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Porto Alegre, sexta-feira, 29 de novembro de 2019.

Jornal do Comércio

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Meio Ambiente

Alterada em 29/11 às 17h11min

Queimadas da Amazônia podem aumentar derretimento das geleiras dos Andes

A queima maciça de árvores derrubadas na região amazônica produz efeitos em escala continental

A queima maciça de árvores derrubadas na região amazônica produz efeitos em escala continental


Esio Mendes/Sedam/JC
As cinzas das queimadas da Amazônia são capazes de aumentar a taxa de derretimento das geleiras dos Andes, piorando uma situação que já traz riscos para os reservatórios de água dos países da região.
As cinzas das queimadas da Amazônia são capazes de aumentar a taxa de derretimento das geleiras dos Andes, piorando uma situação que já traz riscos para os reservatórios de água dos países da região.
A conclusão vem de dados de satélite e observações de campo analisados por cientistas brasileiros e franceses. Publicados na revista especializada Scientific Reports, os resultados reforçam a ideia de que - além de ter impacto planetário, graças à emissão de gases-estufa que esquentam a atmosfera.
Calcula-se que, em anos de queimadas intensas, a taxa de derretimento em locais como a geleira de Zongo, na Bolívia, aumente cerca de 5%. "Pode parecer pouco para uma geleira individual, mas o efeito somado em diversas geleiras dos Andes tende a ser considerável", diz o biólogo Newton de Magalhães Neto, do Laboratório de Geoprocessamento da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro).
Magalhães Neto e o físico Heitor Evangelista, também da Uerj, são os autores brasileiros do estudo, ao lado dos glaciologistas Thomas Condom, Antoine Rabatel e Patrick Ginot, da Universidade de Grenoble Alpes, na França.
A equipe compilou dados sobre queimadas obtidos pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) do ano 2000 até 2016, além de modelos sobre a circulação de massas de ar na América do Sul e informações de longo prazo sobre o clima e o fluxo de água derivada da geleira de Zongo. Também levaram em conta as medições da presença do chamado carbono negro (basicamente a cinza escura das queimadas) na estação de Chacaltaya e da geleira de Illimani, localizadas a 5 km e 55 km da geleira de Zongo, respectivamente.
Que a presença do carbono negro em cima da superfície normalmente branca de uma geleira seja capaz de facilitar o seu derretimento é uma consequência lógica de modificações no chamado albedo, ou seja, a capacidade de refletir a luz solar.
Geleiras e áreas cobertas de neve têm albedo alto, refletindo quase toda a luz. Quando aparecem áreas escuras em meio à brancura, o albedo diminui, e a radiação solar começa a ser absorvida, esquentando a área. Trata-se do mesmo princípio que faz com que seja má ideia sair de camiseta preta no sol quente: ela esquenta muito rápido. "É essa analogia que eu sempre costumo usar", afirma Magalhães Neto.
No caso da interação entre as geleiras dos Andes e da Amazônia, a situação parece ter sido particularmente dura na estação seca dos anos de 2007 e 2010, épocas em que estava ativo o fenômeno El Niño, um potencializador da secura em boa parte da América do Sul, e, ao mesmo tempo, proprietários de terras abusaram das queimadas em território amazônico.
Nessas circunstâncias, o fluxo anual de água gerado pelo derretimento da geleira aumentou 4,5%. O efeito pode variar também por conta da quantidade de poeira -- provavelmente oriunda das áreas mais secas do altiplano andino --que chega à geleira. A presença de poeira também afeta o albedo e pode favorecer o degelo.
O fenômeno preocupa porque as geleiras são a principal fonte de água dos rios andinos nos períodos secos. Sem elas, é preciso contar exclusivamente com a chuva para o abastecimento desses mananciais. "Essas geleiras já estão encolhendo por causa das mudanças climáticas, mas os efeitos do carbono negro das queimadas potencializam ainda mais esse problema", explica o pesquisador da Uerj. E, com o aumento da secura na Amazônia --fenômeno também impulsionado pelas alterações climáticas globais --, a tendência é que as queimadas saiam do controle com mais frequência.
Há ainda o fato de que o próprio Amazonas nasce nas geleiras dos Andes. Ainda não se sabe até que ponto a diminuição delas pode afetar o maior rio do mundo, já que a maior parte do fluxo do Amazonas é abastecido pelas chuvas, mas a água que vem dos Andes costuma trazer nutrientes importantes para os rios amazônicos.
Folhapress
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