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Uruguai

21/05/2020 - 16h12min. Alterada em 21/05 às 16h47min

Projeto de fotos faz uruguaios abraçarem desaparecidos da ditadura

Imagens do Silêncio, projeto que começou em 2014 para marcar os 20 anos da marcha no ano seguinte

Imagens do Silêncio, projeto que começou em 2014 para marcar os 20 anos da marcha no ano seguinte


PABLO PORCIUNCULA/AFP
A advogada Mariana Mota, de anos 55, ouviu uma gravação contando quem tinha sido a uruguaia Beatriz Hernández Hobbas enquanto esperava em frente ao fundo escuro onde seria fotografada. Nos braços, segurava uma imagem da jovem, desaparecida na Argentina em 1977.
A advogada Mariana Mota, de anos 55, ouviu uma gravação contando quem tinha sido a uruguaia Beatriz Hernández Hobbas enquanto esperava em frente ao fundo escuro onde seria fotografada. Nos braços, segurava uma imagem da jovem, desaparecida na Argentina em 1977.
O processo é do Imagens do Silêncio, projeto que começou em 2014 para marcar os 20 anos da Marcha do Silêncio no ano seguinte. Na época, o trabalho foi a recopilação e edição de fotos da marcha desde a primeira edição, em 1996.
No ano passado, na contagem regressiva de 196 dias até a 25ª edição, começaram a publicar uma série feita com personalidades uruguaias segurando os cartazes com nomes e imagens dos 196 desaparecidos - os mesmos que são levados à frente das tradicionais marchas do dia 20 de maio.
A lista dos que seguram as fotos é diversa, com músicos, atores, jornalistas, ativistas e religiosos, entre outros. A estreia foi com o técnico da seleção uruguaia de futebol, Óscar Tabárez, com a imagem do estudante Juan Pablo Ibarburu. Uma das poucas fotos feitas fora de estúdio, realizada na casa dele.
"A ideia era fazer com que qualquer pessoa da nossa sociedade se sentisse identificada com pelo menos um dos retratados", diz o fotógrafo Ricardo Gómez. Além dele, a equipe inclui outros três fotógrafos (Annabella Balduvino, Federico Panizza e Pablo Porciúncula), a vídeojornalista Elena Boffetta e a produtora Soledad Acuña.
O retratado só conhece o personagem da imagem que vai segurar depois de chegar ao espaço - ele ouve uma a gravação que conta a história de quem desapareceu: onde nasceu, com o que trabalhava, como era a família e as circunstâncias da sua prisão e desaparecimento.
"O que buscávamos era captar o abraço, o encontro do referente com o desaparecido, não com o cartaz de papel e madeira, mas sim com a pessoa que ele representa", explica Gómez.
Mariana Mota se apresentou no projeto como advogada. No ano passado, ela deixou mais de 20 anos de carreira como juíza para assumir um cargo no conselho da Instituição Nacional de Direitos Humanos e Defesa do Povo, encarregado da busca por desaparecidos, a pedido do grupo de mães e familiares.
Em 2010, Mariana teve uma decisão histórica nos tribunais uruguaios. Condenou o ex-presidente Juan María Bordaberry a 30 anos de prisão por nove desaparecimentos, dois homicídios (desaparecidos encontrados depois da ditadura) e atentado à Constituição, ocorridos entre 1973 e 1976.
Como civil, o ex-presidente estava de fora da lei de caducidade, que previa prescrição aos crimes da ditadura cometidos por militares e policiais. Bordaberry chegou a ser preso, por outra decisão (que imputava a ele as mortes de Zelmar Michelini e Gutiérrez Ruiz, políticos uruguaios assassinados na Argentina), mas por questões de saúde ficou em regime domiciliar.
Dois anos depois da decisão, Mariana se juntou aos familiares na Marcha do Silêncio. Uma foto sua acabou abrindo uma investigação interna sobre a imparcialidade da juíza, e o caso levou um tempo até ser arquivado. Em 2013, Mariana acabou transferida a um juizado civil.
"A reclamação por justiça não indica nada a nenhuma causa com que eu trabalhava, porque é uma reclamação genérica, ampla", diz ela. "Acho que mesmo que eu não tivesse ido à marcha, ainda teria ocorrido a transferência. O problema não era o que eu fazia fora do juizado, mas dentro dele."
A causa julgada por ela, avalia Mariana, abriu as portas para que outras investigando ações do mesmo período viessem à tona, mostrando a repressão sistemática instaurada na ditadura. Mas também trouxe freios, chicanas e recursos eficientes em evitar a conclusão dos processos.
"A justiça nunca é vingança. É estabelecer quem atuou de acordo com o direito e quem atuou fora dele", afirma. "Se isso demorou tanto, é porque o Estado foi omisso por muitos anos."
Enquanto isso, familiares e projetos como o Imagens do Silêncio tentam manter viva a memória dos desaparecidos e de que houve terrorismo de Estado no país. Neste ano, mais um nome, o 197º, foi adicionado à lista de desaparecidos. "A memória é importante em todo o mundo e a falta dela, sempre intencional, faz com que nós, humanos, cometamos os mesmos erros e horrores", diz Gómez.

Onde encontrar o projeto

Instagram: imagenes.del.silencio https://bit.ly/33aqjc3
Twitter: Imágenes del Silencio https://bit.ly/36urRA2
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