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Notícia da edição impressa de 11/11/2010

Clarice por Benjamin

Brigida Sofia

LUIZ MAXIMIANO/DIVULGAÇÃO/JC

Ele é Benjamin Moser. Ela, a inconfundível Clarice Lispector. Um dos convidados mais esperados desta edição da Feira do Livro, o escritor norte-americano estará em Porto Alegre no último dia do evento, 15 de novembro, para falar sobre a obra Clarice, (lê-se Clarice vírgula), biografia publicada no Brasil pela Cosac Naify. O livro traz informações inéditas da vida da escritora, desde a origem miserável e violenta na Ucrânia - para onde Moser viajou - até o reconhecimento crítico. Além de oferecer mais informações ao público brasileiro, o interesse de um pesquisador estrangeiro tem despertado a atenção para os livros de Clarice em outros países. Moser concedeu a entrevista antes de chegar em solo brasileiro, já preparando o leitor gaúcho para o bate-papo que ocorre dia 15, às 17h, seguido de sessão de autógrafos às 18h30min.

JC - Feira do Livro - Como você descobriu Clarice e porque se interessou em fazer um trabalho sobre ela?

Benjamin Moser - A primeira vez que tive contato com Clarice foi como parte de um curso de literatura brasileira, um curso introdutório, no meu terceiro semestre de Português na faculdade nos Estados Unidos. Lemos várias obras curtas, fáceis, coisas agradáveis, mas que não me deram o impacto que tive com A hora da estrela, a última obra do curso. Nunca tinha visto coisa igual. Até hoje, inclusive, nunca vi nada igual. Depois, senti uma necessidade de divulgar essa escritora no mundo, mas não sabia como: só anos depois resolvi fazê-lo por meio de uma biografia. Porque eu sou escritor. Se fosse ator, por exemplo, teria, quem sabe, tentado fazer alguma coisa no teatro.

JC - Feira do Livro - Como seu trabalho foi desenvolvido? Cartas, depoimentos de familiares...

Moser - Adorei essa parte da pesquisa. Porque me levou a lugares que nunca teria visitado, como a região da Ucrânia onde ela nasceu, que é ainda hoje bastante difícil de penetrar. Depois me levou para a Moldávia, por exemplo: quando é que eu teria ido para a Moldávia? Quem vai para lá? E quando fui entrevistar as pessoas que a conheceram, fiquei surpreso. Porque fui com bastante reticência. Não queria interromper as pessoas, não queria chegar batendo na porta para perguntar sobre coisas muito antigas e muito pessoais. Mas descobri que muitas gostaram de ser entrevistadas. Muitas pessoas mais velhas têm vivido vidas extraordinárias, e ninguém se interessa. Os netos não perguntam, ninguém pergunta. São de certo modo esquecidas. E têm coisas maravilhosas para contar, ficaram contentes em ver que uma pequena parte de suas vidas ia ser lembrada em um livro. E gostaram de falar da Clarice. Todos tiveram um carinho imenso para com ela e ficaram felizes em saber que alguém estava tentando ampliar o conhecimento dela internacionalmente.

JC - Feira do Livro - Que aspecto achou mais interessante na vida da escritora?

Moser - No final da vida, Clarice quer deixar morrer seus personagens. Diz que eles precisam morrer, mas ela não tem coragem. E se percebe que se ela deixar suas criações morrerem, ela também terá que morrer. E é exatamente o que acontece. No seu último livro, A hora da estrela, a personagem, Macabéa, é atropelada por um carro. Ela está ainda no chão, Clarice sabe que tem que morrer, mas não pode abrir mão; finalmente deixa morrer e pouquíssimos dias depois a própria Clarice vai para o hospital e morre. Fiquei espantado quando percebi aquilo.

JC - Feira do Livro - Qual obra você considera a melhor?

Moser - Depende do dia. Há muitos pontos altos na obra dela, mas como A hora da estrela foi a primeira coisa dela que li, sempre ocupa um lugar especial no meu coração.

JC - Feira do Livro - Clarice é vista como uma pessoa negativa por alguns leitores. Possivelmente em função de sua obra, pois não é difícil confundir o autor com aspectos de sua literatura. Como ela era afinal ?

