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Rússia

- Publicada em 16h33min, 23/03/2021.

Putin tenta estimular vacinação, mas faz segredo sobre dose que vai receber

Segundo relatos, ao longo do último ano, Putin mal deixou sua residência nos arredores de Moscou por medo de contaminação

Segundo relatos, ao longo do último ano, Putin mal deixou sua residência nos arredores de Moscou por medo de contaminação


Alexey DRUZHININ/Sputnik/AFP/JC
Em um país com taxas próximas de 60% de rejeição ao uso de suas vacinas contra Covid-19, o presidente deveria ser o primeiro a receber a agulhada no braço como forma de reforçar a confiança pública nos imunizantes, certo?
Em um país com taxas próximas de 60% de rejeição ao uso de suas vacinas contra Covid-19, o presidente deveria ser o primeiro a receber a agulhada no braço como forma de reforçar a confiança pública nos imunizantes, certo?
Na Rússia de Vladimir Putin, não é bem assim. O chefe de Estado anunciou que receberá nesta terça-feira (23) a primeira dose de uma das três vacinas produzidas em seu país, mas não disse qual será e nem vai fazê-lo de forma pública.
"Sobre ser vacinado na frente de câmeras, ele não gosta", resumiu o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, segundo a agência de notícias Tass. A explicação sobre o mistério acerca de qual vacina seria aplicada parece mais razoável: Peskov afirma que a ideia é mostrar que qualquer uma é segura.
Putin muito provavelmente irá receber uma dose da Sputnik V, o imunizante que é propagandeado como o primeiro com autorização para uso emergencial no mundo. Outras duas vacinas estão disponíveis, mas não atingiram ainda o público, a EpiVacCorona e a CoviVac. Pouco se sabe sobre elas, enquanto a Sputnik V já teve seus estudos preliminares da fase 3 publicados na prestigiosa revista científica britânica The Lancet - com eficácia de 91,6% contra a Covid-19.
O mistério é algo ao gosto de Putin, que mal deixou sua residência nos arredores de Moscou durante todo o ano da pandemia, segundo relatos, por medo de contaminação. Mas não parece ser exatamente uma tática motivadora.
A resistência a tomar a Sputnik na Rússia foi medida em 58% em dezembro pelo Centro Levada, instituto independente de opinião pública. Liubov, uma hematologista de 42 que atende no hospital de referência de Covid-19, em Moscou, é um exemplo disso.
Ela pediu para não ter o sobrenome revelado, já que a direção do Kommunarka, o hospital em questão, fez uma pequena caça às bruxas entre os médicos que não receberam o imunizante. "Simplesmente acho que é preciso esperar alguns meses para saber se é seguro mesmo", disse Liubov.
Questionada se ela não se convencia pela publicação de dados sobre segurança e eficácia da Sputnik V na The Lancet, ela disse que "não sabia que números foram entregues para os ingleses".
O Fundo Direto de Investimento Russo, que bancou a criação e é o distribuidor mundial da vacina, contesta essas colocações. Afirma que a vacina é totalmente segura, como as fases 1, 2 e 3 demonstraram.
O marido de Liubov, Pavel, também discorda da mulher. Diplomata hoje no ramo de análise militar, ele afirma que "por pouco a divergência não deu em divórcio", brincando. Ele tomou as duas doses da Sputnik V, e teve apenas um pouco de febre na primeira inoculação.
A atitude russa diante da doença é também ambígua. No domingo (21), ao desembarcar em Pequim, o chanceler Serguei Lavrov ganhou de presente pelos seus 71 anos uma máscara de repórteres de seu país. Nela estava escrito, sem as vogais e em inglês, FKGN QRNTN, um modo pouco polido de dizer "maldita quarentena".
Debates à parte, o fato é que a Rússia tem um programa letárgico de vacinação. Com o quarto maior número de casos no mundo (4,2 milhões de infecções), o país só vacinou 3,9% da população com pelo menos uma dose da Sputnik V, e 1,9%, com as duas.
Após um repique forte no fim do ano passado, contudo, as curvas russas baixaram. Nesta terça (23) houve 8.457 novos casos e 427 mortes - a letalidade no país é de 656 por milhão de habitantes, metade da brasileira.
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