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Entrevista especial

- Publicada em 10/10/2021 às 11h00min.

Reajuste salarial para professores é justo, diz secretária Raquel Teixeira

Secretária da Educação explica que governo está avaliando como viabilizar reposição sem comprometer finanças do RS

Secretária da Educação explica que governo está avaliando como viabilizar reposição sem comprometer finanças do RS


fotos: FELIPE DALLA VALLE/DIVULGAÇÃO/JC
Marcus Meneghetti
A secretária estadual da Educação, Raquel Teixeira (PSDB), considera justo um reajuste no salário dos professores gaúchos. Ela mesma intermediou a primeira reunião da categoria com o governo Eduardo Leite (PSDB) em setembro.
A secretária estadual da Educação, Raquel Teixeira (PSDB), considera justo um reajuste no salário dos professores gaúchos. Ela mesma intermediou a primeira reunião da categoria com o governo Eduardo Leite (PSDB) em setembro.
Diante do congelamento dos salários por sete anos, o que já desvalorizou em 47,8% os vencimentos dos profissionais da educação (segundo inflação medida pelo INPC), o Cpers Sindicato tem protestado todas as terças-feiras de manhã em frente ao Palácio Piratini, em uma tentativa de pressionar o governo a conceder alguma recomposição. Foi em uma dessas manifestações que Raquel Teixeira confirmou pessoalmente à presidente do sindicato, Helenir Schürer, a primeira reunião.
"Há uma comissão formada pela Secretaria da Fazenda, SPGG (Secretaria Estadual de Planejamento, governança e Gestão), gabinete do governador... O que posso dizer é que todos do governo reconhecem a pertinência e a justiça do aumento salarial. O que está sendo estudado é como isso pode ser feito."
Lastreada por um vasto currículo acadêmico, Raquel Teixeira analisa - com sua voz tranquila, explicações didáticas e sotaque goiano - as perdas educacionais causadas pelo período em que as escolas permaneceram fechadas. As principais preocupações estão relacionadas ao conteúdo que os alunos não aprenderam nas aulas virtuais e aos altos índices de evasão escolar (uma média de 28%).
Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, a secretária elogia o novo formato do Ensino Médio - que deve permitir que o aluno escolha as áreas do conhecimento do seu interesse. Conforme Raquel Teixeira, o Conselho Estadual de Educação deve analisar nesta semana o currículo apresentado pela pasta, podendo aprová-lo ou não. Pela lei federal, o Estado deve implementar já em 2022 o modelo, pelo menos, no primeiro ano do Ensino Médio.
Jornal do Comércio - O Cpers está em campanha por reajuste. A senhora apoia a reposição dos professores?
Raquel Teixeira - É claro que essa é uma questão complexa, que não é tratada só pela secretária da Educação. Há uma comissão formada pela Secretaria da Fazenda, SPGG, gabinete do governador... O que posso dizer é que todos do governo reconhecem a pertinência e a justiça do aumento salarial. O que está sendo estudado é como isso pode ser feito, sem inviabilizar a situação financeira do Estado e todas as outras áreas, após o esforço enorme que foi feito de ajuste fiscal. Então, é claro que, como professora, tendo em vista a situação, acho justo. Todo governo acha isso.
JC - Por conta da pandemia, as aulas presenciais foram suspensas em março de 2020 e retomadas em agosto desse ano. Como avalia esse período parado?
Raquel - O período em que as escolas permaneceram fechadas não foi um tempo parado para nenhum professor, para nenhum aluno. No Brasil inteiro, houve um esforço enorme de adaptação a um novo modelo de ensino remoto, que se impôs pelas condições da pandemia, para o qual ninguém estava preparado. O então secretário Faisal Karam (PSDB) fez um enorme esforço para a implantação da plataforma Classroom. As escolas fecharam em março de 2020 e, em julho, a plataforma virtual entrou em funcionamento. Foi oferecido um curso de letramento digital aos profissionais da educação, que foi feito por mais de 20 mil professores em 2020. Isso permitiu que as aulas remotas acontecessem. Os professores fizeram um trabalho gigantesco de superação. De repente, tiveram que transformar suas casas em salas de aula, tiveram que conviver com o desafio de cuidar dos próprios filhos em casa, ao mesmo tempo que preparavam material para seus alunos.
JC - O que preocupa a secretaria quanto a esse tempo dos alunos fora da escola?
Raquel - No mundo todo, está provado que quanto mais tempo os alunos permanecem longe das salas de aula, mais eles perdem os vínculos com as escolas. E mais difícil é o retorno. É exatamente isso que aconteceu no Brasil. No Rio Grande do Sul, o longo período de fechamento também tem dificultado esse retorno. Por mais que tenha havido um esforço dos professores, das famílias, das escolas e do sistema de gestão, sabemos que as perdas são inestimáveis.
JC - Que tipo de perdas?
Raquel - Fizemos uma avaliação diagnóstica no final de maio e início de junho. O primeiro objetivo era consultar as escolas para ver sinais de evasão. A ideia era saber onde esses alunos estavam, visto que estavam matriculados, mas não havia registro de frequência, muito menos reprovação por insuficiência de conhecimento. Em média, tivemos uma participação de 72% dos alunos esperados (ou seja, uma estimativa de 28% de evasão). Mas, quando fazemos o recorte por etapa de escolaridade, a participação dos alunos de Ensino Médio ficou em torno de 50% (de evasão). Houve regiões que tivemos até 90% de participação dos alunos de Ensino Fundamental, mas apenas 30% de participação de Ensino Médio.
JC - Houve perdas no aprendizado?
Raquel - O segundo objetivo da avaliação diagnóstica era ter uma noção das habilidades que os alunos não aprenderam (no período de aulas remotas). Ao longo do ensino, existem conteúdos determinantes para o aprendizado que vem em seguida. Se o aluno não aprende isso, dificilmente conseguirá aprender coisas futuras, porque dependem daquele conhecimento anterior. A partir disso, preparamos uma intervenção pedagógica. Hoje, em todas as salas de aula do Rio Grande do Sul, do segundo ano do Ensino Fundamental até o terceiro ano do Ensino Médio, as turmas são divididas em grupos de alunos que tiveram baixo, médio e alto desempenho nas avaliações das habilidades estruturantes. Elaboramos um material pedagógico específico para o professor e outro para o aluno, reforçando essas habilidades não aprendidas na pandemia. Em agosto, começamos a formação específica dos professores para essa tarefa.
JC - Para recuperar esse aprendizado, será necessário ampliar a carga horária dos alunos?
