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Porto Alegre, segunda-feira, 17 de junho de 2019.

Jornal do Comércio

Geral

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Saúde

Edição impressa de 17/06/2019. Alterada em 17/06 às 03h00min

'Há um grande esforço para fazer pesquisa clínica no Brasil'

Apesar das limitações financeiras, Greyce diz que profissionais brasileiros fazem um bom trabalho

Apesar das limitações financeiras, Greyce diz que profissionais brasileiros fazem um bom trabalho


ABBVIE BRASIL/DIVULGAÇÃO/JC
Daniel Sanes
Uma das áreas mais afetadas pelos anunciados cortes orçamentários do governo federal, a pesquisa científica abrange desde novas tecnologias para aumentar a segurança em barragens até o desenvolvimento de medicamentos para combater epidemias. Este último segmento, o de pesquisa clínica, é responsável pela descoberta de vacinas e tratamentos. Para se obter resultados, são necessários anos de estudo, persistência e, claro, uma verba significativa. Diretora da empresa Invitare Pesquisa Clínica e presidente executiva da Sociedade Brasileira de Profissionais em Pesquisa Clínica (SBPPC) - entidade sem fins lucrativos que fundou há 20 anos - a médica veterinária Greyce Lousana falou ao Jornal do Comércio sobre as condições de trabalho dos pesquisadores brasileiros.
Jornal do Comércio - Há incertezas em relação à manutenção de verbas para educação e produção científica. Qual é o impacto desses cortes na área de pesquisa clínica?
Greyce Lousana - A perda de recursos sempre causa impacto. Muitos projetos de ensaios clínicos são patrocinados por Fiocruz, Bio-Manguinhos, Butantã, institutos públicos. Um corte de verba vai prejudicar a condução de pesquisas dessas instituições, mas não só isso: em um país que vive questões complexas em seu contexto social, econômico e tributário, a incerteza pode levar a um menor número de investimentos privados também.
JC - Qual sua avaliação sobre o investimento em pesquisa clínica hoje no Brasil?
Greyce - Em pesquisa clínica especificamente, o investimento é pequeno. Em 2004, o Departamento de Ciência e Tecnologia (do Ministério da Saúde) fez um grande investimento em uma rede nacional de centros de pesquisa clínica. No entanto, se fizermos a comparação com outros países, ainda é incipiente. Você vai hoje para grandes universidades e não vê pesquisa clínica sendo feita por todo mundo, apenas alguns grupos que foram atrás, que batalharam. Há um grande esforço ainda para se fazer pesquisa, e não deveria ser assim. Eu vejo isso até como uma perda de recursos: se as instituições percebessem a importância de se conduzir ensaios clínicos, teriam, sem dúvida, um ganho muito grande.
JC - A senhora fundou a SBPPC em 1999. Nesses 20 anos, o que evoluiu na pesquisa clínica no Brasil? Qual o patamar do País hoje?
Greyce - Quando volto para 1990, quando ainda nem existia a SBPPC, vejo que o salto foi de 1.000%. Você pode comparar o que um pesquisador está fazendo aqui no Brasil, conduzindo um ensaio clínico multicêntrico internacional, com um de fora - nós fazemos tão bem quanto em qualquer lugar. Tenho certeza de que estamos em um patamar muito bom e equivalente ao que existe no resto do mundo.
JC - A senhora preconiza que toda pesquisa deve ser publicada, mesmo que o resultado final não seja bem-sucedido. Por quê?
Greyce - Hoje existem bancos de moléculas, de informações. Às vezes, a ideia é conduzir pesquisa com um produto para uma determinada indicação e, ao longo do trabalho, se descobre que, para aquela indicação, ele não é bom. Isso não quer dizer que a molécula não possa ser boa, só que para outras indicações. Um grande exemplo nesse sentido é o AZT (uma das primeiras drogas aprovadas para o tratamento de infecções pelo vírus HIV, causador da Aids), que, ao ser estudado inicialmente, imaginava-se que poderia ser importante para combater um determinado tipo de tumor. Não foi, mas a molécula continuou existindo, outros estudos foram feitos, e percebeu-se uma característica nela para retrovírus. Acabou sendo eficaz contra o HIV. Isso mostra a importância de você também publicar resultados negativos e seguir com o projeto.
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