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Austrália

- Publicada em 20/05/2022 às 21h03min.

Austrália vai às urnas de olho em interferência da China

Pesquisas apontam uma disputa apertada entre o líder da oposição, Anthony Albanese, e o premiê conservador, Scott Morrison

Pesquisas apontam uma disputa apertada entre o líder da oposição, Anthony Albanese, e o premiê conservador, Scott Morrison


LUKAS COCH/Pool/AFP/JC
Milhões de australianos vão às urnas neste sábado (21) para escolher parlamentares e o primeiro-ministro em uma eleição na qual o papel desempenhado por outro país, a China, é tema central de debates e trocas de acusações entre candidatos.
Milhões de australianos vão às urnas neste sábado (21) para escolher parlamentares e o primeiro-ministro em uma eleição na qual o papel desempenhado por outro país, a China, é tema central de debates e trocas de acusações entre candidatos.
Crítico de Pequim, o premiê conservador Scott Morrison, 54, do Partido Liberal, busca a reeleição e tenta levar a coalizão de centro-direita Liberal-Nacional ao quarto mandato consecutivo no poder. Ele tem como principal adversário o líder da oposição e um dos políticos mais experientes da Austrália, Anthony Albanese, 59, do Partido Trabalhista, de centro-esquerda. Pesquisas apontam uma disputa apertada.
De forma inédita, a política externa chinesa e seu líder, Xi Jinping, deram o tom da campanha na Austrália, evidenciando a relação estremecida entre os dois países. No mês passado, na mais recente crise diplomática, o regime formalizou acordo de segurança com as Ilhas Salomão, país na região do Pacífico Sul a apenas 1.600 quilômetros da costa nordeste da Austrália. O tratado coloca as forças militares chinesas à disposição do governo salomônico e eleva a tensão em torno de ambições de Pequim no quintal australiano, preocupação crescente nos últimos anos com avanços de Xi sobre o mar do Sul da China.
Marise Payne, ministra australiana das Relações Exteriores, chegou a dizer que estava decepcionada e preocupada com o potencial do tratado em "minar a estabilidade na região". No mês passado, Morrison insinuou que o acordo seria uma forma de interferência do regime chinês nas eleições australianas.
Não é de agora, porém, que a imagem de Xi vem sendo explorada por políticos australianos. Antes mesmo de a campanha começar, correligionários do Partido Liberal já diziam, sem provas, que a China atua pelo êxito de Albanese e que os trabalhistas, se vencerem, serão subservientes ao regime comunista.
Representantes do Partido Trabalhista, por sua vez, acusam o governo Morrison de falhas na segurança nacional devido aos impasses com a China. Em sua defesa, o premiê alega ter fortalecido o chamado Quad, grupo que inclui Austrália, EUA, Japão e Índia e que tem como objetivo principal conter a presença chinesa na região do Indo-Pacífico.

Relação diplomática entre Austrália e China está em um dos momentos mais críticos de toda a história

Segundo Carlos Gustavo Poggio, professor de relações internacionais da Faap, a relação diplomática entre Austrália e China está em um dos momentos mais críticos de toda a história. O ponto de virada aconteceu em 2020 quando, ainda nos primeiros meses de pandemia, Canberra pediu investigação independente sobre a origem do surto de coronavírus em Wuhan. Como retaliação, a China impôs barreiras comerciais sobre a carne australiana, taxou em 80% a importação de cevada do país e desencorajou a população a viajar para a Austrália devido a "casos de discriminação contra asiáticos".
O distanciamento entre Morrison e Pequim foi sacramentado no ano passado com a assinatura de um pacto com EUA e Reino Unido para armar a Austrália com submarinos de propulsão nuclear. "A política externa australiana tinha certa ambiguidade estratégica e se equilibrava entre China e EUA. Isso acabou durante o governo Morrison, que passou a priorizar os EUA como parceiro principal", diz Poggio.
Embora a diplomacia com Pequim seja tema frequente nos debates australianos deste ano, o professor vê um "consenso anti-China" nos dois principais partidos que disputam as eleições e não acredita em mudanças significativas nas relações com o vizinho asiático. "Não me parece que a China tenha algum tipo de preferência nas eleições australianas. Pequim já manifestou desejo de rediscutir as relações com a Austrália independentemente de quem for o vencedor."
Para Simon Jackman, professor da Universidade de Sidney, uma ameaça externa à Austrália não era foco de uma eleição desde a Guerra Fria. "Para um conjunto de eleitores mais jovem, não há nada (assim) na memória", disse ele à agência de notícias Reuters.

Economia também pode mobilizar eleitores australianos

Em âmbito doméstico, medidas para conter a alta do custo de vida em meio à pandemia e inflação acelerada devido à Guerra da Ucrânia também podem mobilizar os eleitores australianos. A economia do país se expandiu mesmo durante a crise sanitária e deve crescer mais 4,2% neste ano, segundo projeção do FMI. Apesar do bom desempenho, o Banco Central da Austrália decidiu aumentar pela primeira vez em 11 anos a taxa básica de juros, que passou de 0,10% para 0,35% no início do mês e pode chegar a 2,5% até o fim do ano, de acordo com estimativas do mercado.
Diante da alta dos preços, Albanese tem criticado a política econômica de Morrison e chegou a manifestar apoio à recomposição salarial pelo índice de inflação. A declaração foi rebatida pelo como "extremamente imprudente". Ele disse que aumentar os salários em mais de 5% seria como "jogar combustível no fogo da alta das taxas de juros e do custo de vida". Os preços ao consumidor australiano subiram 5,1% no primeiro trimestre de 2022 na comparação anual.
Enchentes e incêndios florestais que assolaram a Austrália nos últimos anos também são motivos de críticas a Morrison. O premiê sofre pressão por mais investimentos na área de energia limpa, mas tem prometido apoio à indústria de mineração de carvão.

Gestão de Morrison é bem avaliada na pandemia

Já a postura de Morrison na gestão da pandemia é bem avaliada pela população. A Austrália tem uma das taxas de mortalidade mais baixas do mundo. O país registrou 6,8 milhões de casos e 7.977 mortes por coronavírus até esta quinta-feira (19), segundo dados da Universidade John Hopkins. Não está claro, porém, até que ponto a conduta do premiê diante da crise sanitária trará capital político traduzido em votos nas urnas.
Outro fator de expectativa acerca da votação deste sábado é a participação das mulheres. O voto feminino é ainda mais cobiçado na disputa deste ano devido a uma onda de protestos que reuniram milhares de pessoas após denúncias de abusos e assédios que teriam sido cometidos por membros do governo.
Morrison chegou a pedir desculpas públicas à ex-funcionária do governo Brittany Higgins, que denunciou ter sido estuprada por um colega de trabalho em um gabinete ministerial em 2019. Não à toa, a campanha de Albanese reforçou promessa pela igualdade salarial entre homens e mulheres para atrair votos de eleitoras da classe média, grupo considerado fundamental para uma eventual vitória dos trabalhistas.
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