Raquel - A partir de agosto, introduzimos duas horas semanais a mais de língua portuguesa e três horas a mais de matemática. Isso resultou na demanda de quase 4 mil novos professores para darem essas aulas extras. Essas aulas puderam ser acomodadas no currículo normal, sem precisar de sábado, domingo ou férias. Afinal, há mais ou menos dois anos, o Rio Grande do Sul igualou a hora-aula, que no resto do Brasil é de 50 minutos, à hora-relógio. Ou seja, tem 60 minutos. Isso permitiu que voltássemos para hora-aula de 50 minutos. Com os 10 minutos economizados (em cada hora-aula), sobrou o tempo necessário para aumentar a língua portuguesa e matemática.
JC - Há professores suficientes para isso?
Raquel - Tem. Em um ou outro lugar, ainda está faltando. Em alguns locais, cogitamos recorrer às universidades, porque a lei permite que o aluno universitário que está no sexto semestre de licenciatura atue na sala de aula, na ausência de professores formados. Mas ainda não precisamos disso. Já temos um banco de estudantes no último ano, caso a gente necessite. Na medida do possível, estamos conseguindo. Esse processo começou recentemente, no dia 23 de agosto. Então, faz um mês que estamos trabalhando nessa implementação, que é grande e complexa, e ainda está em andamento. Mas já temos mais de 3 mil professores novos contratados.
JC - Alguns especialistas dizem que o ensino híbrido será uma realidade de agora em diante. A senhora concorda?
Raquel - Com certeza. Isso já acontece no mundo todo. E não por causa da pandemia. Aqui no Brasil, o ensino híbrido chegaria mais cedo ou mais tarde. Talvez (com a pandemia) isso tenha se antecipado em 10 anos. O ensino híbrido permite o melhor do mundo virtual e do presencial. Está provado que, principalmente na educação infantil e fundamental, a presença (do professor, colegas etc) é absolutamente essencial. Tanto que (durante o período que as escolas ficaram fechadas) os maiores prejudicados na aprendizagem foram as crianças que estavam sendo alfabetizadas. Essa etapa demanda professores presentes, conivência etc. Educação é mais do que escolarização: além do desenvolvimento intelectual, a escola providencia desenvolvimento cultural, social, psicológico, físico, espiritual. E a escola é o espaço para essa formação. A pandemia provou que ninguém substitui esse espaço. Ela colocou a tecnologia no devido espaço.
JC - Muitos professores temiam que o ensino virtual substituísse o presencial?
Raquel - Muita gente - até os professores - tinha uma certa resistência à tecnologia. Primeiro, porque não sabia lidar com algumas ferramentas tecnológicas. Também havia um pouco de medo de que a tecnologia substituísse o lugar deles na escola. E também tinha um pouco de vergonha, porque, muitas vezes, os alunos entendiam mais do que o professor de tecnologia. A pandemia tratou de cuidar disso. Hoje o professor reconhece que o aluno sabe mais do que ele (sobre tecnologia), até porque envolve uma questão geracional. Mas a tecnologia é uma ferramenta, que pode e deve ser um poderoso instrumento de melhoria da educação. Nada substitui a inteligência do processo de ensino, nada substitui a inteligência do professor, conduzindo o processo de aprendizagem. Então, a educação híbrida vem otimizar o aprendizado. Isso facilita alguns formatos de ensino...
JC - Por exemplo?
Raquel - Por exemplo, os projetos de educação através de problemas. O aluno recebe um vídeo, um texto. Ele faz virtualmente um estudo prévio sobre o assunto que vai ser tratado na aula. Com isso, o professor aproveita o tempo presencial para formar grupos, dar tarefas, definir projetos (sobre o tema pesquisado). A educação colaborativa vai ser a tônica, porque está provado que a gente aprende muito melhor com as chamadas metodologias ativas. As metodologias ativas são aquelas que o cérebro do aluno está ativo na condução do processo, muito diferente da metodologia passiva, em que o professor dá uma aula expositiva (e o aluno ouve passivamente).
JC - O novo Ensino Médio deve começar a ser implantado em 2022. Como está o processo?
Raquel - O processo de implementação do Ensino Médio aconteceu, de forma experimental, em algumas escolas no Rio Grande do Sul. O Conselho Estadual de Educação deve fazer a última análise do currículo nessa semana, podendo aprová-lo ou não. Só a partir da avaliação do conselho é que poderemos considerar a implementação, de acordo com a reforma (da educação) de 2019.
JC - Como funcionará o novo Ensino Médio?
Raquel - Pela reforma, o primeiro ano é o que a gente chama de formação geral básica. Nessa etapa, o aluno tem as disciplinas normais de formação geral: língua portuguesa, matemática, inglês, artes, tudo, além de um trabalho muito importante chamado de projeto de vida. Trata-se de uma disciplina em que o professor, devidamente orientado e capacitado, faz uma análise com o aluno sobre o mundo contemporâneo: o que é o mundo laboral, qual o projeto de vida do estudante, o que o aluno pretende... A ideia é que ele comece a pensar, de forma intencional, o que quer para sua vida.
JC - Nos anos seguintes, o aluno seria direcionado para a área do seu interesse...
Raquel - No segundo ano, depois que o aluno já tem um projeto de vida muito forte, ele vai começar a estudar por itinerários formativos específicos. As disciplinas passam a ser agrupadas por áreas de conhecimento. Há cinco itinerários possíveis a partir do segundo ano: matemática e suas tecnologias; linguagens e suas tecnologias; ciências da natureza e suas tecnologias; ciências sociais e suas tecnologias; e educação profissional técnica. Esse quinto itinerário passa a ser parte integrante do Ensino Médio a partir do segundo ano. A formação geral básica vai diminuindo no segundo ano, ao mesmo tempo que a carga dos itinerários vai aumentando, até chegar ao terceiro ano praticamente só nos itinerários específicos (escolhidos pelo projeto de vida dos alunos).
JC - A senhora avalia positivamente esse novo formato?
Raquel - A educação ganha muito. No mundo inteiro, já é assim. Em 1965, quando fiz meu último ano de highschool nos EUA, já era assim. Então, teremos que caminhar para uma mudança que está longe de ser concretizada, que é a escola em tempo integral e a escola flexibilizada com itinerários formativos diferentes, dependendo do interesse dos alunos. Nas escolas piloto, em cinco estados do Brasil, onde os alunos se formaram nesse novo modelo, ninguém quer voltar ao que era, nem os alunos, nem os professores. A partir disso, caminhamos para uma escola em tempo integral.

