Quem se dedicar, hoje ou no futuro, a contar a história de Porto Alegre e os acontecimentos vividos desde o século passado terá à disposição uma fonte de consulta que reúne literatura e jornalismo de forma rica e singular. Para tal, basta consultar a obra de Rafael Guimaraens, que tem se especializado em contar histórias da cidade, vivências pessoais e coletivas, registros de grandes e pequenas tragédias e das personagens que colocam a metrópole em movimento.
Guimaraens traz na bagagem pessoal e profissional um legado que perpassa gerações: seu avô foi poeta, o pai era jornalista, e seu irmão também seguiu pelo Jornalismo. Trata-se de uma família reunida pela escrita, desde a poesia simbolista ao livro-reportagem. "Meu avô Eduardo Guimaraens foi um grande poeta simbolista. Morreu muito jovem, quando meu pai tinha apenas dois anos, mas deixou uma presença muito forte através de seus objetos e dos seus originais, que ficavam nas nossas gavetas, além de seu livro Divina Chimera, que teve a primeira edição publicada em 1916." O título, claro, é uma homenagem a um ídolo e inspiração para Eduardo Guimaraens (1892-1928), o poeta florentino Dante Alighieri (1365-1421), autor da Divina Comédia.
"Então, para nós", - continua Rafael - "eu, meus irmãos e irmãs, minhas primas, era um avô jovem nos retratos, um tanto misterioso. Estamos conhecendo esse avô com mais profundidade agora, através das edições e reedições de sua obra e do resgate de sua trajetória, a cargo da minha prima Maria Etelvina. Herdamos dele uma ampla biblioteca, que ficava no nosso quarto e nos permitiu ler muito durante a infância, muitas vezes leituras fora de época. Meu pai foi um grande jornalista, Carlos Guimaraens, repórter da Revista do Globo, cronista e editorialista do Correio do Povo, possuidor de uma cultura e uma inteligência fora do comum que, por vezes, nos inibia, embora fosse muito afetuoso. Então, para nós, eu e meu irmão Eduardo, seguir para o Jornalismo foi um tanto natural, porque frequentávamos a redação do Correio do Povo, testemunhávamos aquele matraquear de máquinas de escrever, éramos apresentados aos velhos jornalistas, amigos do pai, e aquele ambiente nos contagiava. Fui arrebatado pelo Jornalismo numa época difícil, ainda sob a ditadura, na qual vigorava a cesura e todo o tipo de restrição à atividade profissional".
Filho e neto dessas trajetórias nas letras, e criando sua própria trilha a partir delas, Carlos Rafael Guimaraens, é um cidadão duplamente reconhecido como porto-alegrense. A primeira foi quando nasceu, em maio de 1956, e desde 2022 também como Cidadão Emérito de Porto Alegre, em honraria concedida pela Câmara Municipal.
O Rafa, para os amigos e familiares, começou sua carreira no final dos anos 1970, num projeto que buscava garantir dignidade ao fazer jornalístico: a Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre (Coojornal), que dava nome ao jornal que deixou uma preciosa memória. Mais tarde, Rafael trabalhou em outro projeto que se pretendia inovador, como editor de Política do jornal Diário do Sul, veículo que teve curta duração.
Guimaraens é autor de 21 livros. Uma das características que marcam a sua obra é a busca de uma síntese entre reportagem jornalística e ficção - quase como uma cruzada pela melhor forma de contar as histórias da cidade. "A literatura gaúcha tem uma tradição memorialista, basta ver as obras de Erico Verissimo, Josué Guimarães, Alcy Cheuiche, Tabajara Ruas, Luiz Antônio Assis Brasil. No meu caso, tudo nasceu de uma conjugação de coincidências", afirma, com modéstia. E assim sua atividade jornalística se ampliou para a literatura. "Nunca tive o projeto de ser escritor. Fui um bom jornalista, sem ser brilhante, tive uma boa trajetória profissional, com todos os percalços que surgiram. Até os quase 40 anos, não me passava pela cabeça escrever livros", analisa, com uma franqueza que, para quem hoje acompanha sua obra, não deixa de ser surpreendente.
'A construção da memória é árdua, mas necessária'
Um dos primeiros livros de Rafael Guimaraens surgiu com a ideia de falar a uma criança. "Eu havia inventado uma história infantil para a minha filha, Elisa", lembra. "Mas só fui escrever (o livro) bem mais tarde, chamado O Livrão e o Jornalzinho." A ideia se concretizou com a parceria de sua companheira e sócia da Editora Libretos, Clô Barcellos. "Ela imediatamente tratou de viabilizar o livro, que seria o meu primeiro."
