Beto criou a Panda depois de voltar da Europa inspirado, em 1996, e uma de suas coproduções épicas é O Tempo e o Vento, que deu visibilidade a Bagé Beto criou a Panda depois de voltar da Europa inspirado, em 1996, e uma de suas coproduções épicas é O Tempo e o Vento, que deu visibilidade a Bagé Foto: /MARCELO G. RIBEIRO/JC

Produção cinematográfica está em alta no Rio Grande do Sul

Panda Filmes aposta no crescimento do mercado audiovisual e prepara duas séries

O início do ano é marcado por algumas das premiações audiovisuais mais famosas do mundo, como Globo de Ouro, Bafta e, sem dúvida, a mais conhecida, o Oscar. O setor, além de glamuroso, envolve muito profissionalismo e tecnologia. No Rio Grande do Sul, sede do Festival de Cinema de Gramado, há quem dedique uma vida toda para que o que é criado aqui impacte o maior número de pessoas possível.
O mercado audiovisual, aliás, engloba outras plataformas além do cinema, diz Beto Rodrigues, sócio-diretor da Panda Filmes, de Porto Alegre. A indústria gaúcha, segundo ele, cresceu muito depois que cursos de graduação começaram a se espalhar pelo Estado, com início em 2003, na Unisinos. "Hoje, tem oito ou nove. Isso é sinônimo de que se tornou um setor econômico muito ativo, gerando emprego e renda, o que estimulou as universidades", defende.
A Lei nº 12.485, que regulamenta a programação da TV por assinatura, ampliou a produção brasileira. "Cria-se uma produção de valor simbólico, com identificação de valores brasileiros", prossegue. A Panda, fundada em 2002, acompanhou a evolução do segmento. "Naquele período, a gente falava, em primeiro lugar, em cinema e nem pensava em fazer série de televisão, porque as emissoras produziam todo o seu conteúdo", recorda.
Atualmente, Tatiana Sager (sócia de Beto) e o jornalista Renato Dorneles editam a série Retratos do Cárcere, do canal Box Prime Brasil, derivada do documentário Central - O poder da facção no maior presídio do Brasil. "Esse conceito de cinema se desenvolveu mais nesse espectro chamado audiovisual, porque as linguagens estão trafegando por vários canais de circulação", justifica.
Entre os próximos lançamentos da produtora, há destaque para a presença da temática social, já que um projeto de documentário sobre empoderamento de mulheres indígenas acabou de ser selecionado em um edital. "A gente quer comunicar à sociedade temas que tenham um significado", expõe o empreendedor.
Beto desmistifica o preconceito de que os editais públicos que financiam as produções tirem recursos de hospitais e escolas. "O dinheiro que entra no audiovisual retorna imediatamente para a sociedade. Temos que fazer compras em supermercado, lojas de roupas, empresas de transportes. E gera impostos", pondera. Além disso, complementa que a maioria dos valores advém do Fundo Setorial Audiovisual, cujos recursos são da própria arrecadação obtida no setor. "Agora, existem muito mais editais que em 2002. Mas nunca é suficiente para a demanda", explica.
Beto teve um olhar visionário quando decidiu atuar no ramo, há 17 anos. Autodidata na sétima arte, começou a trabalhar no setor no final da década de 1980. "Percebi que trabalhando para outras empresas eu não tinha controle dos processos como acreditava que deveriam ser feitos. O uso dos recursos com muita parcimônia, planejamento", lembra. Em 1994, ganhou uma bolsa para fazer uma pós-graduação na Espanha e retornou em 1996, de acordo com ele próprio, com "outra cabeça", a partir da observação da organização do cinema europeu. Passou por outras duas produtoras, demorando ainda seis anos até abrir a Panda. "Vi que precisava criar a minha produtora e, desde então, ela vem se consolidando como uma referência nacional e internacional", avalia.
O empreendedor orgulha-se do portfólio do negócio. Já coproduziu 17 longas-metragens, entre eles, o épico O Tempo e o Vento. "A gente construiu uma cidade cinematográfica dentro do parque de Bagé com 19 edifícios, que foi doada ao município e nos primeiros meses recebeu mais de 15 mil turistas", comemora.
"Demos um retorno para a sociedade, aliás um retorno de imagem para Bagé. O audiovisual estimula a indústria do turismo", acrescenta.
Para Beto, o Rio Grande do Sul figura ainda como terceiro no polo de audiovisual do País (Rio de Janeiro e São Paulo lideram o ranking), embora outros estados estejam oferecendo melhores contrapartidas para a indústria cultural. A classificação vai de encontro com uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira da Produção de Obras Audiovisuais (APRO) e pelo Sebrae, divulgada em 2016, que mapeou o impacto econômico do setor audiovisual no Brasil.
Conforme o estudo, no período entre 2008 e 2015, o Estado lançou 38 filmes, o que confirma a posição. Para alcançar as primeiras colocações, no entanto, vai demorar. O número equivale a 4,7% do total nacional, contra 42,9% do Rio e 36,1% de São Paulo.

