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Sociedade Notícia da edição impressa de 15/05/2013

Identidade criada causou invisibilidade do negro

Libertação no Estado aconteceu quatro anos antes, mas estereótipo do gaúcho “branco e europeu” acabou prevalecendo

Jessica Gustafson

FOTOTECA SIOMA BREITMAN/MUSEU JOAQUIM FELIZARDO/DIV/JC
Na década de 1900, negros libertos trabalhavam na fabricação de roscas de polvilho em Porto Alegre
Na década de 1900, negros libertos trabalhavam na fabricação de roscas de polvilho em Porto Alegre

A abolição no Rio Grande do Sul aconteceu quatro anos antes do que no resto do País. Em setembro de 1884, o Estado concedeu a liberdade aos negros porque não dependia mais tanto da mão de obra escrava. Porém, a antecipação não pode ser considerada um avanço. 

De acordo com Marcus Vinicius de Freitas Rosa, doutorando em História Social na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), nesta época, a liberdade era dada mediante contatos de prestação de serviço por mais alguns anos. Além da falsa libertação, ele ressalta que questões culturais também foram marcantes, pois os intelectuais da década de 1880 começaram a construir uma identidade regional de um local menos miscigenado, branco e frio, em contraponto com o resto do País, que era miscigenado e tropical.

“Se começou a inventar um gaúcho baseado em uma identidade branca e europeia, que nega qualquer outra forma de contribuição. Isso acabou gerando a invisibilidade dos negros e dos índios no Estado”, explica. Além disso, a discussão do direito dos negros depois da abolição foi acompanhada pela criação de políticas públicas de importação de mão de obra europeia, nas quais se preferia conceder terras aos imigrantes europeus.

Entretanto, na opinião de Rosa, mesmo com esses fatores culturais, não se pode dizer que uma região é mais racista do que a outra, pois o racismo existe em todo o Brasil. A afirmação é embasada na análise da hierarquia social, quando se observa as pessoas brancas no topo e os negros nas classes subalternas. “Isso acontece porque a cor da pele ainda é um fator social”, diz.

O processo de emancipação no País foi discutido ao longo de todo o século XIX. As elites brasileiras, principalmente os donos de escravos, tinham muito medo de uma rebelião e passaram a discutir a abolição. Consequentemente, com a liberdade, viriam os direitos e esta foi a grande questão política do processo no Brasil. Segundo o pesquisador em relações raciais pós-abolição, o modelo emancipacionista adotado foi concedendo esses direitos aos poucos, com a criação da Lei do Ventre Livre, a dos Sexagenários, entre outras, até culminar na Lei Áurea.   

“Os reflexos da abolição ainda são sentidos de maneira muito forte, pois a ampliação de direitos aos negros ainda é um debate. Como, por exemplo, quando se discute lei de cotas nas universidades ou em concursos públicos”, afirma. De acordo com Rosa, esse debate traz uma relação entre cor da pele e lugar social, pois aos negros, depois da abolição, sempre foram reservados os lugares subalternos. A ampliação dos direitos, através das novas leis, para o pesquisador, são uma forma de reverter esse posicionamento. “Por mais que se tente falar que cor e raça são coisas distintas, na verdade, a cor da pele sempre foi um indicativo racial no Brasil”, ressalta.

Para pioneiro do movimento negro, só a educação pode diminuir as desigualdades

Eloy Dias dos Angelos passou a maior parte dos seus 83 anos envolvido com movimento negro em Porto Alegre. Participou de ações em entidades voltadas para a educação e a arte, como a Satélite Prontidão e o grupo de teatro Saci.  De acordo com o militante, um dos pioneiros na questão racial, sua maior preocupação era a falta de visibilidade do negro, que só aparecia quando era vítima de algum preconceito. 

Mesmo com algumas críticas, principalmente sobre a abordagem da imprensa, ele é contra a ideia de que a situação não avançou. “São etapas. O que se precisa é, apenas, de educação para todos. Tendo estudo e alguns princípios básicos de vida, a gente consegue dar a volta por cima”, acredita.

Para ele, as condições do negro melhoram, principalmente quando passaram a ter voz. Eloy ressalta que muita coisa ainda depende da própria raça, que precisa ter mais união e consciência. “Eu digo: ‘eu sou negro, e o que tem isso?’”, questiona. “Uns são gordos, outros têm bigode. Agora, com as cotas, muita gente se achou negra. Eu não, sempre fui. Tendo essa consciência, não se embaraçando com a própria cor, avançaremos mais”, ressalta.

Sobre a questão das cotas, Eloy diz não ser nem contra nem a favor. O importante, para ele, é a qualidade da educação de base, do Ensino Fundamental ao Médio. Sobre as pesquisas que mostram a diferença de renda entre negros e brancos, o militante se mostra cético. Ao relatar sua trajetória de vida, lembra que nada foi fácil, porém, sabe que tudo que conseguiu foi unicamente através de seu trabalho.

“Fiz um curso técnico de linotipista no Parobé. Tinha aula nos dois turnos e, quando me formei, já tinha emprego garantido. Depois, comecei a trabalhar como jornalista e me formei em Direito. Eu sempre tive o salário que eu achei que merecia”, considera. 

A data de 13 de maio significa para ele um marco histórico, uma etapa vencida entre as muitas que ainda estão por vir. Mas isso para todas as raças. Para quem ele chama com orgulho de brasileiros. A educação foi sua grande aliada e é principalmente isso que ele deseja. Mais acesso, mais qualidade e professores bem remunerados. “O que nós brasileiros, brancos e negros, precisamos são de políticas mais sérias e honestas que atendam as camadas mais necessitadas”, conclui.

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