Mauren Veras, cartunista e ilustradora, percebe que quem cria um negócio após ter filhos entende melhor as demandas do público que passa pelo processo de educar indivíduos Mauren Veras, cartunista e ilustradora, percebe que quem cria um negócio após ter filhos entende melhor as demandas do público que passa pelo processo de educar indivíduos Foto: CLAITON DORNELLES /JC

Mães que pensam em outras mães

Não se sinta sozinha na maternidade. Há pessoas com produtos e serviços para lhe dar suporte

Quem é mãe, certamente, já ouviu de uma avó ou de uma tia mais velha a frase "no meu tempo não tinha nada disso". O espanto vale para cadeirinhas de embalar bebês ou para tapetes de atividades lúdicas. Ao longo dos anos, a indústria voltada para a maternidade e para os primeiros anos de vida da criança criou inúmeros produtos a fim de facilitar esse período. É claro que muitas inovações são importantes e ajudam, de fato, a rotina de mães e filhos. A enxurrada de novidades, no entanto, gera necessidades nem sempre verdadeiras.
Para balizar o que é realmente útil, as mães empreendedoras estão na contramão da indústria. Criam produtos e, principalmente, uma rede de apoio que ressignifica sua visão sobre a maternidade.
A rotina pós-parto virou tema de trabalho de Mauren Veras, 39 anos. A cartunista, mãe do Elvis, 4 anos, e Ramona, 1, trabalhava com marketing digital e produção de conteúdo. Em 2013, pediu demissão. Foi, justamente, em um período de desemprego que soube que estava grávida pela primeira vez. "Me deu um negócio. Eu tinha um estilo de vida muito diferente antes de engravidar. Sempre desenhei, mas estava um pouco parada." A mudança de horizontes veio em 2017 com a oportunidade de ter um espaço semanal em um jornal do Estado.
"Fiquei pouco mais de um ano com essa coluna e peguei para mim o viés da maternidade", conta.
Em sua página no Instagram (@maurenveras), compartilha desenhos de humor que versam sobre os mais variados temas. Entre eles, escola, birra dos pequenos, preocupações e vida sexual.
Mauren Veras/Divulgação/JC
"A gente vê a Sabrina Satto plena, linda, diva, saindo da maternidade, e a gente ali toda estrebuchada, acabou de sair de uma cesárea. Tem esse lado romantizado, mas também tem gente desconstruindo a maternidade. Gera mais identificação", compara.
Em 2018, Mauren viu uma outra possibilidade de unir a maternidade e o desenho: publicou o seu primeiro livro infantil. "Fiz para ajudar o desfralde do Elvis. Embora seja um processo da criança, eu queria ajudá-lo de alguma maneira. Há tantos livros que as ajudam a superar etapas, então resolvi criar os desenhos para essa."
Quando terminou a obra, publicou nas suas redes sociais e o material viralizou. "O Elvis estava viajando, por isso consegui produzir rápido. O público materno que eu já tinha compartilhou de um jeito absurdo. O livro chegou em muita gente", conta.
Mas, como diz o ditado, em casa de ferreiro, o espeto é de pau. "O Elvis voltou de férias, leu o livro e nada de desfraldar. Ajudei um monte de criança pelo Brasil, recebi mensagens de muitas mães contando que os filhos desfraldaram depois de ler o livro. Fiquei muito comovida e muito pilhada para continuar criando histórias que ajudem mães e crianças a passar etapas", conta Mauren. Agora, ela está produzindo sua segunda publicação, dessa vez sobre o momento de largar a chupeta. "Estou sempre acompanhando a evolução dos estágios dos meus filhos e as mães gostam de coisas que ajudem", interpreta.
Depois do sucesso na internet, o livro ganhou uma versão física, publicado pela Much Editora. Aí há outro detalhe coeso: a editora é comandada por uma mãe e só publica livros feitos por mulheres. Essa rede é, para Mauren, fundamental para que outras mães consigam se reinventar.
"O mercado artesanal está crescendo e as pessoas estão se juntando para formar parcerias. As mulheres engravidam e não querem voltar para o trabalho que elas estavam antes, entrando às 9h e saindo às 18h. A maioria esmagadora faz isso porque precisa. Mas vejo muitas buscando um outro caminho, que é o de empreender", aponta Mauren.
Ser mãe e fazer conteúdo para outras mães e crianças é uma vantagem, acredita a cartunista. "Entendemos melhor a necessidade real. As crianças gostam muito do meu livro porque uso uma linguagem simples. Se eu não fosse mãe, acho que não saberia conversar com essa criança. A gente é o nosso próprio público", justifica.
Mauren Veras/Divulgação/JC

