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Cinema

- Publicada em 04 de Agosto de 2022 às 18:10

O prisioneiro

Hélio Nascimento
O neorrealismo italiano, surgido e desenvolvido após a Segunda Guerra Mundial, teve repercussão e influência em todo o mundo. No Brasil, Nelson Pereira dos Santos quando realizou Rio quarenta graus, em 1954, foi um dos tantos a demonstrar que a realidade cênica e a presença de personagens reais eram elementos que não poderiam estar ausentes, se o objetivo era criar um cinema afastado da mentira. Claro que tal escola teve seus antecedentes que podem ser identificados através de qualquer estudo, mesmo que não muito profundo, do desenvolvimento do cinema. Porém, foram realizadores como Rossellini, Visconti, De Sica e alguns mais que estruturaram os elementos que, com o passar do tempo, foram assimilados e até enriquecidos por realizadores dentro e fora da Itália. E sempre que se aborda tal tema, é importante ressaltar que filmes realizados antes do surgimento da célebre escola italiana e sempre cultuados pelas inovações que trouxeram, como Cidadão Kane, por exemplo, tinham como foco personagens reais, assim como aconteceria mais tarde quando surgiu Hiroshima, meu amor. Quando, décadas depois, começaram a aparecer nas telas de todo o mundo filmes assinados por cineastas iranianos, não deixou de ser uma surpresa verificar que as lições do neorrealismo, além de não terem sido esquecidas, receberam doses de enriquecimento. Num país vivendo sob um regime teocrático, os diretores tiveram que recorrer a recursos que, ao mesmo tempo em que os aproximavam da realidade, criavam elementos que permitiam expressar inquietações sem causar para eles qualquer problema, como, por exemplo, utilizar crianças para falar de inconformidade e rebeldia.

O neorrealismo italiano, surgido e desenvolvido após a Segunda Guerra Mundial, teve repercussão e influência em todo o mundo. No Brasil, Nelson Pereira dos Santos quando realizou Rio quarenta graus, em 1954, foi um dos tantos a demonstrar que a realidade cênica e a presença de personagens reais eram elementos que não poderiam estar ausentes, se o objetivo era criar um cinema afastado da mentira. Claro que tal escola teve seus antecedentes que podem ser identificados através de qualquer estudo, mesmo que não muito profundo, do desenvolvimento do cinema. Porém, foram realizadores como Rossellini, Visconti, De Sica e alguns mais que estruturaram os elementos que, com o passar do tempo, foram assimilados e até enriquecidos por realizadores dentro e fora da Itália. E sempre que se aborda tal tema, é importante ressaltar que filmes realizados antes do surgimento da célebre escola italiana e sempre cultuados pelas inovações que trouxeram, como Cidadão Kane, por exemplo, tinham como foco personagens reais, assim como aconteceria mais tarde quando surgiu Hiroshima, meu amor. Quando, décadas depois, começaram a aparecer nas telas de todo o mundo filmes assinados por cineastas iranianos, não deixou de ser uma surpresa verificar que as lições do neorrealismo, além de não terem sido esquecidas, receberam doses de enriquecimento. Num país vivendo sob um regime teocrático, os diretores tiveram que recorrer a recursos que, ao mesmo tempo em que os aproximavam da realidade, criavam elementos que permitiam expressar inquietações sem causar para eles qualquer problema, como, por exemplo, utilizar crianças para falar de inconformidade e rebeldia.

Asghar Farhadi, que já venceu festivais importantes e também recebeu o Oscar de filme internacional, depois de trabalhar no exterior volta ao Irã e mesmo enfrentando orientações que não podem ser desrespeitadas -e que têm causado problemas e prisões para alguns de seus colegas- realiza um filme admirável, este Um herói, no qual termina comunicando ao espectador os obstáculos que um diretor de cinema enfrenta em seu país. Assim, a paixão que une o personagem principal e a mulher que o aguarda quando aquele sai da prisão, é expressa apenas através de sorrisos, porque nos filmes iranianos é vetado o contato físico entre homem e mulher. E até o abraço entre o tio e a sobrinha ainda menina tem de ser apenas sugerido e encoberto por uma parede. Outra curiosidade: em casa as mulheres são dispensadas de usar o xador, mas num filme isso não é permitido, pois a atriz está diante de uma equipe de filmagem. A lei não é violada, nem agora, nem em outros filmes iranianos, mas Farhadi e seus colegas sabem desenvolver os temas abordados sem que as propostas sejam diluídas ou alteradas.

Um herói é um filme sobre ambiguidades e imperfeições. O título não deixa de ser irônico, pois o protagonista é, na verdade, um simpático e ingênuo personagem que altera seu caminho ao perceber que a quantia que espera conseguir, graças a um achado de sua companheira, não possui o valor desejado. Recua e assim passa a viver um drama inesperado, no qual indivíduos e instituições terminam envolvidos. Pensando em se transformar em figura de comportamento exemplar e até servir de modelo, ele termina sendo vítima de um movimento integrado por figuras que formam um conjunto de interesses diante do qual o destino do prisioneiro não tem qualquer valor. No protagonista o filme vê um homem castigado pelo sistema simbolizado num empregador arrogante e em instituições interessadas em sua imagem nas redes sociais. O devedor e o credor, por outro lado, expõem contradições e fazem com que a narrativa não separe criaturas com aquela linha que determina espaços opostos. O maniqueísmo está ausente de um filme que transforma o que parecia um presente divino num castigo, como se fosse constatada que a primeira opção revelou o transgressor a ser devidamente punido, o pecador merecedor de castigo. Esta forma e ver o mundo, além de ressaltar ambiguidades, é também valorizada por uma série de personagens secundários construídos com perfeição. E no painel assim erguido, pai e filho em busca da mulher desaparecida, lembram, sem dúvida, Ladrões de bicicletas, um dos marcos do neorrealismo.

 

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