Perfil

Nascida em Goiânia em 24 de novembro de 1946, Raquel Figueiredo Alessandri Teixeira fez o Ensino Básico na sua cidade natal, com exceção do último ano - que foi concluído no estado do Maine, nos EUA. Nos anos 1970, graduou-se em Letras na Universidade de Brasília (UnB). No mesmo ano, passou em um concurso para dar aula na UnB e, enquanto coordenava o programa de Língua Inglesa, fez o primeiro mestrado. Entre 1980 e 1985, viveu em Berkeley, na California, onde concluiu outro mestrado e um PhD em Linguística. Ao voltar ao Brasil, no final dos anos 1980, passou a dar aulas na Universidade Federal de Goiânia. Entre 1999 e 2001, assumiu a Secretaria Estadual da Educação de Goiás, no primeiro dos quatro mandatos do ex-governador Marconi Perillo (PSDB, 1999-2006 e 2011-2018). Em 2001, filiou-se ao PSDB e, no ano seguinte, elegeu-se deputada federal. Em 2006, foi reeleita. Nos dois últimos mandatos de Perillo, se licenciou da Câmara dos Deputados para assumir as pastas de Cidadania; de Ciência e Tecnologia; e de Educação. Em março de 2021, assumiu a secretaria da Educação do Rio Grande do Sul.

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