Depois dessa primeira experiência, a mente de Rafael foi atraída para um acontecimento que entrou para a História do Brasil. "Eu sempre tive uma fixação pelo episódio da Legalidade, guardava todas as informações que conseguia sobre aquele momento histórico fantástico. Aos poucos, isso foi virando um projeto". No começo de 2001, Rafael pensou em reunir as informações em um livro, que se materializaria em Pôrto Alegre Agôsto 61. Na época, Clô Barcellos já tinha a Libretos; então uma empresa de design gráfico, a empresa encontrou na publicação do livro o impulso para ser também editora. Ele lembra que "o livro foi muito bem recebido, talvez pela capa, feita por ela (Clô), que reuniu uma série de ícones daquela época."
A partir de então, como resume Rafael Guimaraens, "as coisas começaram a acontecer". "Um livro foi puxando o outro, e o meu trabalho acabou seguindo o caminho da construção da memória, isso num País que se caracteriza pelo esquecimento proposital de sua história", constata. Uma falta coletiva de memória que preocupa bastante o escritor. "Basta lembrar o processo de transição da ditadura para a democracia, marcado não pelo direito à verdade, mas por um grande acordo do tipo não se fala mais nisso, ao contrário de outros países, nos quais a redemocratização foi acompanhada pelo acesso à verdade e pela responsabilização dos agentes públicos que cometeram crimes", ressalta.
Com a experiência de quem foi editor de Política, Guimaraens acredita que não tivemos uma memória pública sobre a ditadura, "fazendo com que muita gente, até hoje, defenda a volta do regime militar, muitas vezes sem saber o que está falando". E reforça: "a construção da memória é uma tarefa árdua, mas necessária".
Ao lado de Clô Barcellos, companheira e sócia na Libretos, que desde 2001 é uma das mais importantes editoras do Estado
RICARDO STRICHER/DIVULGAçãO/JC
Com este objetivo, outros livros vieram: Trem de Volta - Teatro de Equipe, junto com Mario de Almeida, que resgata a história desse grupo tão importante para a Cultura da cidade na virada dos anos 1950 e 1960, e Teatro de Arena - Palco de Resistência. Para Rafael, estas duas referências de teatro, surgidas em Porto Alegre "são fantásticas experiências culturais que estavam esquecidas pelos processos de apagamento do período da ditadura."
Muitos dos livros escritos por Rafael Guimaraens registram acontecimentos distintos entre si, mas que têm em comum a marca indelével que deixaram na história do cotidiano de Porto Alegre. Foi essa disposição de contar histórias da cidade que foi moldando o estilo definitivo do escritor. "A partir de Tragédia da Rua da Praia, que conta uma impressionante história de faroeste ocorrida em 1911, passei a exercitar uma forma narrativa mais literária", revela.
Sobre esse livro, o jornalista Luiz Pilla Vares escreveu no jornal Zero Hora, à época do lançamento: "pois nosso Rafinha nos presenteia com uma obra fascinante, uma brilhante mistura entre romance, reportagem e história". Tragédia da Rua da Praia foi sucesso de público e crítica, encorajando o autor a ir mais fundo na busca de uma fronteira perfeita entre jornalismo, história e literatura.
"Conto histórias reais, rigorosamente pesquisadas, mas dou uma roupagem próxima do romance. Senti que deu certo quando o amigo Tabajara Ruas, um de meus escritores prediletos, me telefonou falando bem do livro. A boa repercussão me animou a seguir esse caminho em outros livros, como A Dama da Lagoa, O Sargento, o Marechal e o Faquir, Fim da Linha - Crime do Bonde, O Espião que Aprendeu a Ler e O Incendiário", enumera. O estimulo o levou a, em algumas obras, dar a volta completa e trabalhar exclusivamente com ficção, em 1935, Barra 77 e 1937 - Juliette em Perigo!, cujo lançamento fez parte da programação da Feira do Livro.
"Foi mais a vida que me levou do que um projeto estratégico que eu tenho concebido", reforça. "Nesta trajetória eu parti do empirismo absoluto para um método de trabalho mais ou menos rigoroso. A partir da pauta, relaciono as fontes de pesquisa que, fatalmente, partem dos sites de busca da Internet e ganham consistência nas visitas a arquivos, bibliotecas, museus, coleções de jornais, busca de livros relacionados com o tema."
