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TRABALHO Notícia da edição impressa de 03/06/2020. Alterada em 03/06 às 14h03min

Cidades do Interior do RS têm cenário histórico de demissões por conta da pandemia

De 13 municípios pesquisados pela UCS, oito deles, incluindo Caxias, registraram o pior quadro em 16 anos

De 13 municípios pesquisados pela UCS, oito deles, incluindo Caxias, registraram o pior quadro em 16 anos


MARCOPOLO/DIVULGAÇÃO/cidades
João Dienstmann
A falta de uma perspectiva para o fim da pandemia do novo coronavírus traz um cenário de incerteza para todos os setores da economia. A espera, principalmente pela cura, é também a chance de se observar a retomada de números alarmantes que começam a surgir. Nesta semana, o Observatório do Trabalho da Universidade de Caxias do Sul (UCS) divulgou um estudo em que apresenta a evolução do mercado formal em 13 cidades do interior gaúcho, entre janeiro e abril deste ano. Se, por um lado, a perspectiva era de crescimento no número de admissões frente ao de demissões nos meses de janeiro e fevereiro, na maioria dos municípios, a tendência começou a se reverter em março, com o fechamento dos segmentos econômicos por conta da Covid-19.
O resultado disso é que oito cidades (Bento Gonçalves, Canela, Caxias do Sul, Farroupilha, Flores da Cunha, Guaporé, Nova Prata e São Sebastião do Caí) apresentaram, em abril, o pior desempenho da história do estudo, iniciado em 2008. Nunca se teve tamanho tombo em número de postos de trabalho formais fechados como no quarto mês de 2020 - nem mesmo durante outras crises econômicas, como em 2009 e o período entre 2015 e 2016. Apenas Carlos Barbosa, influenciada por um ótimo desempenho no primeiro trimestre, com forte índice de contratações, sobretudo na área industrial, e Vacaria, por conta da sazonalidade do início do ano, que é período de colheita na cidade, tiveram mais contratações do que desligamentos, conforme apontou o estudo. No acumulado, foram 4,8 mil vagas fechadas desde o início do ano nesses municípios.
A professora de Economia da UCS e coordenadora da pesquisa, Lodonha Maria Portela, vai mais além. Desde 2004, quando o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) começou a fornecer os dados sobre o balanço do emprego no Brasil, jamais houve um mês, em 16 anos, com tamanho número de desligamentos como o registrado na pesquisa nessas cidades. Ela se disse surpresa ao perceber o tamanho da queda registrada nos 13 municípios abrangidos pela pesquisa - além dos já citados, somam-se Torres e Veranópolis - e ressaltou a situação de Caxias do Sul, onde o estoque de empregos chegou a 147,5 mil em abril.
Para ela, a cidade, que já vinha sofrendo com demissões na indústria, sofreu um novo impacto, agora na área de comércio e serviços. "O setor industrial perdeu cerca de 10% dos trabalhadores, que migraram para outras atividades, pois não havia perspectiva de retomada do setor na cidade. Com o fechamento, em março, houve uma nova leva de demissões, justamente nas lojas e setores como hotéis e turismo, por exemplo", analisa.
O município teve 5,1 mil postos de trabalhos fechados entre janeiro e abril deste ano. Desse montante, 2,1 mil foram em comércio e serviços. Ambos os setores são mais impactados em cidades com maior potencial turístico, conforme observado no estudo. Torres, no Litoral Norte, amargou forte queda desde fevereiro, com o fim do veraneio. Já Canela, Farroupilha e Flores da Cunha, cujo calendário festivo começa a se aquecer com a chegada do frio, também viram as demissões evoluírem, uma vez que os eventos foram adiados ou cancelados.
Para Portela, as cidades que têm como principal forma de trabalho o comércio e os serviços vão ter "grande dificuldade" nos próximos meses. Ela salienta que os hábitos de consumo mudaram e devem seguir assim até que haja uma retomada concreta da confiança do consumidor. "Notamos a evolução do e-commerce, usado como salvação para pequenos empresários. Além disso, sabemos que quando se demitem 10, apenas cinco ou seis serão recontratados, isso se houver reaquecimento", avalia. Para serviços de todos os tipos, ela prevê que uma retomada esteja diretamente ligada à evolução da capacidade de tratamento da Covid-19. "Quanto mais próximos estivermos de um remédio ou de uma vacina para doença, maior será o otimismo. Saúde e economia estão diretamente ligados", afirma a coordenadora.

"Pico" de desligamentos na pandemia já passou, mas números positivos só devem ser vistos novamente em 2021

Assim como na Covid-19, em que é projetado um pico de contágio da doença nos países, a curva ascendente também é aplicada na questão dos empregos. Na avaliação de Lodonha Maria Portela, levando em conta o estudo feito pela UCS sobre o mercado de trabalho formal, esse máximo foi atingido em abril. No entanto, a proporção de desligamentos em relação às contratações deve seguir alta por mais alguns meses.

Nos próximos dias, a instituição deve receber os dados referentes a maio, mas a coordenadora já prevê um resultado semelhante ao de março, quando a pandemia atingiu a economia. "Ainda estamos esperando os números oficiais, mas sabemos que o mês passado deve manter a tendência. Em junho, teremos um momento importante, que é a volta de trabalhadores com os contratos suspensos ou com a jornada reduzida. Será importante analisarmos isso", comenta.

Todavia, o cenário de retomada visto no fim de 2019 e nos primeiros dois meses deste ano só deve ser reproduzido - ainda que sem a mesma velocidade - no ano que vem, se o cenário atual for mantido, conforme Portela. Ela salienta, ainda, que essa volta depende muito do cenário político atual que, no entendimento dela, desfavorece as previsões, pelo fato do governo federal tomar um caminho diferente daquele de estados e municípios.

A coordenadora entende que setores ligados aos segmentos considerados essenciais na pandemia, como supermercados e farmácias, podem ajudar a reduzir o impacto. "A cadeia de alimentação é muito grande. Desde o produtor, as indústrias, o transporte e até chegar aos mercados tem muita gente envolvida. Medicamentos da mesma forma. Eles podem trazer um alento neste momento", afirma.

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