Brinquedos para desenvolver a criatividade

Michele Stahl produz bonecas de pano com as características da criança Michele Stahl produz bonecas de pano com as características da criança Foto: /Arquivo Pessoal/Divulgação/JC
A ideia de criar brinquedos artesanais veio de uma necessidade enquanto mãe. Michele Stahl, 31 anos, faz artesanato desde sua infância. Crochê, tricô e bordado sempre foram atividades complementares para ela, que atuava como Instrutora de Elétrica e Eletrônica no Senai. Em 2012, optou por colocar o artesanato em primeiro plano na sua carreira profissional.
Arquivo Pessoal/Divulgação/JC
O nascimento da filha Antônia, em 2015, foi o estopim para usar as técnicas que já conhecia há tantos anos. "Quando a Antônia nasceu, procurei brinquedos e brincadeiras que entretecem ela e eu pudesse costurar. Comecei a fazer brinquedos e, conforme ia divulgando, as encomendas cresciam nessa área", conta.
Atualmente, estão entre as suas principais produções as bonecas de tecido personalizadas com as características da criança e os brinquedos de colorir e lavar. "São muitas possibilidades de desenhos e acaba se tornando um brinquedo com duas funções: pintar com canetinhas e depois lavar. Muitas crianças levam para lavar no banho."
Segundo a artista têxtil, os brinquedos artesanais proporcionam que a criança desenvolva mais a criatividade, a coordenação motora e o tato, já que ela entra em contato com diferentes texturas.
As ideias na hora de criar os produtos surgem muito da relação com a filha. "Meus produtos foram se desenvolvendo e ampliando conforme a Antônia foi crescendo", conta.
Além de ser uma fonte de criatividade, a maternidade é também um diferencial para a confecção de produtos destinados a crianças.
Para Michele, no entanto, é essencial buscar ajuda para garantir que o brinquedo seja adequado para cada faixa etária. "Faço produtos que sejam úteis e seguros para minha filha. Quando se trata de criança, isso está sempre em primeiro lugar. Mesmo sendo mãe e tendo em casa com quem testar os produtos, quando estou montando algo novo, procuro ajuda de psicopedagogas para ter certeza sobre a faixa etária ideal do produto e se ele é confiável", explica.
Na contramão da indústria, as peças de Michele são feitas à mão e respeitando o processo artesanal. Além disso, ela acredita que fazer um item manualmente é uma oportunidade de sempre oferecer algo exclusivo para a clientela.
"Quando a gente compra de um artesão, valoriza a mão de obra. Além de ter um produto exclusivo, já que mesmo que eu quisesse fazer duas peças iguais, elas não seriam exatamente idênticas. Todo processo é manual e abre oportunidade de fazer um produto personalizado pelo cliente."

Empreendedoras de Pelotas criam marca de objetos funcionais

Graciela e Fernanda, da MiniDini, produzem soluções para o dia a dia Graciela e Fernanda, da MiniDini, produzem soluções para o dia a dia Foto: /MiniDini/Divulgação/JC
A decisão de empreender chegou para Graciela Dietze, 40 anos, e Fernanda Bortolini, 38, no mesmo momento que para muitas mães: após o nascimento dos filhos. Colegas de trabalho, as sócias atuavam como auditoras. A jornada pouco flexível fez as pelotenses repensarem as suas carreiras. "Após nos tornarmos mães, vimos no empreendedorismo a chave para termos mais tempo com os filhos. Sendo colegas de trabalho, migramos nosso olhar de auditoras para a busca de melhorias e inovações na rotina atribulada com eles", conta Fernanda. Foi, então, que criaram a MiniDini, que completa seis anos em novembro. O objetivo dos produtos desenvolvidos pela dupla é proporcionar mais tempo de qualidade entre as mães e as crianças. "Cada solução é criada pensando em diminuir o caos que insiste em fazer parte da maternidade e da rotina com os filhos."
Os produtos mais queridos pelas mamães clientes da marca são, segundo elas, o Kit Xô Cadeirão, que custa R$154,90. Trata-se de uma almofada para transformar uma cadeira normal em um assento propício para alimentação da criança. A NanaDini, almofada para não deixar a cabeça cair durante as sonecas no carro custa R$69,90. E a AgarraDini, faixa para segurar o bebê em cadeiras de restaurante, carrinhos de supermercado e onde mais precisar, R$49,90. Mais que empreendedoras, elas se consideram mães inventoras. "Acima de qualquer outra coisa, nossos produtos são desenvolvidos a partir das nossas dores diárias como mães, o que nos faz ter muita precisão no design, material, função e praticidade. Além disso, primamos pelo uso de matérias-primas e mão de obra nacionais." As gaúchas vendem para todo Brasil. A maior procura pelos produtos da MiniDini é em São Paulo, seguido pelo Rio de Janeiro, Brasília e, então, o Rio Grande do Sul. 
As sócias criaram recentemente um movimento intitulado AMOR, -CAOS, com o objetivo de ajudar outras mães a ter equilíbrio na vida atribulada que chega com a maternidade. "O AMOR aborda o que consideramos os quatro pilares fundamentais para a mulher: vida pessoal, a dois, profissional e tempo com os filhos. Tudo isso porque acreditamos, cada dia mais, que mãe feliz é sinônimo de filhos felizes", acredita Fernanda.
Fê e Graci afirmam que tocar o próprio negócio não é fácil, mas a empreitada vale a pena para estar mais perto dos pequenos.
"Como empreendedoras temos mais tempo para acompanhar o crescimento deles de perto. Não que seja fácil empreender, mas conseguimos ter muito mais flexibilidade com nossos horários. Além disso o nosso movimento AMOR, -CAOS nos conecta, diariamente, com outras mães que vivem as mesmas angústias, dilemas e felicidade que nós, tornando a maternidade muito mais completa."
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