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- Publicada em 12h51min, 05/02/2021. Atualizada em 16h09min, 05/02/2021.

Em maior ato de resistência desde o golpe, centenas protestam contra militares em Mianmar

Grupo formado de estudantes e professores se reuniu em frente à Universidade de Rangoon

Grupo formado de estudantes e professores se reuniu em frente à Universidade de Rangoon


STR/AFP/JC
Centenas de pessoas organizaram nesta sexta-feira (5) o maior ato de resistência em Mianmar desde que os militares interromperam a ainda embrionária transição democrática, deram um golpe de Estado e assumiram o poder.
Centenas de pessoas organizaram nesta sexta-feira (5) o maior ato de resistência em Mianmar desde que os militares interromperam a ainda embrionária transição democrática, deram um golpe de Estado e assumiram o poder.
Expressando o desejo de que a tomada de poder fracasse e seja revertida, o grupo formado por uma maioria de professores e estudantes se reuniu em frente à Universidade de Rangoon, a maior do país. Os manifestantes cantaram uma música que se tornou popular durante a revolta de 1988, quando mais de 3.000 mianmarenses foram mortos pela violenta repressão do regime militar aos protestos de rua.
O grupo também adotou como símbolo o gesto de unir três dedos da mão, que vem da franquia de livros e filmes "Jogos Vorazes" e é usado como demonstração de agradecimento, admiração e despedida de alguém amado. Na vida real, a mesma saudação foi usada em protestos em Hong Kong e Tailândia.
"Enquanto (os militares) conservarem o poder, não vamos trabalhar. Se todos fizerem isto, o sistema vai cair", declarou à agência de notícias AFP o professor Win Win Maw.
Os professores e estudantes universitários representam a mais recente adesão ao movimento de desobediência civil, que começou entre os profissionais de saúde, espalhou-se entre alguns setores remanescentes do governo pré-golpe e ganhou o apoio formal do partido dos líderes depostos.
Médicos, enfermeiros e outros funcionários de mais de 70 hospitais públicos e departamentos médicos de 30 cidades pararam de trabalhar. Servidores de vários ministérios também interromperam temporariamente suas atividades.
Muitos dos que continuam trabalhando têm usado fitas vermelhas nos uniformes para marcar a oposição ao regime militar. A cor é uma referência à Liga Nacional pela Democracia (LND), partido que obteve vitória esmagadora contra a legenda apoiada pelos militares na eleição de novembro e que, nesta sexta, declarou apoio formal à campanha de desobediência civil.
Em comunicado, a LND classificou o golpe militar e a detenção da conselheira de Estado, Aung San Suu Kyi, como ações inaceitáveis. O partido também prometeu ajudar as pessoas presas ou demitidas por se oporem à tomada de poder.
Desde a detenção de Suu Kyi, sob uma acusação obscura de violação de normas comerciais -ela teria importado ilegalmente seis walkie-talkies-, ao menos 150 líderes políticos foram presos, de acordo com a Associação de Assistência aos Presos Políticos, uma ONG com sede em Rangoon.
Em Mandalay, segunda maior cidade do país, outras 30 pessoas foram detidas por participarem de panelaços e buzinaços contra o regime militar durante três noites consecutivas. Segundo autoridades regionais citadas pela imprensa local, elas serão acusadas de violar uma lei que proíbe "causar barulho nas vias públicas".
Além do significado político, a prática de bater panelas também tem um significado espiritual para parte da sociedade mianmarense. "Estamos acostumados a fazer o máximo de barulho possível para expulsar os espíritos malignos de casas e vilas. Aqui os demônios são os militares", disse Thinzar Shunlei Yi, que criou um grupo de desobediência civil após o golpe.
Na madrugada desta sexta-feira, outro membro do alto escalão da LND foi preso pela junta militar em Rangoon. Win Htein, 79, um dos mais antigos assessores de Suu Kyu, foi levado da casa de sua filha pelas autoridades, segundo um porta-voz do partido. Ainda não se sabe, entretanto, quais serão as acusações.
"Nunca tive medo deles porque não fiz nada de errado em toda a minha vida", disse ele à agência de notícias Reuters, por telefone. Na quarta-feira (3), durante entrevista à rádio francesa RFI, Htein afirmou que sabia que seria preso, mas que não estava preocupado por estar acostumado à luta pacífica. O veterano da LND já passou mais de 20 anos preso enquanto Mianmar esteve sob o comando dos militares.
A LND obteve 83% dos votos e conquistou 396 dos 476 assentos no Parlamento de Mianmar. Os militares, entretanto, alegam que houve fraudes no pleito e que, por isso, assumiram o controle do país. O regime diz que o poder será transferido após a "realização de eleições livres e justas", mas a promessa é encarada com ceticismo.
O golpe recebeu duras críticas da comunidade internacional. Líderes políticos de diversas nacionalidades pediram o restabelecimento do governo democraticamente eleito e a libertação de todos os presos civis.
Nesta quinta-feira (4), o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, voltou a fazer um apelo para que os militares em Mianmar abram mão do poder e da violência, citando possíveis consequências caso a situação no país não se resolva em breve.
"Não pode haver dúvida que, em uma democracia, a força nunca deve buscar se sobrepor à vontade do povo ou tentar apagar o resultado de uma eleição crível", disse o líder americano. "Os militares mianmarenses devem renunciar ao poder que tomaram e libertar defensores, ativistas e autoridades detidos, retirar as restrições em telecomunicações e evitar a violência."
O governo americano determinou na terça (2) que considera a tomada de poder em Mianmar um golpe de Estado, o que, na prática, implica em restrições à assistência que os EUA oferecem ao país. O conselheiro de segurança nacional, Jake Sullivan, disse que sanções direcionadas a indivíduos e entidades controladas pelos militares também estão sendo consideradas.
O Ministério das Relações Exteriores do Brasil, por sua vez, não menciona golpe militar nem fala em presos políticos em nota divulgada sobre o tema.
O Conselho de Segurança da ONU também pediu pela libertação dos detidos nesta quinta. Em um comunicado assinado pelos 15 países que integram a cúpula, eles enfatizaram a "necessidade de defender as instituições e processos democráticos, abster-se da violência e respeitar plenamente os direitos humanos, as liberdades fundamentais e o Estado de Direito".
São membros permanentes da cúpula EUA, Rússia, França, Reino Unido e China. O teor do texto foi mais suave do que o rascunho original feito pelo Reino Unido e não fez menção a um golpe -aparentemente para ganhar o apoio da China e da Rússia, que tradicionalmente protegem Mianmar, de uma ação mais incisiva do conselho.
Folhapress
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