Isadora Jacoby, Mauro Belo Schneider e Vitorya Paulo

Estabelecimentos temáticos apostam na experiência para fidelizar a clientela

Literatura inspira novos negócios gastronômicos

Isadora Jacoby, Mauro Belo Schneider e Vitorya Paulo

Estabelecimentos temáticos apostam na experiência para fidelizar a clientela

A região que abriga a Biblioteca Pública do Rio Grande do Sul, diversas livrarias e sebos recebeu, em novembro, uma cafeteria inspirada em um dos maiores escritores da América Latina. A Sr Gabo homenageia Gabriel García Márquez, colombiano que conquistou o prêmio Nobel de Literatura, em 1982, pelo conjunto de sua obra.

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A região que abriga a Biblioteca Pública do Rio Grande do Sul, diversas livrarias e sebos recebeu, em novembro, uma cafeteria inspirada em um dos maiores escritores da América Latina. A Sr Gabo homenageia Gabriel García Márquez, colombiano que conquistou o prêmio Nobel de Literatura, em 1982, pelo conjunto de sua obra.
O sociólogo Antonio Gianichini, 52 anos, está à frente do negócio com sua esposa Rosele Rambo, 55, profissional de Educação Física aposentada. "A rua da Ladeira é histórica. Leva os turistas à Assembleia Legistativa, ao Palácio Piratini, à Catedral. Os porto-alegrenses passam ali para ir ao Theatro São Pedro, à Biblioteca Pública. Então, o Sr Gabo é caminho para parar e tomar um café. Considerando que tem muitas livrarias no entorno, a ideia foi homenagear um escritor que me marcou muito na juventude", salienta Antonio.
A operação não é a primeira experiência dele como empreendedor, que já teve outra cafeteria durante o período que morou em Brasília. Há seis anos, quando retornou para Porto Alegre, começou a trabalhar na Assembleia. Foi, justamente, andando pelo centro que viu o ponto disponível para abrir o espaço. "A região tem vários bares e cafés, mas com aquela pegada muito rápida de comer e ir embora. Nós pensamos em abrir algo que humanizasse, que as pessoas parassem e curtissem", pondera.
Com investimento em torno de R$ 150 mil, o estabelecimento, localizado na rua General Câmara, nº 451, levou quatro meses para ter suas obras finalizadas. Em alusão à tradicional frase do autor que diz que enquanto houver flores amarelas por perto, nada de ruim pode acontecer, a janela do estabelecimento é decorada com pequenas rosas na cor.
As borboletas amarelas, que muitas vezes aparecem no clássico Cem Anos de Solidão, também fazem parte da decoração, assim como uma ilustração do rosto do autor bem no centro da cafeteria. "Há coincidências de Gabriel. Quem ilustrou foi um Gabriel, nosso cozinheiro se chama Gabriel. Outro dia tinham borboletas voando aqui", expõe Antonio, afirmando que, em breve, mais referências ao escritor farão parte do local.
Aberta de segunda a sexta-feira, das 10h às 20h, a operação recebe eventos particulares aos sábados. A ideia, segundo o empreendedor, é realizar lançamentos de livros no local. Além de cafés, o cardápio conta com opções de chopes, espumantes e vinhos. No almoço, são servidos pratos executivos com valor em torno de R$29,00.
Com poucas semanas de funcionamento, Antonio planeja aprimorar alguns pontos que não ficaram prontos em tempo da inauguração. Na fachada do espaço, pretende colocar uma placa onde, semanalmente, serão colocadas diferentes frases de Gabriel García Márquez.

'Só boa comida não para em pé'

