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Novas linhas de pesquisa fortalecem apicultura nacional



Sattler há anos se dedica à saúde das abelhas e a todo um sistema produtivo que gera renda no Estado
CRÉDITO: JOYCE ROCHA/JC
Osni Machado
Maior produtor de mel nacional, o Rio Grande do Sul responde por um volume anual ao redor de 8 mil toneladas. O Brasil, por sua vez, produz por ano cerca de 40 a 45 mil toneladas, conforme dados do IBGE. Neste cenário, em particular, no Rio Grande do Sul, o mel produzido tem a sua qualidade validada pelo aprimoramento crescente das pesquisas e de novas tecnologias, mas a produção e a produtividade poderiam duplicar em curto espaço de tempo caso todas as barreiras fossem vencidas.
Muitos são os desafios do setor, como, por exemplo, o permanente trabalho de controle da saúde das abelhas, que também estão ameaçadas por agrotóxicos e pelo desequilíbrio ambiental, entre outros. Outro fator que barra o pleno desenvolvimento da atividade é o desconhecimento sobre a importância das abelhas, uma das principais espécies de insetos polinizadores na natureza. Pesquisas apontam que lavouras como a soja podem aumentar a produtividade de 5% a 15% com um número de polinizadores suficientes - medida que serve, igualmente, para outras culturas como arroz, girassol, feijão e fruticultura.
Um dos responsáveis pelo avanço científico aplicado à apicultura é o professor Aroni Sattler, com 71 anos de idade e natural de Travesseiro (RS). Sattler tem dedicado à sua vida ao manejo sanitário das abelhas, bem como ao aprimoramento do mel e dos demais produtos da colmeia, além de grande contribuição para o fortalecimento da cadeia produtiva apícola e também para na formação acadêmica de profissionais para atuarem nesta área. Ele foi agraciado, neste ano, como destaque na categoria Cadeias produtivas e alternativas agrícolas do troféu O Futuro da Terra.
De acordo com Sattler a sua dedicação no ensino, pesquisa e extensão voltado à apicultura tem origem familiar, a partir do exemplo dado pelo seu pai e pelos irmãos mais velhos. Com família de oito filhos, seu pai, alfaiate de profissão, também dedicava-se à apicultura, mantendo entre 100 e 150 colmeias. Parte do mel era para o consumo próprio e a outra, ele comercializava, transformando em renda.
Sattler formou-se em 1974 como engenheiro agrônomo pela Universidade de Passo Fundo (UPF). Dois episódios ocorridos durante a graduação foram definitivos na opção pela apicultura: um curso sobre criação de rainhas e sanidade apícola no Departamento de Granjas em La Plata, Argentina; e a instalação do primeiro apiário didático na UPF, pelo qual recebeu uma "bolsa-trabalho". Como consequência, no primeiro ano de formado, ele foi contratado como professor da disciplina de apicultura na UPF, e permaneceu nela vinculado até 1989.
Depois, entrou no Parque Apícola, em Taquari (RS), um centro de referência na área, tanto no Brasil quanto na América do Sul, criado pelo professor Emílio Schenk, uma das maiores autoridades em apicultura no Sul do Brasil. Como diretor do local no período de 1984 a 1989, Sattler coordenou os cursos de atualização de mais de 200 técnicos extensionistas da Emater, incentivou a adoção da Colmeia Longstroth (sistema americano) para aderir ao programa nacional e passou a indicar a utilização das abelhas africanizadas em substituição às de origem europeia, pela sua alta produtividade e resistência às doenças. Este último fator, por sinal, eliminou a necessidade do uso de qualquer antibiótico ou acaricida nas colmeias, facilitando a produção de mel orgânico e aumentando a comercialização interna e a exportação.

Sanidade dos apiários também exige monitoramento

Atuação em todas as frentes é pela qualidade do produto nacional

Atuação em todas as frentes é pela qualidade do produto nacional
Crédito: /VISUALHUNT/DIVULGAÇÃO/JC

O professor Aroni Sattler trabalha ainda em pesquisa do monitoramento da sanidade dos apiários do Estado, e foi convidado pelo Ministério da Agricultura para integrar um comitê técnico-científico-consultivo em sanidade apícola a partir de 2003.

Além dos técnicos do ministério, o comitê era composto por um profissional da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto (SP), outro da Universidade de Viçosa (MG) e Sattler, representando a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), na qual foi admitido por concurso público em 1989. Também como parte de sua vida acadêmica, em 1993, concluiu o mestrado em Fitotécnica (com foco na apicultura) da Faculdade de Agronomia da Ufrgs.

Outra pesquisa de Sattler que exige atenção constante foca em uma praga conhecida como pequeno besouro das colmeias, originário do continente africano. "É uma praga exótica, que entrou no Brasil em 2015 via interior de São Paulo, e hoje se encontra em mais cinco estados. Tenho acompanhado e dado assistência para tentar contornar a propagação dela, ou para que possamos conviver com essa praga", explica.

Ele destaca também um trabalho sobre uma bactéria exótica presente na Argentina e no Uruguai e que, graças ao constante monitoramento e na utilização de barreiras sanitárias, não chegou ao Brasil. "Nós conseguimos evitar a entrada desta bactéria em função desse monitoramento feito através da análise de mel importado."

Sattler explica que foi desenvolvida uma nova técnica de análise junto ao Laboratório Nacional Agropecuário (Lanagro-RS) do Ministério da Agricultura, localizado na Estrada da Ponta Grossa, em Porto Alegre. "Esta técnica é bem mais sensível e capaz de detectar uma quantidade mínima de esporos dessa bactéria exótica no mel."

O pesquisador alerta que é necessário manter a atenção para o perigo de contaminação do mel, de pólen e do própolis. "O Brasil, nos últimos anos, começou a se impor como um exportador de mel. Trata-se de uma pauta importante, exatamente porque a maior parte do nosso mel era considerado orgânico, por não utilizar medicamento dentro da colmeia", conta Sattler.

Ele fala em uma nova etapa nas pesquisas com foco na contaminação ambiental, especialmente, pelos agrotóxicos. "Existe um risco de perdermos o reconhecimento internacional para qualidade do mel, por causa de resíduos de defensivos agrícolas", avisa o professor.

Outro problema urgente é a morte de abelhas causada pelos agrotóxicos, uma questão ambiental que tem chamado a atenção dos pesquisadores. Sattler diz que os insetos podem se contaminar com doses subletais presentes, por exemplo, no pólen. "As doses subletais não matam as abelhas na hora, porém mantêm a ação contaminante no ambiente interno da colmeia, diminuindo a longevidade das operárias e comprometendo a produtividade", completa ele.



Publicado em 01/10/2020.
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