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Porto Alegre, quinta-feira, 06 de maio de 2021.
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Opinião

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- Publicada em 15h48min, 06/05/2021.

Ame como uma mãe

Ana Nejar
Na época em que a mãe estava viva, a cada final de abril, a pergunta que transitava pela casa era: o que tu queres no Dia das Mães? A resposta se repetia ano a ano: nada, um abraço é suficiente.
Na época em que a mãe estava viva, a cada final de abril, a pergunta que transitava pela casa era: o que tu queres no Dia das Mães? A resposta se repetia ano a ano: nada, um abraço é suficiente.
Sempre duvidei daquele despojamento materno, porque, invariavelmente, em algum momento de retaliação, viria o rebote, a possibilidade de cobrança por ter sido relapsa.
Apelar para a lembrancinha era mais prudente, afinal, o temor de ter a perda do amor materno era às vezes maior que o próprio amor.
E tingíamos tecidos, colávamos folhas, macarrão, criávamos cartões e potes coloridos, repletos de corações, tinta guache e mãos enfileirando as folhas brancas, frases compondo o papel pardo, mamãe, te amo, alegorias que se avolumam no fundo dos armários.
Agora há um novo ambiente, uma demanda extenuante para quem precisa conciliar pandemia, crise econômica e social, rotina de trabalho entre a pia cheia e o apelo pelo colo. O verbo materno hoje é conciliar. Sem desmerecer o investimento, quiçá mascarar o sofrimento.
Conciliar como quem costura os retalhos para estender na cama do filho antes do beijo na testa, antes da leitura de uma história fantástica, antes do apagar das luzes, como carga antiga de afeto emergindo quando a sombra é maior. Antes. Outro verbo materno: antecipar.
Passo a mão pelas costuras da pele, os vincos, não mais a textura viçosa da época de filha, agora a pele é o próprio retalho, enfileirando memórias da mãe que tive e da mãe que sou. Ambas se misturam, se colocam em xeque, elevam a culpa e se perguntam o que mais poderíamos ter feito por esse amor?
Quantas histórias fantásticas poderíamos ter lido juntas ou quantos beijos na testa acumulamos em duas décadas sob o mesmo teto?
Percebo na falta do outro corpo a insuficiência da minha própria maternidade. Estar distante, estar apartado pela pandemia, pelo temor de contágio, reforça o desejo mais sincero de presente neste Dia das Mães, um abraço.
No calor do enlace do filho, a capacidade de recarregar o ânimo, relevar o fastio e pendurar o riso no rosto como quem pendura o desenho escolar do rebento na porta da geladeira. Conciliar, antecipar, ser mãe em um abraço: amar é isso.
Jornalista
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