O chef gaúcho Marcos Livi aposta na relação entre gastronomia e literatura desde 2007, quando abriu, no bairro Brooklin, em São Paulo, o Verissimo Bar (rua Flórida, nº 1.488). Em 2013, ele repetiu a receita, na mesma região, ao inaugurar o Quintana Bar (rua André Ampére, nº 151). Na entrevista a seguir, ele diz que sua intenção é homenagear os artistas. E avisa: se não houver verdade, o negócio não se sustenta.
GeraçãoE - De onde vem essa tendência de unir gastronomia e literatura?
Marcos Livi - Antigamente, tudo se decidia na mesa de bar. A gente derrubou e elegeu presidentes, criou os grandes versos da música, tudo no bar. Então, trata-se de um resgate dessa cultura.
GE - Como foi a tua experiência de investir nessa relação?
Livi - Só a gastronomia - boa comida, boa bebida, bom serviço, bom atendimento - não para em pé. Então, eu trouxe um elemento que era muito importante: conteúdo para dentro da minha atividade. Além, claro, de ser apaixonado por Luis Fernando Verissimo e Mario Quintana. Mais do que comer e beber, os lugares te remetem a eles.
GE - Que experiência é proporcionada aos visitantes?
Livi - Você vê um cliente se conectando a Luis Fernando Verissimo através da leitura de charges, livros, fazendo um caça-palavras do Mario Quintana. Alimentamos as pessoas de cultura. Está na decoração, no cardápio, que, no lugar de "entradas", está escrito Velhinha de Taubaté. As sobremesas são chamadas de Orgias. Está na bolacha de chope, nas estantes, nas frases nas paredes, no jogo americano, na escada com degraus com os títulos das obras.
GE - Qual o tipo de público que frequenta um estabelecimento literário?
Livi - Você tem dois públicos: o que vai como consumidor e o que se identifica com a proposta e com o propósito. No Verissimo, há o Luis Fernando Verissimo como músico também. Aí, entra o jazz como referência. Vai além da obra. A clientela participa da vida do artista, pois a gente traz elementos do cotidiano dele, e as coisas se conectam.
GE - Qual a receita para um negócio temático dar certo?
Livi - Não digo que sou temático, digo que estou homenageando os artistas, pois quero fazer uma conexão entre essas coisas. Na hora que coloco um nome em um bar só para ter história, não sei se não vão faltar elementos. Nossa força está na homenagem, em ir além. Os cafés evoluíram demais: hoje é coworking, hub, espaço democrático, de convívio. Tudo isso é muito forte, mas só tem verdade se o time que está lá dentro também sabe o porquê. Se não tiver o propósito, você não chega lá.
GE - E como fazer com que a equipe entre no clima?
Livi - Temos professores de literatura treinando a galera. Além disso, fazemos eventos e promovemos saraus.

Alice no País das Maravilhas dá vida à estabelecimento da Capital

Sócias tiraram do papel o plano de empreender na gastronomia com espaço dedicado à literatura e aos próprios sonhos

Pausar a realidade e entrar em um mundo de fantasias. É essa a tônica da clássica história de Alice no País das Maravilhas, escrita por Lewis Carroll. Para as advogadas e empresárias Paula Brum e Naiá Mânica, 46 e 37 anos, sócias do Café Cedinho, o processo foi exatamente o contrário: uma fantasia que se tornou real. Após 20 anos idealizando abrir uma cafeteria retrô em Porto Alegre, a dupla encontrou no bairro Cidade Baixa (Travessa Comendador Batista, nº 5) um lugar para tirar as ideias do papel e inaugurar o estabelecimento, que remete à fábula.
Com diversos relógios, frases da história espalhadas pelas paredes, chapéus coloridos e xícaras decoradas da coleção pessoal de Paula, o café tem o objetivo de imergir o cliente no mundo de Alice. "O Cedinho nasceu vinculado ao tempo e ao sonho", afirma Paula.
A ideia de transformar o negócio em um café com a temática do mundo das maravilhas não tem tanta relação pessoal com as empreendedoras. Surgiu com o auxílio do artista plástico catarinense Luciano Martins e por uma decisão estratégica de negócio. "É uma história muito ligada ao encantamento", opina a sócia.
As referências à Alice estão, ainda, no cardápio, com nomes pensados para remeter à história, e na cartela de bebidas. O drink Lagarta Azul, inspirado no personagem que aconselha Alice em relação ao seu tamanho, faz sucesso entre os frequentadores. "Além disso, todas as quartas-feiras, fazemos um chá próprio da casa, bem aromático, e montamos uma mesa para os clientes", conta a empreendedora.
O imóvel que abriga o Cedinho é uma casa antiga, considerada um "achado". Orgulhosas, elas destacam que a reforma e montagem do espaço foram feitas integralmente por elas. "Somos frequentadoras de café. Trouxemos as nossas referências para cá", afirma Paula.
Até mesmo os pratos foram pensados de acordo com as próprias experiências, pontua Naiá, que também teve a ideia de decorar o balcão de doces e salgados com livros que ficam disponíveis para leitura.
Para deixar o negócio pronto para receber os amantes de café e literatura, o investimento foi de R$ 350 mil. Aberto no dia 1º de outubro, as sócias afirmam que estão "testando o terreno" nesta primeira empreitada gastronômica, que conta com seis funcionários. Conforme destaca Paula, o bairro Cidade Baixa é repleto de cafeterias e espaços gastronômicos, mas, mesmo assim, a concorrência não é algo que dê medo, pois elas confiam no diferencial do Cedinho.
Na lista de projetos futuros, está prevista a abertura do segundo andar com espaço para projetos e saraus. Assim como na história da Alice, as empreendedoras entram no mundo das maravilhas e, mesmo travando diversas batalhas na jornada, desistir não é uma opção. O Café Cedinho abre de terças-feiras a domingos a partir das 12h.
 

Isadora Jacoby, Mauro Belo Schneider e Vitorya Paulo

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