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Porto Alegre, sexta-feira, 26 de julho de 2019.
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Jornal do Comércio

Opinião

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26/07/2019 - 15h42min. Alterada em 26/07 às 17h17min

Surto de curtidas

Camila Mozzini-Alister
Enfim algum limite. Um limite que soa estranho: como assim a rede social que sintetiza o auge da ostentação na busca por visibilidade deu para trás? Desde o dia 17 de julho os algoritmos da interface do Instagram não mais mostram publicamente o número de curtidas de outros usuários. A partir de agora, só o próprio usuário pode ver a quantificação dos likes e corações em cliques. Para muitos, um alívio. Para outros, uma facada pelas costas, principalmente aos que utilizam a plataforma para ganhar o pão de cada dia.
Enfim algum limite. Um limite que soa estranho: como assim a rede social que sintetiza o auge da ostentação na busca por visibilidade deu para trás? Desde o dia 17 de julho os algoritmos da interface do Instagram não mais mostram publicamente o número de curtidas de outros usuários. A partir de agora, só o próprio usuário pode ver a quantificação dos likes e corações em cliques. Para muitos, um alívio. Para outros, uma facada pelas costas, principalmente aos que utilizam a plataforma para ganhar o pão de cada dia.
Mas qual o real impacto de tal medida em meio ao reinado de influenciadores e blogueiros? Primeiro vamos dimensionar o episódio. Já imaginou se o Facebook finalmente inserisse o botão “não curtir” com o dedo para baixo como possível emoji? A primeira resposta que pode vir à mente é um retumbante “nunca, jamais isso aconteceria”. Pois bem, quem algum dia vislumbrou que o Instagram poderia cortar a farra de venda de curtidas e desbancar o comércio de likes? Nunca também? Não mais. Ainda que sob o estatuto de teste e por tempo indeterminado, esta impensável medida já vem causando desespero entre usuários ao ponto de tirarem um print da própria tela para coletivamente dedurar seus likes.
E por que é tão desesperador retirar tal função do menu de interações da plataforma? A resposta é simples: porque mexe no bolso. Curtidas acumuladas revertem em cifras de capital social, um nova moeda tão valiosa quanto cédulas físicas de dinheiro. Muitos são os estudos que abordam como nossas redes de contato virtuais hoje atuam enquanto redutos de construção de capital humano, capital energético e status social. Quando se adiciona um amigo, quando se comenta em uma postagem, quando se publica o melhor ângulo de si, tudo isso funciona enquanto a nova moeda de troca de influência e credibilidade. Por este motivo tirar a ferramenta de quantificação de curtidas pode causar um verdadeiro furor.
Se há muito o filósofo René Descartes lançou a máxima cartesiana de que “penso, logo existo” enquanto parâmetro de realidade, hoje tal expressão se traduziria em “posto, logo existo”. E em um mundo de trabalho imaterial e compartilhamento em rede, as trocas financeiras hoje se entranham na forma como mostramos/montamos o viver ao ponto de converter nossa presença virtual em um artigo tão vital quanto a própria vida. Não me perguntem se isso é bom ou mau, mas a verdade é que cada vez mais vivemos pela, e para, a rede. E quando uma rede social tal qual o Instagram coloca limites no que, em princípio, apenas promete o ilimitado só pode dar nisso: uma onda de surtados.
Jornalista e doutora em Comunicação e Artes
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