A Implicantes é toda administrada por negros, e fica no bairro Anchieta Parentes e amigos dão a tônica da primeira cervejaria do Brasil gerenciada somente por negros Foto: LUIZA PRADO/JC

Cerveja ainda é um bom negócio?

Na última década, a produção artesanal de bebidas cresceu. Veja quem segue inovando no mercado

Muito já se falou sobre cervejarias. Também pudera, em 10 anos, conforme a Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva), o número de negócios enquadrados nessa categoria passou de 70 para 700. Para se destacar no meio, portanto, é preciso ter um diferencial. Na Implicantes, lançada em novembro passado, em Porto Alegre, o que atrai o público é o conceito: fundada e gerenciada somente por negros.
A proposta da empresa é resgatar figuras históricas, bem como a ancestralidade do povo nos rótulos das latas. Iniciativas como essa incentivam o Black Money (dinheiro circulando entre pessoas negras).
A fábrica, no bairro Anchieta, promove uma imersão cultural, com quadros e elementos decorativos reforçando africanidades. A programação do espaço, que abre ao público para eventos, é divulgada nas redes sociais.
Os irmãos Dias - Diego, 32 anos, e Daniel, 29 - são os idealizadores do projeto. Há anos faziam cerveja por diversão, até que a veia empreendedora falou mais alto. Diego, designer gráfico de formação, se juntou a Daniel, já mestre cervejeiro, ao primo Thiago Rosário, 31, e ao amigo Andrés Amorim, 28. "A pegada é bem familiar", orgulha-se Diego.
A cervejaria apresenta duas linhas. Há a Malungo, que aposta em figuras como Luís Gama (patrono da Abolição da Escravidão do Brasil), e a Remake, que aposta, principalmente, na linguagem dos jogos. Essa última ganhou as versões honey ale e india pale ale (com hibisco e goiaba).
"A representação dos negros sempre foi caricata e pejorativa porque, simplesmente, nomeava uma cerveja escura com, por exemplo, o nome de um jogador de basquete. Entende como é raso?", questiona Diego.
Embora a marca trabalhe com uma proposta segmentada, o setor é bastante competitivo - o que, para os empreendedores, torna-se algo positivo. "Nosso relacionamento é de parceria com as outras microcervejarias. A competição é meio desleal com as grandes indústrias, então o clima é de união", complementa Daniel.
Se há essa relação de companheirismo entre quem atua no ramo, também existe uma peculiaridade no perfil da clientela.
"Nosso cliente é fiel e exigente na mesma proporção. Lidamos com pessoas que entendem do que estão tomando e buscam experiências novas. Por isso nos dedicamos desde a produção até a venda", salienta Thiago.
Além da união de talentos, a Implicantes (@implicantesmc) resulta de diversas tentativas e análises. Conforme Diego, os estudos ocorreram até fora do Brasil. "Eu e minha esposa viajamos para a Europa, queríamos descobrir o que o pessoal estava fazendo por lá. Trilhamos um verdadeiro tour cervejeiro", detalha.
Os sócios tentaram de tudo um pouco quando se trata de cerveja. "Erramos bastante até encontrar as fórmulas que consideramos satisfatórias e que tinham nossa cara. Olhando, agora, valeu cada segundo", completa.
O crescimento de faturamento da Implicantes, em cinco meses, foi de 30%. A produção inicial foi de 2 mil litros por mês e, atualmente, está em 5 mil litros. A expectativa é que, em breve, alcance o volume de 10 mil litros mensais.

