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Uma vida dedicada ao solo



Trabalho de Klamt mapeou e corrigiu solos em diferentes ecossistemas
CRÉDITO: Egon Klamt/arquivo pessoal/jc
Cristine Pires
Mesmo que as terras vermelhas da região das Missões fossem a estrada trilhada pelo filho de agricultores para chegar à escola municipal do Interior, foram sucessivos acontecimentos que levaram Egon Klamt a ter uma relação mais do que estreita com o solo, tema que marcou sua vida profissional. Ao contrário da maioria dos colegas do ensino básico que tiveram a oportunidade de continuar os estudos, Klamt percorreu caminhos que na época sequer imaginava serem possíveis. O professor titular aposentado do Departamento de Solos da Faculdade de Agronomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) deu os primeiros passos nessa direção nos anos 1950, quando a prefeitura de Ijuí criou o Imerab - Instituto Municipal do Ensino Rural Assis Brasil. Para garantir que o instituto decolasse, cada professor da rede municipal foi convidado a indicar dois candidatos para iniciar o curso. "O professor da minha escola conseguiu apenas um candidato, que era eu", recorda.
Assim, ele concluiu, em 1957, em primeiro lugar, o curso que lhe conferiu o título de professor rural. Tão logo houve a cerimônia de formatura, veio o convite da Secretaria de Ensino Municipal para assumir a Escola Antônio Setembrino Lopes, na Linha 22 Norte na cidade de Ijuí. "Foi uma experiência fantástica e trabalhosa, já que era necessário atender aos alunos do primeiro ao quarto ano simultaneamente", conta, sem disfarçar a satisfação de conviver com as crianças e suas famílias que tinham as mesmas origens que as suas.
Apesar da experiência positiva e da bagagem adquirida, não era exatamente aquele o rumo que Klamt planejava para sua vida. Daí veio a ideia de buscar informações sobre a Escola Técnica de Viamão (ETA), na qual ingressou em 1959. A conclusão do curso, no entanto, aconteceu apenas em 1962. É que, no meio do percurso, os estudos foram interrompidos para não perder a oportunidade de realizar estágio em uma propriedade rural na Alemanha. "Foi outra experiência extraordinária", relata. Ao voltar para o Brasil, em 1962, passou a se preparar para prestar vestibular para a Faculdade de Agronomia da Ufrgs, curso que iniciou em 1963.
No mesmo ano, prestou concurso para o cargo de técnico agrícola na Secretaria Estadual de Agricultura do Rio Grande do Sul. Ali, assumiu no Serviço de Conservação do Solo do Departamento de Recursos Naturais Renováveis, marco do seu ingresso de sua carreira em solos. "A tarefa era árdua, mas excitante, já que o departamento, a partir de 1964, ingressou no Projeto de Levantamento dos Solos do Rio Grande do Sul, cuja missão era a de avaliar a aptidão de uso agrícola das terras.
A conclusão da Faculdade de Agronomia, em 1966, veio junto com um convite para que os estudos prosseguissem. "Recebi, na Secretaria da Agricultura, a visita do professor Marvin Beatty, que estava iniciando curso de Morfologia, Gênese e Classificação de Solos no recém-criado curso de Pós-Graduação em Solos da Ufrgs", rememora. Convencido pelo professor Beatty que deveria se candidatar a uma vaga, buscou, junto à diretoria do departamento, a autorização para prosseguir com os estudos.
Em março de 1969, defendeu a dissertação de Mestrado e, em abril do mesmo ano, passou a ministrar o curso em substituição ao professor Beatty, que voltou aos Estados Unidos. Os estudos em mapeamento de solos prosseguiram por aqui, desta vez no município gaúcho de Ibirubá, que havia sido escolhido pelo então Instituto Brasileiro de Reforma Agrária (IBRA) como modelo para o desenvolvimento agrário no Rio Grande do Sul, o atual Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agraria (Incra).
Em paralelo, Klamt participou do projeto de correlação de métodos de análise de solos, cujos resultados foram compensadores. "Esse experimento foi muito trabalhoso. Imagine: efetuamos experimentos em 18 locais de solos diferentes, com parcelas de doses crescentes de calcário, nitrogênio, fósforo e de potássio", descreve. Os resultados, porém, mostraram-se compensadores, uma vez que foi possível elaborar as primeiras tabelas de recomendação de calcário e de adubo baseadas em resultados de análise de solos", explica.
Para se ter uma ideia, a prática utilizada é similar à que a Medicina usa, por exemplo, para examinar o teor de glicose no sangue em estudos da diabetes e recomendações de tratamento para a doença. "O que conquistamos foi extraordinário, pois registramos aumento da produtividade de trigo, soja e milho usados nos experimentos levados a campo pelo departamento", diz. Surgiu então o Plano Estadual De Melhoramento da Fertilidade dos Solos e Aumento da Produção Agrícola, chamado de "Operação Tatu", nome dado a partir do comentário de um agricultor, que disse à equipe que ela parecia um tatu ao coletar as amostras e solos.
A iniciativa contou com o apoio da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (hoje Emater/Ascar - Associação Sulina de Crédito e Assistência Rural), Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), cooperativas, Secretaria Estadual da Agricultura, prefeituras municipais, bancos (que ofereceram crédito a longo prazo e juros mais baixos) e até mesmo da Igreja. "O padre de Ibirubá, em sermão dominical, advertiu aos fiéis sobre a importância do projeto. Foi um sucesso", relata Klamt.

Estudos solucionaram problemas e trouxeram aprendizado ao interior do Estado

Na década de 1970, Egon Klamt partiu rumo ao doutorado na Universidade de Wisconsin, Estados Unidos. Assim que a tese foi aprovada, em dezembro de 1973, o retorno para o Rio Grande do Sul ocorreu com a retomada das atividades no Departamento de Solos, projeto que coincidiu com a introdução da motomecanização no campo. Na época, o tráfego de tratores e máquinas pesadas levou à compactação do solo, o que impediu a infiltração da água das chuvas e sua penetração nas raízes das plantas. "Isso originou uma tremenda perda de solos por erosão, que também carregava os fertilizantes e as sementes das plantas."
Para solucionar mais esse problema, o departamento iniciou pesquisas e concluiu que grande parte dele poderia ser resolvida com o plantio ou semeadura direto na palha, sem a tradicional lavração e gradagem. Em vez da clássica subsolagem mecânica, o departamento introduziu plantas com raízes agressivas, recuperadoras das propriedades físicas do solo. Daí originou-se o Plano Integrado de Uso e Manejo do Solo (PIUCS). "Outro sucesso que, junto à Operação Tatu, formou as bases para o sucesso do atual agronegócio", orgulha-se o professor.
Mas essas bases precisavam, também, auxiliar no desenvolvimento da agricultura familiar. Surgiu, então, o Projeto Saraquá, que levou novas técnicas de manejo dos solos e plantas a esses produtores, muitos que ainda usavam tração animal e trabalho humano para obter resultados. A partir daí, o plantio em contorno ou em nível, plantio na palha, rotação de culturas e taipas de pedras em encostas declivosas passaram a ser práticas divulgadas e adotadas. "O importante foi a dinamização de nossas atividades de ensino e a formação de profissionais mais bem preparados para o que exige a agricultura nos quimicamente pobres solos das regiões tropicais e subtropicais", destaca Klamt.
 



Publicado em 01/10/2020.
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