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coronavírus

- Publicada em 21h58min, 02/11/2020.

Critérios de testagem à Covid-19 confundem a população em Porto Alegre

RT-PCR é feito apenas em suspeito que tenha dividido ambiente por mais de 4h com diagnosticado

RT-PCR é feito apenas em suspeito que tenha dividido ambiente por mais de 4h com diagnosticado


LUDOVIC MARIN/AFP/JC
Gabriela Porto Alegre e Yasmim Girardi
Desde que a prefeitura de Porto Alegre ampliou a oferta de testagens relacionadas à Covid-19 na Capital, incluindo no programa de testagem os pacientes assintomáticos que tiveram contato com pessoas que testaram positivo para a doença no ambiente de trabalho, uma série de critérios foram estabelecidos. Os pré-requisitos para que os testes aconteçam pelo sistema de saúde pública do município, porém, causam dúvidas nos cidadãos que, ao procurarem as unidades de saúde, em alguns casos, não conseguem fazer o teste.
Desde que a prefeitura de Porto Alegre ampliou a oferta de testagens relacionadas à Covid-19 na Capital, incluindo no programa de testagem os pacientes assintomáticos que tiveram contato com pessoas que testaram positivo para a doença no ambiente de trabalho, uma série de critérios foram estabelecidos. Os pré-requisitos para que os testes aconteçam pelo sistema de saúde pública do município, porém, causam dúvidas nos cidadãos que, ao procurarem as unidades de saúde, em alguns casos, não conseguem fazer o teste.
Esse é o caso do porteiro Adriano Fredo Saldanha, que contraiu a doença no ambiente de trabalho. Seu colega teve o diagnóstico de Covid-19 confirmado a partir do exame RT-PCR. Por ter tido contato com ele, Saldanha procurou uma unidade de saúde da Capital para solicitar o exame, mas não pôde ser testado inicialmente porque, além de não estar com os sintomas, não dividia o mesmo espaço com o colega contaminado por mais de quatro horas, ainda que os dois costumassem almoçar juntos, conversar e trocar materiais de serviço.
"Procurei o Postão da Cruzeiro e informei o CPF do colega e a data de início dos sintomas dele. Disse que precisava fazer o teste, pois tenho contato direto com ele no ambiente de trabalho. Como não tinha sintomas, eles disseram que não poderiam realizar o exame", conta Saldanha. Após ter o pedido negado, o porteiro foi ao Hospital Vila Nova para tentar outra abordagem. "Disse as mesmas coisas, mas falei que estava com febre e calafrios, mesmo não estando, para poder fazer o exame."
A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) permite a testagem somente se a pessoa com suspeita da doença tenha dividido o mesmo ambiente que o colega diagnosticado com Covid-19 por, pelo menos, 4 horas; o colega diagnosticado tenha apresentado sintomas; o contato tenha ocorrido cinco dias antes ou até 14 dias depois do início dos sintomas; o colega tenha tido teste confirmatório. Além disso, para realização do exame, a SMS também não leva em consideração o contato ocasional em áreas comuns, ou seja, em cozinhas, sanitário ou salas de reunião.
A epidemiologista e professora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (Ufscpa), Eliana Wendland, explica que, ainda que alguns cidadãos fiquem de fora das testagens, os critérios são bem embasados para essa situação. "Para ver causalidade, se alguém realmente pegou de outra pessoa, precisa haver um certo tempo de contato e alguns fatores. Se uma pessoa usando máscara conversar por 15 minutos com alguém com Covid-19 também de máscara em um local aberto, a chance de pegar a doença é bem menor do que se a conversa durar 2h, em um local mal ventilado e sem máscara, por exemplo", explica.
Eliana entende que o critério das 4 horas, um dos que não se aplicaram a Saldanha, é uma tentativa da SMS de estabelecer uma régua para não testar todo mundo, mas também não deixar de testar casos importantes. "Se, na hora do almoço, eu ficar sentada na mesma mesa de outra pessoa, ambos sem máscara, comendo e em um lugar pouco ventilado, esse tempo de 4 horas para infecção se reduz. A grande dificuldade é saber como balizar isso. A SMS tentou colocar um ponto de corte", complementa. Ela acrescenta, ainda, que 4 horas pode ser muito ou pouco tempo, dependendo da situação. "O critério poderia ser mais específico, falando sobre dividir o mesmo ambiente por 1 hora sem máscara ou 4 horas de máscara, por exemplo."
É impossível, segundo a especialista, achar uma situação em que a probabilidade de infecção seja de 0% ou 100%, pois depende muito do tipo de contato. "Em uma sala com bastante pessoas, a chance é maior do que em um local com menos pessoas ou do que em um ambiente aberto. Em uma sala com pessoas em silêncio, a probabilidade de infecção é menor do que em um ambiente onde as pessoas estão conversando ou gritando, por causa da quantidade de partículas expelidas na hora da fala", explica Eliana.
Ainda que Saldanha tenha se sentido indignado com a situação, tendo em vista que ficou com medo de contaminar os familiares pertencentes ao grupo de risco, a epidemiologista defende a importância de procurar a testagem. "Testar os contatos é importante para a cadeia de transmissão. O ideal seria que a Vigilância em Saúde testasse todo mundo da cadeia de contágio do trabalhador com o teste positivo para a doença, e não deixasse para que os colegas de trabalho corram atrás do teste."
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