O momento de abrir um novo empreendimento

Michelle e Fernanda começaram a vender suas produções em um tuktuk. Hoje, preparam outra novidade Michelle e Fernanda começaram a vender suas produções em um tuktuk. Hoje, preparam outra novidade Foto: /MARCO QUINTANA/JC
A percepção de que poderiam vender mais foi o que norteou os novos caminhos de Fernanda Nascimento e Michelle Ferraz, donas da Cervejaria Macuco, criada em 2016. Das feiras de rua, a necessidade de ter estoque e uma câmara fria impulsionaram a abertura de um espaço próprio na tranquila rua General Auto, nº 267, no Centro Histórico de Porto Alegre, em 2017. Hoje, três anos após os primeiros passos, elas seguem firmes e prontas para inaugurar um segundo empreendimento: o Praia Burger - focado em lanches -, no imóvel vizinho da atual unidade.
O ponto físico da Macuco chama atenção por ser um bar de cervejas e lanches. "Planejamento estratégico sempre foi pensado e analisado bem, e o Praia é aqui do lado. Se seguir a pintura da nossa fachada, tu chegas nele", justifica Fernanda.
A Macuco orgulha-se em ser uma cervejaria totalmente gerenciada por mulheres. Todas as etapas, desde a produção até a entrega, são feitas exclusivamente pela dupla. Elas atendem, limpam, servem, pensam no marketing, organizam os eventos e tudo mais que se possa imaginar. Fernanda conta que, às vezes, ficam 16 horas seguidas na ativa e nem percebem o cansaço.
Do começo, no pequeno tuktuk - que agora são dois, mas só para os fins de semana - até o bar, o trabalho foi intenso, mas recompensador. "As pessoas pensavam que iríamos fechar, nossos clientes acreditavam nisso por estarmos aqui na rua General Auto. Mas criamos nosso segundo empreendimento", celebra Michelle.
A General Auto não tem muitas opções de comércio e nem é passagem concorrida para o Centro Histórico. Fernanda e Michelle, no entanto, acreditam que a tônica exata deu charme e trouxe fidelidade ao público do entorno.
"Viramos referência aqui na parte baixa. Vem desde o grupo de gurias que quer um lugar reservado para se sentir à vontade até o neto com o avô para dividir uma garrafa e algumas histórias", complementam-se.
No ramo, em que muitas pessoas entram por hobby, Fernanda e Michelle já viram dezenas de cervejarias de amigos abrirem e fecharem. O fato de a Macuco continuar prosperando, para elas, tem a ver com a entrega emocional, de trabalhar com o coração. A previsão de abertura do Praia Burger é até o fim deste mês de maio.

A 4beer expande e inaugura primeira franquia na Zona Sul da Capital

Em formato de contêiner, espaço repetirá fórmula que deu certo no bairro São Geraldo, na Zona Norte Em formato de contêiner, espaço repetirá fórmula que deu certo no bairro São Geraldo, na Zona Norte Foto: /MARCELO G. RIBEIRO/JC
Desde 2015 no mercado gaúcho, a 4beer – Cerveja & Cultura, investe, agora, no modelo de franquias, o que mostra que o interesse pelo consumo da produção artesanal segue em alta. E a primeira unidade, um contêiner, está em fase de abertura na avenida Wenceslau Escobar, 2075, no bairro Tristeza, em Porto Alegre.
O encontro dos donos da cervejaria Diefen - os irmãos Rafael e Daniel Diefentähler - com os amigos Caio de Santi e Cristiano Santos foi o início de tudo. Cristiano e Caio, sócios num escritório de arquitetura, também eram amantes da bebida. A cerveja que criaram, a Polvo Loco, chegou a vencer o Concurso Nacional das Acervas como melhor stout. O quarteto, então, quis montar um local para comercialização das marcas. O bairro São Geraldo foi o escolhido para sediar o primeiro empreendimento. Ali, 34 torneiras de chope saem direto da câmara fria da cervejaria.
“Desde que abrimos, só apresentamos crescimento”, expõe Cristiano. O segredo do sucesso, segundo os sócios, está na simplificação de processos sem perda de qualidade, local de venda direta ao consumidor e um ambiente descontraído. “Na 4beer ninguém se sente desconfortável pela roupa. Isso parece bobo, mas é um grande diferencial”, explica Caio.
Entendendo ser o momento de alcançar novas perspectivas, os sócios investiram na capacitação do modelo de franchising disponibilizado pelo Sebrae. Rafael comenta que a profissionalização será uma vantagem da decisão, já que muitos empreendedores do ramo não têm visão ampla para negócios ou entram simplesmente por gostarem de consumir o produto. “Aprendemos a entregar para o nosso franqueado uma intersecção das duas visões”, coloca.
O contêiner da Wenceslau contará com cardápio de hambúrgueres, pratos e petiscos. Haverá promoções especiais em dias de jogos da dupla Gre-Nal e música ao vivo em eventos.
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