Ataques na virada dos anos 1950 estão em O Incendiário, de Rafael Guimaraens e Edgar Vasques
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Um esforço que, é claro, demanda o DNA de repórter para amarrar da melhor forma. "Quando é o caso de entrevistar pessoas, somente vou até elas quando já tenho um bom volume de informações. Tenho consciência também que a pessoa entrevistada contará apenas uma parte da história, que é aquela que sua memória guardou, o que demanda uma rigorosa checagem para não errar ou mesmo para não expor a fonte. Preciso também de uma ambientação o mais realista possível sobre a época em que os fatos se passaram. Obviamente, tenho que entender qual era a conjuntura política, quais eram as pessoas de destaque, mas também informações gerais: artistas de destaque, vocabulário da época, gírias, meios de transporte, modelos de automóveis, marcas de cigarro, estabelecimentos, vestuário. Enfim, tudo que possa ajudar na reconstituição da época", completa.
A busca inclui também fotografias e filmes sobre o período estudado, mesmo que não tenham relação direta com a história a ser contada. E às vezes exige uma boa dose de pé no barro, como toda boa reportagem. "Quando se trata de um determinado fato - algum evento ou um crime, por exemplo - procuro visitar o local, da preferência no horário em que ocorreu, ver o que sobrou da arquitetura, e faço um exercício de me imaginar naquele local, na época e no momento em que o fato acontecia", enfatiza. "Tenho um mantra: só posso escrever sobre o que domino."
O livro da enchente de 1941, atingido pela enchente de 2024
Às vezes, ao investigar e relatar fatos passados, um autor é afetado pelo presente. Esse foi o caso de um dos livros mais vendidos de Rafael Guimaraens, A Enchente de 41, cuja primeira edição logo esgotou, em 2009. À época, nem os leitores e nem o autor poderiam esperar que aquela inundação que tomou conta do Centro e de muitos bairros de Porto Alegre se repetiria, ainda maior e mais trágica, em 2024. Uma edição inteira, ou quase, ficou debaixo d'água quando as águas do Guaíba atingiram o depósito onde os exemplares estavam estocados.
"Perdemos 13 mil livros", recorda Clô Barcellos, da Editora Libretos. "Nosso depósito foi duramente atingido. A população ajudou demais nas vendas que fizemos logo depois do evento. Participamos de editais e, graças às políticas públicas, refizemos nosso estoque", relembra.
Felizmente, a experiência da editora, iniciada em 2001, resistiu. "A Libretos existe desde 1988, mas começou como empresa de design editorial. Nos colocamos no mercado editorial a partir de 2001. O entorno foi se conformando - ao nosso redor e a partir de nós -, sem que a gente tivesse planejado, apenas desejado. Sem saber nada de teoria, éramos só vontade. Não prospectamos nada, apenas fomos fazendo", relembra. Iniciada a partir dos livros de Rafael, hoje a Libretos é uma das editoras fundamentais do mercado gaúcho.
Quando a ditadura mostrou sua cara
Um episódio marcante na formação de Rafael Guimaraens como jornalista foi a passagem pelo Coojornal - oportunidade em que sentiu na pele o peso da repressão e da censura. "Eu tive uma sorte tremenda de, ainda no segundo ano de faculdade, ter tido a possibilidade de trabalhar na Cooperativa dos Jornalistas, inicialmente como arquivista e, mais tarde, como repórter e secretário de redação", lembra.
Para Rafael foi um tempo de convivência com colegas que marcaram sua vida, "não só do ponto de vista profissional, mas principalmente pela postura ética e corajosa com que se comportavam, num momento crítico para o País".
Era um tempo de arbítrio, de violência e intolerância. A repressão ao veículo incluía 'visitas' da Polícia Federal a anunciantes e clientes, culminando com um processo movido pelo Ministério do Exército, com base em leis de exceção, que levou quatro integrantes da redação à prisão - entre eles, Rafael - após a publicação da relação dos nomes dos cassados pela ditadura nas páginas do Coojornal.
"Aprendi muito nos sete anos em que estive envolvido com a cooperativa", afirma Rafael. "Caras como Elmar Bones, José Vieira da Cunha, Osmar Trindade, Edgar Vasques, Rosvita Saueressig, Ayrton Kanitz e André Pereira foram meus grandes mestres, não apenas do ponto de vista da técnica jornalística, mas, na mesma medida, da dignidade profissional", reconhece.
