ter cedido na disputa com a Bolívia - que com uma política de nacionalização após a primeira vitória de Evo Morales exigiu maior retorno sobre a exploração de hidrocarbonetos - as restrições ao Brasil ainda não foram superadas.

Modelo de produção influencia a devastação

Maurício Macedo

O lema do Fórum Social Mundial passa pela mudança no atual modelo de produção global. "Um outro mundo possível" não será realidade sem que se altere o sistema econômico que impera na sociedade, pelo menos, desde o século XVIII.

Esta foi a tônica do evento A Conjuntura Ambiental Hoje, realizado ontem, na Usina do Gasômetro, na Capital. Com o objetivo de discutir a crise ambiental que assola o planeta, os debatedores voltaram suas críticas contra o capitalismo predatório, no qual só há espaço para o lucro e a competitividade - deixando de lado qualquer consciência com questões que envolvam o meio ambiente.

Para Gilmar Mauro, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), os fatores ambientais estão intimamente ligados à economia e à política. "Não é possível não associar uma coisa às outras. A lógica da lucratividade não é sustentável", explica.

A liderança do MST diz que esta ótica está tomando conta também da produção agrícola. "Vivemos uma era de agricultura mercantil, com o avanço das monoculturas produzidas à base de agroquímicos que contaminam o meio ambiente e, por consequência, a humanidade." Desta forma, "o caminho é mudar o foco da produção dentro de um debate que envolva toda a sociedade".

Mas Mauro não quer ficar apenas na discussão. "Não podemos permanecer parados e, por isso, é preciso que se promovam algumas iniciativas neste sentido", sugere.

A produção orgânica ou agroecológica é uma dessas alternativas. "O MST já conta com cursos de extensão rural em formação técnica, pois o atual modelo de ensino agrícola é voltado sempre para o uso de químicos. Além disso, os governos devem estimular e subsidiar essas iniciativas para que os produtos orgânicos tenham preços acessíveis à maioria da população", acrescenta.

Ainda na relação do cultivo de alimentos e o meio ambiente, o Movimento das Mulheres Camponesas (MMC) reclama da concentração dos meios de produção. "Nas mãos de poucos, isso acaba gerando a expulsão dos pequenos agricultores do campo", analisa a dirigente nacional Adriana Mezadri.

Segundo ela, só o fortalecimento da agricultura familiar pode garantir a sustentabilidade ambiental tão necessária. "Precisamos de mais apoio, pois somos nós que construímos uma produção agrícola em sintonia com o meio ambiente."

Garantia de direitos aos menos favorecidos também foi o ponto-chave da manifestação de Roberto Espinoza, da Coordenação Andina de Organizações Indígenas. O peruano atacou o sistema capitalista, que "não traz alternativa para superarmos a crise ambiental". Propôs a mudança do padrão energético, baseado no petróleo, por módulos de energia limpa e renovável.

Espinoza salienta que a conjunção de crises por que passa a humanidade (financeira, ambiental etc.) é resultado do modelo de civilização. Ele avalia que a formação dos Estados-nações, separados por fronteiras territoriais, contribui para a falta de mobilização social de maneira mais ampla.

Por causa disso, conclamou os povos latino-americanos a resistir "aos desmandos" das empresas transnacionais e pressionar os governos por medidas efetivas. "Não é mera coincidência que a maior biodiversidade do planeta esteja localizada aqui, associada à maior diversidade cultural. Os responsáveis pela defesa do meio ambiente somos nós mesmos", ressalta o líder indígena.

A falta de esperança nas ações governamentais demonstrada pelos participantes do debate pode ser resumida pelas dúvidas levantadas pelo colombiano Hildebrando Vélez Galeano. O dirigente da organização Amigos de la Tierra lembrou que há dez anos, na primeira edição do fórum, "a América Latina ainda não era governada por lideranças progressistas como é hoje". "O próprio presidente Lula, quando esteve aqui, há sete anos, prometeu não abandonar o caminho do socialismo. Nesse tempo todo, o que temos de avanços? Será que os governos têm as condições necessárias para mudar este ritmo de desenvolvimento que degrada o meio ambiente?", questionou.

