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Notícia da edição impressa de 12/03/2019. Alterada em 12/03 às 01h00min

CANOAS: Cidade é a primeira do Estado a incluir Libras em currículo escolar

Município conta com escola bilíngue, exclusiva para alunos não-ouvintes

Município conta com escola bilíngue, exclusiva para alunos não-ouvintes


DERLI COLOMO JÚNIOR/DIVULGAÇÃO/CIDADES

Canoas é a única cidade do Rio Grande do Sul que possui um currículo específico para a Língua Brasileira de Sinais (Libras). Elaboradas ao longo do ano passado, as competências e habilidades estão descritas no Referencial Curricular de Canoas, documento aprovado no final de 2018 pelo Conselho Municipal de Educação.

O município, inclusive, foi um dos primeiros do Estado a finalizar o documento, que serve de referência para os professores da rede pública. A implementação da nova base curricular ocorre a partir de 2020.

Liderada pela equipe diretiva e professores da Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Bilíngue Vitória, a construção do conteúdo de Libras é um reconhecimento da instituição de ensino como uma escola sinalizadora. No local, que atende a uma média de 40 alunos, as disciplinas tradicionais são ensinadas em duas línguas: Libras e Português. As duas disciplinas, inclusive, têm a mesma carga horária de ensino - são três períodos semanais para cada conteúdo.

"A Emef Vitória é uma escola que faz um trabalho diferenciado, é uma exceção dentro da rede pública de ensino em Canoas e no Rio Grande do Sul. A escola é um universo que respira a comunicação de sinais, pensada exclusivamente para o desenvolvimento pedagógico das crianças e adolescentes surdos", diz a secretária da Educação de Canoas, Neka Escobar. A Emef Vitória é uma das poucos instituições de ensino bilíngue no Estado, ao lado da Salomão Watnick, de Porto Alegre, e da Carmem Regina Teixeira Baldino, de Pelotas.

Currículo que vai além da linguística

Nas séries iniciais (de 1ª a 4ª série), o objetivo do currículo é tornar as crianças fluentes em Libras. A intenção é fazê-los atingir um bom nível de comunicação clara - sem abrir mão, em nenhum momento, da prática lúdica dentro das atividades pedagógicas. Ainda na primeira fase de ensino, o referencial traz aspectos da cultura surda como elemento de aprendizado. Na sala de aula, os pequenos estudantes são provocados a refletir sobre temas como o reconhecimento às particularidades da cultura surda.

Considerada uma fase de transição, a 5ª série recebeu uma descrição à parte dentro do documento. De acordo com Lucimeri Piachiski, diretora da Emef Vitória, este período escolar demanda um trabalho diferenciado. "Além da gramática e da semiótica, que já são abordados desde as Séries Iniciais, os alunos da 5ª série iniciam um novo processo de aprendizado também voltado para a prática de produção textual e interpretação de textos sinalizados, por exemplo", explica a professora de Libras, Patrícia da Cunha.

Na fase final do Ensino Fundamental, os estudantes aprofundam o conhecimento da Libras. Em um estágio mais avançado e maduro, os professores já realizam atividades de análise linguística, ensinado os alunos a identificar e saber empregar os pronomes, adjetivos e as expressões interrogativas, tanto na sinalização, como na escrita. Os jovens também são provocados a associar as frases aos tempos verbais, assim como empregar os verbos nos trabalhos de sala de aula.

É também neste período escolar que os estudantes mergulham nos componentes históricos e de identidade do surdo. Os professores exploram a construção histórica dos surdos em diferentes partes do mundo, o reconhecimento das organizações sociais que representam a comunidade surda, além da compreensão da importância da luta e das conquistas do povo surdo.

"Quando construímos o currículo, nossa preocupação foi avançar para além do aspecto linguístico. O surdo precisa, desde cedo, se autorreconhecer no mundo e na sociedade. E a nossa escola tem um papel fundamental neste processo de construção da identidade por meio de ensinamentos históricos, éticos e de cidadania", avalia Lucimeri.

Na Emef Vitória, que atende aos alunos em tempo integral, todos os professores e a equipe diretiva dominam a comunicação em Libras. Os demais funcionários são treinados para ter fluência na língua. O ambiente escolar é personalizado para os surdos - cada disciplina tem sua própria sala temática, todas decoradas e planejadas a partir de um apelo visual chamativo, característica que é marcante no processo de aprendizado da Libras.

Neste ano, a escola irá passar pela fase de conhecimento e adaptação do novo currículo, construído no referencial do município. Após discussões com a comunidade escolar, será construído o novo Projeto Político-Pedagógico da instituição de ensino, que passará a valer a partir do próximo ano. Em 2020, a Emef Vitória irá adotar em definitivo a nova base curricular.

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