O futuro do jornal impresso
Vindo de uma família que sempre viveu em torno do jornalismo impresso, para Rafael Guimaraens é uma espécie de desafio se adaptar à ideia do fim do jornal, tal como conheceu e conviveu. "Creio que os jornais impressos não têm futuro", admite. "Talvez sobrevivam os mais tradicionais, tipo Washington Post ou Le Monde, enquanto houver leitores. Hoje em dia, não tem muita lógica gastar uma fortuna com impressão e distribuição diária quando a pessoa pode ter o jornal em seu computador, a hora que quiser", pondera.
Para Guimaraens, a perda com o fim dos jornais se estende também ao ofício de pesquisador. "Fico imaginando onde, daqui a cem anos, os pesquisadores encontrarão fontes jornalísticas que possam os ajudar a entender o mundo de hoje. Na nuvem? Mas eu acho que o problema é mais grave", acentua. "Vivemos em um mundo contaminado por fake news e com uma enxurrada de informações aleatórias, partidas de fontes, na maioria dos casos, desconhecidas ou mal-intencionadas".
Seu depoimento é quase um argumento para mais um livro, quem sabe. "Cada pessoa possui em seu bolso uma câmera fotográfica e uma filmadora e, mais do que isso, tem a possibilidade de irradiar essas imagens para todo mundo instantaneamente. Mas, que informação é essa? Ao mesmo tempo, temos o fenômeno dos influencers, pessoas que se tornam conhecidas e, como diz o nome, passam a influenciar as outras sobre qualquer assunto sem que estejam qualificadas para isso."
A solução dessa trama está, no fundo, na profissão de fé no que sempre fez: a afirmação do Jornalismo como espaço de credibilidade e direito à informação com responsabilidade. "Porém, desafiados por esta nova realidade, os grandes jornais abdicaram dessa missão. Não souberam nem se interessaram se adequar aos novos tempos. Já que não podem concorrer no campo da instantaneidade, deveriam valorizar o conteúdo das notícias, mas não é o que tem acontecido", lamenta Rafael. "O bom jornalismo, hoje, pode ser encontrado nas iniciativas alternativas, mas ainda há o desafio de resolver a questão da viabilidade econômica."
Nesse cenário, Rafael Guimaraens faz sua parte. E espera que, no futuro, os que lerem seus trabalhos encontrem um ponto seguro de partida para desvendar o que Porto Alegre foi, é e, de diferentes formas, poderá continuar sendo.
Para saber mais
A enchente de 41
O livro em forma de álbum tem o objetivo de mostrar o que aconteceu entre 10 de abril e 12 de maio de 1941, quando Porto Alegre viveu sua maior catástrofe no século XX. Primeiro, veio a chuva. Depois, a fúria dos rios, que violou domicílios e estabelecimentos. Uma enchente de 22 dias quebrou a rotina da cidade de forma violenta, espalhando pânico e desespero. Cerca de 70 mil pessoas deixaram suas casas - um quarto da população de Porto Alegre à época. Foi a quarta grande enchente num período de 15 anos e a mais devastadora de todas. As águas destruíram casebres e invadiram fábricas; alagaram os Correios e Telégrafos, o Mercado Público, a Prefeitura, o Cais do Porto, a Estação Ferroviária, o Aeroporto Municipal e a Usina do Gasômetro, deixando a cidade sem luz, bondes e comunicação. Escolas, cinemas e vagões de trem foram transformados em albergues. Barcos transportavam passageiros pelas ruas centrais em linhas regulares anunciadas pelo rádio, como se estivéssemos em Veneza. A enchente atingiu 4,76 metros de altura e alcançou a Rua da Praia, no coração da cidade, inundando cinemas, lojas bancos e cafés. Mais de 600 empresas demoraram meses para reabrir. Muitas não conseguiram.
Tragédia da Rua da Praia
O livro conta um episódio marcante em setembro de 1911. Nas palavras do autor: "Um audacioso assalto assombra Porto Alegre. Quatro estrangeiros misteriosos deixam um rastro de joias, dinheiro e sangue. Uma fuga alucinada pelas ruas do Centro da cidade. A pé, de carruagem, de bonde, na carroça do leiteiro. Gritos e correrias. A polícia no encalço dos quatro foragidos. Os jornalistas perseguem notícias. O pânico tumultua o cotidiano. Um problema para o governo. Um fôlego para a oposição. O crime vai para o centro da disputa política, para as discussões nos cafés. Competição de manchetes. Tropas em prontidão. Prisões em massa. Os anarquistas em alerta. Os judeus relembram pesadelos. História secretas vêm à tona. Cenas cinematográficas. Um filme sobre o crime é produzido em poucos dias. Metade natural, metade ficção."
* José Weis é jornalista, tendo escrito para diferentes veículos do Rio Grande do Sul e do Brasil.