Moser - Não acho que fosse uma pessoa negativa. Ela era uma pessoa que tinha uma vida muito movimentada, muito complicada, às vezes muito sofrida - mas isso se pode dizer de qualquer um de nós. Ela também era uma pessoa humana como qualquer outra, e é assim que tentei retratá-la. O que não se pode dizer de qualquer um de nós é que ela deixou uma herança única que é um orgulho para o Brasil e para o mundo.

JC - Feira do Livro - Ela era bissexual ? Se sim, como isso influenciou sua obra? Como ela lidava com isso?

Moser - A mitologia ao redor da Clarice é tamanha que talvez não valha a pena insistir em desmentir certos boatos, mas este, de que ela teria sido bissexual, é muito persistente. Como é tão persistente, falei com muitos amigos e familiares - inclusive vários amigos gays e lésbicas - sobre isso e todos disseram que é a maior besteira. Mas vai ver que o boato não vai parar por aí.

JC - Feira do livro - Como ela conciliava a escrita com a vida familiar e como a família lidava com o trabalho dela?

Moser - Como qualquer pessoa que trabalha fora de casa, era às vezes difícil, mas ela sempre fazia questão de não se isolar da sua família. Disse, por exemplo, que ela escrevia no sofá, na sala, enquanto os filhos não paravam de interromper. Mas o casamento dela com um diplomata sofreu: o trabalho de esposa de diplomata não combinava com a personalidade dela e no final ela acaba deixando o marido e voltando ao Brasil.

JC - Feira do Livro - Clarice escreveu colunas destinadas a mulheres. Como eram esses textos? Que tipo de comportamento feminino ela apoiava?

Moser - Não é nos jornais brasileiros dos anos 1950 e 1960 que devemos buscar ideias radicais sobre comportamento feminino. Clarice, nas suas colunas, apoiando-se na sua experiência no Itamaraty, é extremamente "correta" em tudo o que ela aconselha à mulher. Ao mesmo tempo, ela insere coisas sutis: dando uma força às mulheres que querem estudar, que querem ou que devem trabalhar, ou que se sentem afogadas pelas exigências do papel de mãe e esposa. Com grande delicadeza e muito humor, esboça uma mulher moderna que não deixaria de ser mulher no sentido tradicional.

JC - Feira do Livro - Você considera Clarice feminista?

Moser - Claro. Clarice foi uma das primeiras jornalistas mulheres no Brasil, uma das primeiras a se formar advogada, além da grande pioneira da literatura brasileira, em cuja obra vemos uma compreensão para os desafios da mulher, para o coração da mulher, que só pode vir de uma pessoa que acredita absolutamente na igualdade entre os sexos.

JC - Feira do Livro - Que visão ela tinha do Brasil? Ela se sentia brasileira? Que aspectos da cultura brasileira ela gostava e quais não gostava?

Moser - Ela era brasileira por formação e por escolha, profundamente vinculada ao país que salvara sua família. Ela se orgulhava do povo brasileiro e, sobretudo, talvez, da língua do Brasil, que era o instrumento de sua arte e que ela levou a alturas nunca antes alcançadas. O que ela não gostava do Brasil era exatamente a mesma coisa que dói a tantos outros brasileiros, a miséria, as desigualdades sociais, a aparente impossibilidade do país chegar ao seu aparentemente ilimitado potencial.

JC - Feira do Livro - Que outro país ou povo interessava a ela? Por que?

Moser - Ela morou em muitos países, na Itália, na Suíça, na Inglaterra e nos Estados Unidos, mas ficou cansada de tanto estar no estrangeiro e optou por voltar ao Brasil.

JC - Feira do Livro - Você teve acesso a outras biografias dela? O que considera inovador no seu trabalho?

Moser - Li uma quantidade imensa de obras sobre Clarice, cada uma com sua visão de Clarice, e a minha se distingue por ser o meu retrato dela, por incluir aspectos que nunca tinham sido revelados, como a chocante história de suas origens na Europa, a profunda relevância do pensamento judaico na obra dela, e também por esboçar um retrato da cultura e política brasileiras para o público internacional ao que foi originalmente destinado. Isso tem despertado muito interesse por ela nos Estados Unidos e na Inglaterra, onde estamos republicando as obras dela em novas traduções, e também em países como Portugal e França.

JC - Feira do Livro - Há outro personagem ligado ao Brasil que seja de seu interesse?

Moser - Muitíssimos! Agora, ao ponto de fazer mais uma biografia, não sei, mas só por enquanto!

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