Sofá Verde: uma parceria que nasceu na faculdade e foi parar nas telonas

Lucas e Henrique são sócios em produtora que  tenta se firmar no mercado Lucas e Henrique são sócios em produtora que tenta se firmar no mercado Foto: /MARCELO G. RIBEIRO/JC
Os colegas do curso de Produção Audiovisual da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Pucrs) Arno Schuh, Henrique Shaeffer e Lucas Cassales abriram a produtora de filmes Sofá Verde no fim de 2010, meses depois da formatura. Em 2014, se juntou ao time Alice Castiel, que também estudou na universidade. A empreitada conquistou, recentemente, uma verba para a produção de seu primeiro longa-metragem.
Os quatro dividem as funções na empresa com trabalhos paralelos em outras produtoras. Segundo Lucas, o aprendizado adquirido ao longo de oito anos contabiliza alguns tropeços. "Fizemos uma série que não saiu, gravamos shows que não foram pagos até hoje. Tudo na inocência", lembra. "Tem que fazer contrato, mesmo que seja com teus amigos."
Ele salienta que o mercado específico para o ramo das telas necessita do auxílio de editais públicos para acontecer e que, hoje, o cenário é melhor que na época da abertura da empresa. "Em termos de Estado, não tinha nada. Tinha o Fumproarte, que, em algum tempo, se canalizava. O fundo setorial melhorou. Existem muitas faixas, desde desenvolvimento, capitalização, pós-produção etc.", avalia.
Com um orçamento de R$ 500 mil, considerado baixo para fazer um longa-metragem, a produtora lançará, neste ano, seu primeiro filme do gênero: Disforia, uma coprodução com a Epifania Filmes e dirigida por Lucas. Outra novidade para 2019 é uma série dirigida por Gabriel Motta, que deve estrear na televisão em 2020.
O nome Sofá Verde tem origem lúdica e data do terceiro semestre da faculdade. "Foi um sofá que pegamos no Mensageiros da Caridade (loja de móveis usados). Fizemos um curta (Ruído) e voltamos a utilizar no quinto semestre e em outras produções", explica. O item verde (óbvio) estragou depois de um tempo e acabou descartado. Outra herança da Pucrs é a parceria formada entre os sócios, que ultrapassou os sets. Por isso, para quem quer investir na área, Lucas pensa valer a pena a formação acadêmica. "Mais importante que ter o curso é a questão de encontrar um grupo. Sozinho é muito difícil de se encaixar", reflete.

Avante Filmes alcança algo muito almejado: atenção internacional

O longa Tinta bruta, de Filipe e Marcio, foi premiado no Festival de Berlim O longa Tinta bruta, de Filipe e Marcio, foi premiado no Festival de Berlim Foto: /FREDY VIEIRA/arquivo/JC
O filme gaúcho Tinta bruta foi o grande vencedor do Festival de Cinema do Rio em 2018, saindo com quatro prêmios (melhor filme, roteiro, ator e ator coadjuvante). O longa-metragem havia conquistado, ainda, no início do ano passado, duas estatuetas no Festival de Berlim. Dirigido por Filipe Matzembacher, 30 anos, e Marcio Reolon, 34, o drama foi exibido nas salas de cinema brasileiras e ao redor do mundo. Depois de ser lançado na Polônia, na Alemanha, na Áustria e na Suíça, chegará, em breve, à França, à Bélgica, ao México, aos Estados Unidos, ao Canadá, a Porto Rico, a Portugal, ao Reino Unido e à Austrália, entre outros países.
SINNY ASSESSORIA/DIVULGAÇÃO/JC
Filipe frisa que as produções nacionais têm mais facilidade de fazer bilheteria no exterior que no circuito interno. "Infelizmente, no Brasil, existe um descaso com o próprio cinema, reflexo de muitas coisas: falta de conhecimento e de noção da importância de consumir a própria arte", lamenta. "Seria essencial, assim como aprendemos o nome de pintores importantes, saber vários diretores da história nacional", complementa.
O caminho até alcançar voos mais altos exigiu da dupla que passasse por um processo de autoconhecimento. "Levamos anos até entender o que seria a Avante. Como conseguiríamos equilibrar o que sentíamos necessidade da fazer com a estrutura que tínhamos", explica.
A Avante foi fundada no primeiro trimestre de 2010, depois de os sócios se conhecerem na Pucrs. A primeira formação foi alterada e, atualmente, além do casal, Germano de Oliveira completa o time. Filipe considera a universidade um espaço de networking.
"Se existe a possibilidade de cursar a faculdade, tem que fazer. Será um processo que vai ajudar no conhecimento teórico, prático, a lidar com a equipe. Quando entrar de fato no mercado já vai ter essa experiência", recomenda.
Os primeiros filmes, há oito anos, foram curtas-metragens. Logo, partiram para a televisão. Também realizaram o festival de cinema Close, de diversidade sexual. O primeiro longa-metragem, Beira-mar, de 2015, foi um marco na carreira da produtora, pois, além de consolidar o nome em nível mundial, fortificou a ideia de empreender. O orçamento das filmagens foi enxuto - apenas R$ 7 mil -, e a pós-produção foi possível através de dois editais, um municipal e outro estadual.
"Foi um processo bem intenso. Tínhamos uma estrutura de produção muito pequena. Contando os atores, eram 12 pessoas na equipe. Concebemos um filme dentro da estrutura que tínhamos. Poucas locações, poucos atores. A estética é naturalista, o que facilitou", analisa. O filme fez carreira em festivais, salas e permaneceu em cartaz por dois anos na plataforma Netflix.
Para Filipe, uma das dificuldades de trabalhar na área é a localização geográfica do Rio Grande do Sul. Uma maneira de contornar o fato de estar afastado do eixo Rio-São Paulo é através do diálogo de produção, que possibilita uma conexão global. O diretor acentua que o Brasil vive um momento incrível no audiovisual, com pluralidade de diretores, diretoras e diferentes histórias sendo retratadas.
Em um ano e meio, pós-ressaca de Tinta bruta, outro longa deve estrear com o selo da dupla. "Quem trabalha com arte sabe, é muito trabalho, muitas horas por dia", esclarece. Mas o retorno dos espectadores ajuda a propulsar o processo criativo. "Isso é o resultado de sermos o mais honesto possível quando estamos fazendo um filme", acredita Filipe, sobre o número de mensagens de apoio que recebe.
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