Isadora Jacoby

Bandas, estúdios e recreacionistas encontram alternativas para manterem suas atividades durante a pandemia

O entretenimento longe dos palcos

Isadora Jacoby

Bandas, estúdios e recreacionistas encontram alternativas para manterem suas atividades durante a pandemia

A orientação de distanciamento social afetou diretamente o segmento de entretenimento. O que se vê, agora, são profissionais levando seus serviços até a casa das pessoas.

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A orientação de distanciamento social afetou diretamente o segmento de entretenimento. O que se vê, agora, são profissionais levando seus serviços até a casa das pessoas.
Os irmãos Thiago e Diego Massimino, 32 e 31 anos, respectivamente, são os nomes da dupla pop Double Face (@oficialdoubleface) e viram seu projeto, retomado em setembro de 2019, desacelerar em função da pandemia. "Nós tínhamos a banda há muito tempo, mas, lá por 2014, resolvemos encerrar as atividades. Fui estudar Cinema, e o Diego, Tecnologia da Informação. No meio do ano passado, decidimos voltar a tocar. Lançamos nossa primeira música em setembro. Tivemos uma média de 25 mil plays semanais no Spotify", conta Thiago. Em fevereiro deste ano, a dupla lançou sua segunda música de trabalho e se preparava para gravar o clipe quando precisaram parar com as suas atividades. Em um primeiro momento, adiantaram algumas produções, mas viram que não teriam como dar continuidade ao projeto durante a quarentena.
Longe dos palcos, Thiago teve a ideia de usar o show como uma maneira de entreter as pessoas que estão isoladas. Vizinhos no mesmo condomínio, os irmãos pediram autorização para o síndico e fizeram, na área da piscina de seus prédios, a primeira apresentação desse formato.
"Montei um flyer e coloquei no grupo do condomínio. Não tínhamos estrutura nenhuma. Pegamos as caixas de som que a gente tinha em casa, microfone de karaokê. Foi um sucesso e arrecadamos 150 kg de alimentos", lembra Thiago.
Depois de 10 apresentações, a dupla já arrecadou mais de duas toneladas de alimentos, que são doados para as instituições Cozinhar e Servir, Alimentar Sonhos, Acompar, Ajude a Graxa RS e Assmu-RS. Conquistou, ainda, diversos parceiros para a empreitada. "Dois dias após o show, o Marcelo Ely, diretor da CP Imóveis, imobiliária da Zona Norte de Porto Alegre, entrou em contato sugerindo que levássemos a ideia para outros condomínios da região. A partir daí, temos tocado todos os fins de semana", destaca Thiago.
A agenda de shows nos condomínios passou, então, a ser organizada pela imobiliária. Outro parceiro importante para a continuidade do projeto foi a Project Som, empresa especializada em materiais e sonorização para eventos. "Conseguimos consolidar essa proposta de uma maneira mais estruturada. É uma ação beneficente. Levamos um pouco de entretenimento para quem está isolado e arrecadamos alimentos para quem está precisando", acredita o músico, destacando que o projeto não para de ganhar apoiadores.
"Tocamos no condomínio do fotógrafo Vinni Oliveira, da Simple Pix, e ele se interessou em ajudar para termos imagens de melhor qualidade. Começou muito no braço e, hoje, são vários parceiros envolvidos que acabam enriquecendo a iniciativa."
O projeto não tem nenhum custo para o condomínio, que deve, apenas, fornecer o espaço e a energia para que a estrutura seja montada. O show, com duração de 1h30min, é composto pelas músicas autorais do duo e também por covers de artistas nacionais. "Tem Vitor Kley, Melin, Vitão, Projota, Anavitória, Lulu Santos, Tim Maia, Capital Inicial, Jota Quest. Tocamos músicas de bandas daqui, como Armandinho, Cidadão Quem, Chimarruts", pontua Thiago, revelando que as músicas que mais emocionam o público nas janelas e sacadas são Dias Melhores, do Jota Quest, e Dia Especial, do Cidadão Quem.
Mesmo que os shows não tenham fins lucrativos para a Double Face, os irmãos já enxergam os resultados positivos da ação. "Não sabemos o que estaríamos fazendo se não fosse isso. Muita gente está nos conhecendo, ganhamos mais de 500 seguidores orgânicos nas redes sociais. É uma troca: as pessoas nos conhecem, nós melhoramos a nossa performance, e ajudamos quem precisa. Vai demorar muito para o entretenimento, para a música, voltar ao normal. Então, estamos vendo isso como um laboratório", analisa Thiago.