Organizações sociais querem participar mais da política

Daniel Cassol, especial para o JC

A crise financeira estourada em 2008 abriu possibilidades de mudanças no modelo de desenvolvimento econômico, mas as organizações da sociedade civil ainda não conseguiram intervir na construção de alternativas. Participar mais da política é um desafio para os movimentos do Fórum Social Mundial.

"Parece que o Fórum não gosta de discutir política", brinca o sociólogo Emir Sader, que participou de um seminário ontem em Porto Alegre. O intelectual defende que as organizações sociais passem a dialogar mais com os governos, influenciando nas decisões políticas que darão respostas à crise econômica e podem construir "um outro mundo possível" sonhado pelo FSM. "Esse outro mundo possível está sendo construído e o Fórum precisa participar deste processo. Precisamos discutir as políticas dos governos da América Latina eleitos por esta onda popular de rejeição ao neoliberalismo", defende Sader.

O empresário Oded Grajew, idealizador do encontro, pondera que o Fórum em si não é uma entidade, mas um processo construído pelas organizações sociais. Mas concorda que a sociedade civil deve participar mais da política, já que os governos não têm mostrado condições de promover mudanças, como evidenciou o fracasso da cúpula ambiental em Copenhague. "Essa relação com as políticas públicas precisa se acelerar, do contrário o modelo de desenvolvimento não será mudado", disse Grajew. As mudanças climáticas deram um prazo para que sejam feitas estas mudanças, "urgentes" na opinião do empresário.

Sair da crise econômica com um modelo de desenvolvimento que respeite o meio ambiente tem sido, aliás, uma das grandes preocupações do Fórum Social Mundial neste encontro de avaliação após dez anos de seu início. Para o sociólogo Edgardo Lander, professor da Universidade Central da Venezuela (UCV), mesmo os governos populares da América Latina não têm dado respostas neste sentido. "Não basta ter governos populares se não dermos passos na mudança do modelo de consumo", avalia o venezuelano, para quem até mesmo as experiências socialistas do século XX reproduziram um modelo predatório da natureza.

Segundo o venezuelano, não se trata de uma "previsão apocalíptica" dizer que a humanidade está com os dias contados se não mudar o modo de produção e consumo. Mas acha que a sociedade ainda não compreendeu a gravidade da situação. "Um governo que se propusesse a estimular um decréscimo no produto interno e a diminuição do consumo provavelmente teria poucos votos", pondera.

A secretária de mulheres da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Rosane da Silva, também propõe maior participação das entidades sociais nas decisões políticas e econômicas dos governos. A resposta à crise, diz a sindicalista, passa por aumento do emprego e geração de renda. "A população precisa ter condições de decidir onde serão aplicados os recursos."

Não por acaso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou do Fórum Social Mundial ontem, no Gigantinho, como já havia ocorrido em Belém do Pará, na edição do ano passado. Para Sader, a participação de presidentes no encontro não deve ser para "fazer discursos", mas para que eles sejam cobrados por suas ações. O sociólogo acredita que os movimentos sociais devem participar da política, sem medo de perder sua autonomia em relação a partidos e governos. E cita o caso da Bolívia como exemplo a ser seguido.

"Depois de derrubar cinco governos, os bolivianos se reuniram e fundaram um partido, recriando a relação com a política de uma forma inovadora", destaca. Para ele, se a sociedade civil quiser de fato participar da disputa de rumos políticos e econômicos desencadeada com a crise, deve assumir uma postura mais propositiva. "A resistência eterna é um caminho de derrota. É preciso construir alternativas", defende Sader.

COMENTÁRIOS
Pedro Martins - 27/01/2010 - 23h51
Estou no Fórum. Até o momento, foi a cobertura mais coerente, coesa e objetiva que eu tive acesso pela internet. Parabéns aos colegas.

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