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Porto Alegre, sexta-feira, 29 de janeiro de 2021.

Jornal do Comércio

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Opinião

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- Publicada em 15h28min, 29/01/2021.

O muro antifascista

Fernando Malheiros Filho
Ele nasceu a tempo de ouvir o troar da pesada artilharia soviética que cercava sua Berlim natal. Provavelmente teve agredidos seus ouvidos infantis, e aterrorizada a alma de criança, quando, com pouco mais de um ano, testemunhou o armagedon militar que deu fim ao Regime Nazista, no final das hostilidades, em abril de 1945.
Ele nasceu a tempo de ouvir o troar da pesada artilharia soviética que cercava sua Berlim natal. Provavelmente teve agredidos seus ouvidos infantis, e aterrorizada a alma de criança, quando, com pouco mais de um ano, testemunhou o armagedon militar que deu fim ao Regime Nazista, no final das hostilidades, em abril de 1945.
Nascido a 14 de janeiro de 1944, foi batizado Peter Fechter, sofrendo as indizíveis agruras da ocupação estrangeira e cerceamento de liberdade com a anulação das melhores expectativas para o futuro.
Isso não bastasse, atônitos com o êxodo de cidadãos descontentes com a opressiva vida no lado oriental da Alemanha, as autoridades comunistas da RDA (em alemão: Deutsche Demokratische Republik, cinicamente com democracia no nome), a 13 de agosto de 1961, decidiram erguer o muro que separaria a cidade em dois blocos. O distrito de Peter, Weißensee, desgraçadamente ficou no lado oriental, garantia de eterna prisão aos cidadãos circunscritos àquela limitada geografia.
O muro odioso separou mais do que a cidade e seus logradouros, mas amigos, famílias, relações amorosas, sem contar o amargo gosto do aprisionamento. Com esse destino, Peter Fechter não haveria de se conformar. Passado mais de um ano desde que a sufocante edificação passou a se impor à tristonha paisagem, o rapaz intimorato não pensava senão na forma e na rota da fuga. Não lhe passava pela cabeça senão ganhar a liberdade e estar com os demais dos seus, como aqueles que, antes da edificação, transpuseram a tênue fronteira entre a liberdade e a opressão.
A transposição do escuro paredão ficou marcada para o dia 17 de agosto de 1962. Acompanhado de um amigo, Helmut Kulbeik, nosso personagem deu início ao roteiro previamente estabelecido. O plano consistia em se esconder nas cercanias do muro, na Zimmerstrasse, para, à observação dos guardas e ao descuido desses vencer a "faixa da morte" e escalar o obstáculo de dois metros no distrito de Kreuzberg, em Berlim Ocidental, perto do Checkpoint Charlie. Com êxito em alcançar a plena liberdade, Helmut Kulbeik venceu o cinzento obstáculo. A mesma sorte não sorriu ao jovem Peter: quando já iniciava a escalada foi atingido pelas costas. A pesada munição das armas de guerra perfurou o delgado corpo de nosso jovem, com os projéteis saindo pela pélvis. O ferimento não era imediatamente mortal, mas o suficiente para prostrar o ferido, que se deixou cair, sangrando abundantemente, emitindo os urros próprios à dor lancinante de tão grave ferimento. Perplexos, os ocidentais que assistiam àquele holocausto não ousaram dar assistência ao moribundo, certamente teriam o mesmo destino. Os guardas orientais tinham ordem de, naqueles casos, deixar que o ferido agonizasse até a morte. Serviria de exemplo.
Naquele mesmo dia Peter Fechter foi-se. Deixou neste mundo o legado de amor à liberdade e da coragem daqueles que ousam desafiar a opressão.
A propósito: a horrenda obstrução, em seu tempo, foi batizada pelo governo comunista da Alemanha Oriental como “Muro de Proteção Antifascista” (Antifaschistischer Schutzwall).
Advogado
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