Porto Alegre, terça-feira, 28 de julho de 2020.
Dia do Agricultor .

Jornal do Comércio

Porto Alegre,
terça-feira, 28 de julho de 2020.
Corrigir texto

Se você encontrou algum erro nesta notícia, por favor preencha o formulário abaixo e clique em enviar. Este formulário destina-se somente à comunicação de erros.

15 anos sem brizola

- Publicada em 21h41min, 26/06/2019. Atualizada em 21h41min, 26/06/2019.

Único brasileiro que governou dois estados

O Jornal do Comércio republica hoje o quarto e último artigo da série sobre Leonel Brizola, para marcar os 15 anos da morte do ex-governador, em 21 de junho de 2004. Os textos foram escritos, na época, pelo então editor de Política do JC, Carlos Bastos.
O Jornal do Comércio republica hoje o quarto e último artigo da série sobre Leonel Brizola, para marcar os 15 anos da morte do ex-governador, em 21 de junho de 2004. Os textos foram escritos, na época, pelo então editor de Política do JC, Carlos Bastos.
O menino pobre da Carazinho, onde foi engraxate e carregou malas na Estação Rodoviária, chegou a Porto Alegre, foi trabalhar com ascensorista na Galeria Chaves e estudar no Colégio Agrícola de Viamão. Ainda como estudante iniciou sua carreira política, ingressando na Ala Moça do PTB, começaria se elegendo deputado estadual e, depois de ser deputado federal e prefeito de Porto Alegre, se elegeu em 1958 para o governo do Rio Grande do Sul, e duas vezes ocupou o governo do Rio de Janeiro. Para quem acompanhou toda a carreira de Leonel Brizola, como este colunista, o feito mais brilhante de sua trajetória foi, sem sombra de dúvida, o episódio da Legalidade, em 1961, quando ele ocupava o governo gaúcho e, graças ao seu movimento de resistência, garantiu a posse do vice João Goulart na presidência da República, que sofria restrições dos ministros militares com a renúncia do presidente Jânio Quadros.
Naquele episódio, Brizola levantou o povo gaúcho em defesa do cumprimento da Constituição através da Rede da Legalidade. Os fatos se desdobraram com uma rapidez impressionante, e ao anunciar de forma patética pelo rádio que havia uma ordem de Brasília, dos ministros militares, para que o Palácio Piratini fosse bombardeado. Os aviões da FAB que estavam na Base Aérea de Canoas foram impedidos de levantar voo por uma rebeldia dos sargentos. E o pronunciamento de Brizola juntou uma verdadeira multidão defronte ao Palácio. Horas depois o comandante do III Exército, general Machado Lopes, chegou ao gabinete do governador e trouxe a solidariedade de seus comandados ao movimento em defesa da Legalidade. Jango, que estava em viagem pela China, chegou ao País por Porto Alegre, foi a Brasília e assumiu a Presidência da República, num regime parlamentarista imposto pelos ministros militares. Brizola discordou da decisão e a partir daí sempre manteve divergências com seu cunhado. Mesmo no governo de Jango, embora fosse solidário às chamadas reformas de base, Brizola entendeu que seu correligionário tomou decisões equivocadas no comando da Nação.
Estas divergências permaneceriam depois do golpe de 1964, quando Jango foi derrubado pelo golpe militar e preferiu evitar o derramamento de sangue, enquanto Leonel Brizola defendia a tese da resistência ao golpe.
Depois de 20 anos de exílio, Brizola voltou ao Brasil para fundar novamente o velho PTB, mas num esquema cartorial comandado por Golbery do Couto e Silva, o governo militar conseguiu levar a sigla para Ivete Vargas. Então, Brizola proporcionou uma cena dramática na televisão, rasgando a sigla PTB e criando o PDT, através do qual se elegeu duas vezes governador do Rio de Janeiro. Ressalte-se que nas eleições de 1962, dois anos antes do golpe militar de 64, Brizola elegeu-se deputado federal pelo Rio de Janeiro com cerca de 250 mil votos, um quarto do eleitorado daquele Estado, que naquela oportunidade era de um milhão de eleitores.
Mas Brizola morreu fazendo o que mais amava, política. Com 82 anos, sofreu o infarto no pleno exercício da presidência nacional do PDT. A sua grande marca, no entanto, como homem público, foi a incansável determinação pela educação. Como governador do Rio Grande do Sul ele construiu seis mil escolas por todos os recantos do Estado. Como governador do Rio de Janeiro, juntamente com Darcy Ribeiro ele criou os Cieps, as escolas de tempo integral, única solução para se tirar as crianças e os jovens da marginalidade.
Quem acompanhou toda a carreira de Brizola sabe que sua obstinação pela educação estava ligada à sua própria história, de menino pobre em Carazinho, para a realização do curso agrícola em Viamão, e depois se formar em engenharia pela Ufrgs, já então no exercido da deputação estadual. Quem conheceu Brizola e acompanhou sua trajetória política pode garantir que, de todas as suas grandes realizações, de todos os seus projetos e sonhos, o seu maior galardão político foi a vitória do movimento da Legalidade, em 1961. Quem viveu aqueles momentos épicos sabe da capacidade de liderança deste homem incomum, e só lhe resta ser brizolista para sempre. Ele se inseriu na história do Brasil como um defensor dos oprimidos, dos desassistidos e dos necessitados. A elite sempre teve resistências a Brizola.
Comentários CORRIGIR TEXTO