Aniversário na calçada anima a criançada que não pode sair

A empresa de entretenimento infantil Alegria e Cia Festas, que teve sua programação diretamente afetada pela pandemia do coronavírus, se adaptou e começou a produzir festas nas calçadas. "Entendemos que o entretenimento foi o primeiro a ser impactado e deve ser o último a voltar. Como administrador, estou muito preocupado", pontua Gustavo Saldanha, 35, sócio da empresa junto com a esposa, Rafaela Saldanha, 34.
Foram poucos os dias, no entanto, de portas fechadas. Rapidamente, o empreendedor encontrou uma solução para seguir animando as pessoas durante a quarentena. O carro de som da empresa, antes usado para divulgação em escolas, passou a circular nas ruas de Estrela distribuindo mensagens positivas e alimentos para pessoas que precisam. Trazer o modelo para a Capital foi uma questão de tempo, relata Gustavo. "Uma moça me contou que a festa de aniversário da afilhada dela tinha sido cancelada e falou que queria fazer o parabéns na janela. Pediu se tinha alguma ideia, então fizemos uma festa na calçada. A rua toda participou, todos os prédios de janela aberta. No fim, perguntei quem tinha gostado da festa da Isa e todo mundo gritou. Mostrei para a menina quantos convidados tinha e como a festa foi especial", lembra.
A empresa de entretenimento infantil faz parte do Grupo Moinhos, nome do sítio de visitação escolar que os sócios administram em Estrela. A junção dos negócios ocorreu quando Gustavo e Rafaela perceberam que as atividades de recreação do espaço rural poderiam se tornar uma nova forma de incrementar o negócio. "Nós tínhamos o serviço de recreação infantil no sítio e trocávamos muita ideia com os proprietários da Alegria e Cia Festas, uma empresa com mais de 20 anos de operação em Porto Alegre. Há quatro anos, fiz uma proposta para comprar a empresa porque vislumbrei essa possibilidade de atuar mais na Capital. Sou natural de Porto Alegre, então muita gente pedia para atendermos aí", explica Gustavo. Desde então, os sócios passaram a dividir seu tempo entre as atividades do sítio, em Estrela, e as de recreação, em Porto Alegre, onde atuam em shoppings, clubes, festas privadas e no Estádio Beira-Rio, onde são responsáveis pelo espaço kids da área Vip.
Durante a pandemia, as festas na calçada ganharam nome e se tornaram o projeto Alegria da Janela. A cada apresentação paga, a empresa faz, pelo menos, outras três gratuitas no mesmo dia, em diversas regiões da cidade. "Pensamos não só no lado motivacional, mas também na parte comercial, tentando gerar alguma renda. Entendo que, quando passar tudo isso, seremos uma das primeiras empresas lembradas por quem for fazer uma festa, pois estamos sendo vistos", acredita Gustavo.
No repertório, estão músicas infantis atuais e as da década de 1980. As festas nas calçadas duram em torno de 40 minutos e custam R$ 500,00, metade do valor cobrado antes da pandemia. Atualmente, Gustavo conta com dois funcionários durante as atividades. Na contratação, é possível pedir por personagens infantis fantasiados - que vão de máscaras.

Estúdio aposta na profissionalização de lives com aluguel de equipamentos

Com as portas abertas desde 2008, o Estúdio Suminsky vive seu momento mais adverso, segundo o proprietário Tiago Suminsky, 38 anos. "Está 99% fechado, de vez em quando aparece alguma coisinha, mas está bem devagar", lamenta. O espaço, que fica na Zona Norte da Capital desde 2011, teve suas salas de gravação esvaziadas pela pandemia. "É momento de isolamento, não de aglomeração, e os estúdios acabam reunindo pessoas em espaços fechados", salienta. Frente a esse cenário, o empreendedor viu na nas lives uma brecha em um mercado que enfrenta dificuldades.
"Um cliente veio fazer uma live aqui para usar os equipamentos e o resultado foi bom. Então, o responsável pela parte de vídeo sugeriu que criássemos esse serviço para as transmissões profissionais", lembra. Assim, ele e Mateus de Oliveira, que cuida da parte audiovisual, começaram a divulgar a ideia nas redes sociais.
As lives profissionais acontecem no estúdio e são conduzidas de acordo com as orientações de saúde, destaca Tiago. "Na transmissão que fizemos, todo mundo envolvido estava de máscara, só o artista que estava sem. Fico na sala técnica, fazendo a parte do áudio, e o artista em outra sala."
O diferencial do serviço é realizar uma transmissão com qualidade de áudio e vídeo profissional. "Temos bons microfones, e pode ter até três câmeras para corte ao vivo", conta. A média de custo para realizar uma live de até duas horas no local é de R$ 500,00, mas o empreendedor frisa que é necessário que o artista entre em contato para ter um orçamento mais preciso. "Não tem valor fechado. Se for fazer uma de cinco horas, a estrutura é a mesma, o tempo de montagem é o mesmo", expõe Tiago.
As dificuldades da pandemia não foram uma novidade para o mercado dos estúdios de música, garante. Ele conta que o setor já estava passando por um momento difícil, em função das transformações tecnológicas dos últimos anos. "O mercado começou a mudar pela venda de equipamentos internet e tutoriais no YouTube. A demanda começou a cair, as bandas começaram a diminuir", pondera. O agendamento das lives pode ser feito pelo WhatsApp (51) 99128-3369.
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Isadora Jacoby - repórter do GeraçãoE

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