Corrigir texto

Se você encontrou algum erro nesta notícia, por favor preencha o formulário abaixo e clique em enviar. Este formulário destina-se somente à comunicação de erros.

Porto Alegre, segunda-feira, 14 de setembro de 2020.
Aniversário da cidade de Viamão.

Jornal do Comércio

Porto Alegre,
segunda-feira, 14 de setembro de 2020.

Opinião

Compartilhar

artigo

- Publicada em 03h00min, 14/09/2020.

Faltam lágrimas e sobra indiferença

Amarildo Cenci
Ao norte de Angola, próximo da província de Cabinda, avista-se as belas praias de Malembo. No alto do morro que dá acesso ao mar, uma placa cravada em um imponente embondeiro traz a inscrição: "lugar de concentração de escravo de Chinfuca". Esse antigo entreposto une a África ao Brasil em algo abominável. Por lá, milhares de africanos foram capturados e desterrados para nunca mais retornarem. Estima-se que 5 milhões de seres humanos foram traficados em navios negreiros para o Brasil.
Ao norte de Angola, próximo da província de Cabinda, avista-se as belas praias de Malembo. No alto do morro que dá acesso ao mar, uma placa cravada em um imponente embondeiro traz a inscrição: "lugar de concentração de escravo de Chinfuca". Esse antigo entreposto une a África ao Brasil em algo abominável. Por lá, milhares de africanos foram capturados e desterrados para nunca mais retornarem. Estima-se que 5 milhões de seres humanos foram traficados em navios negreiros para o Brasil.
No trajeto, o sangue daqueles que não resistiram a tamanha dor e maus tratos tingiu o mar de vermelho. Por três séculos, tumbeiros imundos e infectos saciaram a fome de cardumes de tubarões com carne humana sem vida atirada ao mar. Diante de tanto horror, o grande poeta Castro Alves perguntou em versos no poema Navio Negreiro: "Ó mar, por que não apagas com esponjas de tuas vagas do teu manto esse borrão?" Esse desapreço com a vida, essa falta de lágrimas com a dor do próximo e esse desinteresse com o luto alheio possuem raízes profundas. Estão no berço que embalou o surgimento do nosso país. Estão nas senzalas que ainda formam essa nação. Por séculos, fomos levados a naturalizar o açoite e a conviver com a desigualdade. Só apagaremos esse borrão quando realmente formos capazes de enfrentar os horrores das nossas desigualdades.
O capitão presidente nega a pandemia e manda vibrar rígido o chicote, retirando direitos e avançando loucamente na direção do passado. Governadores e prefeitos prostram-se frente às pressões do poder econômico. Zombando da morte, certos empregadores abrem as portas de seus negócios sem protocolos rígidos de segurança. Hospitais abarrotados e submetidos ao trabalho traumatizado negam aos profissionais da saúde a testagem e economizam com equipamentos de segurança. Caminhamos aceleradamente para os 150 mil mortos pela Covid-19.
Transformamos a morte em mero dado estatístico. O contágio rapidamente saiu dos aeroportos e se espalha pelo interior e vilas empobrecidas. Será que a pandemia nos tornará ainda mais insensíveis com a morte dos mais pobres e excluídos?
Em meio a esse pesadelo de proporção dantesca, pergunto com as palavras de Castro Alves: até quando emprestaremos as cores da nossa bandeira para encobrir tanta infâmia e covardia?
Professor e presidente da CUT-RS
Comentários CORRIGIR TEXTO