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Porto Alegre, quarta-feira, 11 de julho de 2018.

Jornal do Comércio

Geral

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Educação

Notícia da edição impressa de 11/07/2018. Alterada em 10/07 às 21h37min

'A escola também produz suas próprias violências', afirma pesquisadora

Miriam Abramovay coordenou pesquisa sobre violência no ambiente escolar

Miriam Abramovay coordenou pesquisa sobre violência no ambiente escolar


LUIZA PRADO/JC
Suzy Scarton
O programa O Papel da Educação para Jovens Afetados pela Violência e Outros Riscos, desenvolvido pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), com apoio da Secretaria Estadual de Educação e do Banco Interamericano de Desenvolvimento, acompanhou, por dois anos, um grupo de 670 estudantes do Ensino Médio de 25 escolas de Porto Alegre. A intenção era avaliar a percepção dos alunos quando imersos em um ambiente violento e entender a relação entre fatores de risco, como a exclusão escolar e a condição socioeconômica.
A ex-coordenadora do Observatório de Violência nas Escolas no Brasil, Miriam Abramovay, foi quem encabeçou a pesquisa. Resultados como reclamações constantes a respeito de preconceito, racismo e discriminação não foram vistos com surpresa pela educadora, que, atualmente, coordena a área de Juventude e Políticas Públicas da Flacso. Em entrevista ao Jornal do Comércio, Miriam conta que o despreparo de professores e o descuido dos governos com a estrutura escolar também contribuem para a existência de ambientes violentos.
Jornal do Comércio - Quais são os tipos de violência encontrados no ambiente escolar?
Miriam Abramovay - A primeira coisa que precisamos considerar é que a violência é um fenômeno global. A escola não somente reproduz a violência de fora para dentro, mas produz suas próprias violências. É uma violência que vai além das brigas, dos problemas que vêm de fora e que entram na escola. É uma violência institucional da própria escola, que se dá no cotidiano, que não dá espaço de fala para o jovem; a violência da repetência, em deixar o jovem se evadir. Todos esses tipos de violência, além destas outras que conhecemos - a violência dura das brigas, daqueles que se machucam, de professor contra aluno e de aluno contra professor. Existe discriminação de várias formas, com vários focos, e a escola não sabe muito bem como responder a essas questões.
JC - Os professores estão preparados para lidar com isso?
Miriam - Não, não estão. Tanto que uma das coisas que colocamos em foco no programa é a questão de formação de professores. Esse preparo tem de ser repensado. Vai além da questão prática, é preciso que haja instrumentos e ferramentas para que os professores possam trabalhar com isso. A partir da pesquisa e do programa, montamos dois guias - um para os alunos trabalharem e outro para professores e diretores. A capacitação é fundamental, mas, em geral, não é vista como prioritária.
JC - Como as escolas estão enfrentando a questão do bullying?
Miriam - A questão do bullying é bem complicada porque é uma violência. Não tratamos como bullying, mas como violência nas escolas, é um tipo de violência escolar. Se falar em bullying, limita a questão. É um tipo de violência que se dá entre pares, e, nas escolas, existe muita violência - entre alunos, diretores e professores. Essas relações sociais desarmônicas criam um clima muito complicado. Acho que o bullying está dentro desse contexto. Sabemos que o Brasil é o país das leis. No entanto, não se avançou com relação a essa questão (na aplicação da Lei nº 13.185, que institui o Programa de Combate à Intimidação Sistemática).
JC - Uma escola sucateada atrapalha o aprendizado?
Miriam - Quando você se encontra em um espaço maltratado - seja na sua própria casa, no ambiente de trabalho ou escolar -, tende a maltratá-lo também. Na escola, é igualzinho. Uma escola limpa, cuidada, onde existem boas relações sociais entre professores e alunos é diferente de uma pichada, sem pintura, com carteiras quebradas. Quem vai cuidar dessa escola? Quem vai ter relação de apego e afeto com ela? Essa, inclusive, é uma reclamação recorrente dos jovens.
JC - Como a senhora vê a reforma do Ensino Médio?
Miriam - Que precisaria ser feita uma reforma, não tenho dúvidas. O que talvez não tenha ficado tão claro é a opinião dos alunos. Poucos puderam expor sua vontade, daquilo que queriam realmente reformar nesse ensino. A reforma do Ensino Médio tem que ser para os jovens também. Acredito que pediriam mais segurança, escolas bem tratadas, espaços nos quais possam participar, uma escola em melhores condições físicas, onde pudessem aprender, e espaços para discutir temas como sexualidade, homofobia e racismo. Falam e reclamam muito sobre isso. A escola não sabe muito bem como fazer tudo isso - uma questão que passa, também, pela formação dos professores.
 
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