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Alemanha

- Publicada em 16h22min, 03/09/2020. Atualizada em 16h30min, 03/09/2020.

Caso Navalny aumenta pressão para Merkel abandonar parceria com Putin

Merkel cobrou duramente investigações que não ocorreram

Merkel cobrou duramente investigações que não ocorreram


Markus Schreiber/POOL/AFP/JC
A rota de colisão com o Kremlin, determinada por Angela Merkel no caso Alexei Navalny, começou a cobrar seu preço político da chanceler alemã. Políticos do país pedem que ela suspenda a parceria com a Rússia na construção de um megagasoduto.
A rota de colisão com o Kremlin, determinada por Angela Merkel no caso Alexei Navalny, começou a cobrar seu preço político da chanceler alemã. Políticos do país pedem que ela suspenda a parceria com a Rússia na construção de um megagasoduto.
Na quarta-feira (2), Berlim havia afirmado que Navalny não só foi envenenado no dia 20 na Sibéria, mas que o composto usado era o famoso Novitchok, agente nervoso que quase matou o ex-espião russo Serguei Skripal e sua filha no Reino Unido, em 2018.
Navalny foi transferido para Berlim após a insistência de sua família, que temia vê-lo morrer no hospital na Rússia.
"Eu teria cuidado em acusar o Estado russo. Afinal de contas, não há razão para isso. Nós certamente não queremos nossos parceiros na Alemanha e em outros países europeus apressando julgamentos", afirmou o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, segundo a agência Interfax.
Merkel em nenhum momento acusou o governo de Vladimir Putin de ser o responsável pelo provável envenenamento de Navalny, que o Kremlin diz não ser conclusivo, mas cobrou duramente investigações que não ocorreram.
Além disso, ao divulgar o uso do Novitchok (novato, em russo), um veneno desenvolvido pelos soviéticos durante a Guerra Fria, aponta para envolvimento de agentes estatais ou com acesso a produtos de uso restrito.
Em Berlim, políticos tanto do partido de Merkel quanto de oposição pediram que a chanceler cancelasse o gasoduto Nord Stream 2, que tem importantes parceiros europeus além da Alemanha, devido à crise. "Precisamos de uma forte resposta europeia", afirmou Norbert Röttgen, chefe do comitê de relações exteriores do Parlamento e candidato a líder da CDU, o partido de Merkel. "Essa tentativa de assassinato pelas estruturas mafiosas do Kremlin não deve só nos preocupar, mas ter consequências reais", disse Katrin Göring-Eckardt, do oposicionista Partido Verde.
Ambos os líderes têm em comum a pretensão de substituir a chanceler, que anunciou que não disputará um novo mandato a partir das eleições parlamentares de outubro de 2021 - ela, no poder desde 2005, já deixou a liderança da CDU em 2018. A pressão explicita a contradição entre a Merkel rígida na cobrança sobre o Kremlin e a Merkel que preza seus negócios energéticos com a Rússia. Restará saber se alguma delas irá se sobrepor à outra.
A considerar o histórico europeu de dependência e pragmatismo na relação com Putin, nenhuma. Mas a imprensa alemã, a começar pelo sensacionalista tabloide Bild, afirma que ela estaria considerando deixar o russo na mão.
Seria um golpe duro para ambos os lados. O duto é, na prática, a duplicação do já existente Nord Stream, que transporta boa parte do gás natural consumido pela Alemanha. Hoje, 40% do produto nos lares e indústrias alemãs vem da Sibéria Ocidental.
O sistema Nord Stream corre sob o mar Báltico. O primeiro ramo foi inaugurado em 2011 e o segundo tem conclusão prevista para este ano. Faltam apenas 160 km dos 1.230 km que ligam Ust-Uga (Rússia) a Lubmin (Alemanha).
O projeto tem valor declarado de € 9,5 bilhões (quase R$ 60 bilhões nesta quinta, 3), mas com as extensões de distribuição pode chegar a mais de € 17 bilhões (R$ 106 bilhões), segundo analistas. Metade do valor anunciado foi bancado pela gigante estatal russa Gazprom.
O nó para Merkel, e para a Europa no geral, é a segunda metade. Dela, 20% são de um consórcio entre a alemã Uniper e a austríaca OMV, e o resto é dividido entre a Engie (França), Shell (Reino Unido-Holanda) e Wintershall (Alemanha).
Todas essas empresas já estão sob pressão por parte de sanções norte-americanas, que começaram em 2017 e tiveram a última rodada em julho. A ideia dos EUA é tentar tirar a vantagem estratégica que a dependência energética dos europeus dá a Putin.
Até aqui, empresas e governo alemão têm resistido, tanto pelo dinheiro já gasto como pela conveniência que o projeto dá ao colocar em suas mãos o controle sobre o equivalente a metade do gás russo que passa hoje pela turbulenta Ucrânia, rumo à Europa.
Há até uma questão pessoal para Merkel. Apesar de o projeto inicial do Nord Stream ser anterior a seu mandato, ele beneficia diretamente seu berço eleitoral, o estado de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, com garantia de energia abundante no futuro.
Outros líderes, como o francês Emmanuel Macron, também são pressionados. A França, onde a relação do estado com grandes atores econômicos é forte, tem projetos energéticos com os russos, em particular no Ártico, e o presidente tem optado por uma relação ambígua com o Kremlin.
Para Putin, o desastre seria ainda maior, tanto politicamente como economicamente. A necessidade de desviar seu fluxo energético de gás e petróleo para Europa da Ucrânia, com quem mantém difíceis relações desde que anexou a Crimeia em 2014, colocou grande peso no Nord Stream 2.
Já os EUA, que trabalham ativamente contra o gasoduto e outro, que une a Rússia à Turquia, seriam recompensados com a eventual desistência alemã. O governo de Donald Trump já criticou Merkel várias vezes, e além das sanções determinou saída de tropas americanas da Alemanha.
Folhapress'
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