Atraído pela picanha

Minha avó paterna foi separada da família antes de seu primeiro ano de idade. Acabou sendo criada por pessoas maravilhosas, mas que não a adotaram "de papel passado", como costuma dizer. Graças a isso, o sobrenome foi conservado e pudemos encontrar nossos parentes biológicos pelas redes sociais, que há algumas décadas trocaram o Rio Grande do Sul por São Paulo. Até que um dia acabamos nos conectando no Facebook e, após algumas conversas, chegou a seguinte mensagem: "primo, estou indo!". Que rolê fazer em Porto Alegre com uma pessoa que mal conhecia? A sugestão foi dele: o Mercado Público.

Quando meu pai falou que o Edson, 58 anos, estava chegando, eu nunca havia conversado com ele. Foi uma grata surpresa. Nos primeiros 20 minutos de diálogo, ele se encarregou de falar pelos 17 anos que à época eu tinha, e não havia estado presente. Eu absorvi. Pensem em uma figura inteligente, cheia de vida e dona de uma personalidade forte, militante. Trocamos muita informação, aprendemos muito - e sofremos na mesma intensidade por um S.C Internacional que vivia o momento de maior turbulência da sua história. Em um dos nossos passeios, fomos ao Mamma Julia, no Mercado. Um amigo do Edson havia recomendado a picanha do local há muitos anos. Ele nunca esqueceu. Saímos pelo Centro, mostrei alguns pontos e depois partimos para o almoço. Que dia bonito! Passou mais rápido do que deveria. Toda vez que passo pelo Largo Glênio Peres e vejo o Mercado, recordo da contente simplicidade daquela jornada. Nunca mais nos vimos. Nunca mais comi a picanha do Mamma Julia também. E, graças ao lugar que é cartão postal da cidade, nunca mais pude esquecer que singelos olhares podem trazer cargas intensas de nostalgia e saudade.

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