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reportagem cultural

- Publicada em 30/12/2021 às 19h05min.

Atelier Livre celebra seis décadas de ensino das artes plásticas

Referência no aprendizado público em Porto Alegre, Atelier Livre chega aos 60 anos em clima de renovação

Referência no aprendizado público em Porto Alegre, Atelier Livre chega aos 60 anos em clima de renovação


ANDRESSA PUFAL/JC
José Weis, especial para o JC
Em 1960, o artista plástico gaúcho Iberê Camargo (1914-1994) já era considerado um nome de destaque no mundo das artes. Radicado no Rio de Janeiro, veio a Porto Alegre para ministrar uma oficina de pintura na então Galeria de Arte Municipal, em dezembro daquele ano.
Em 1960, o artista plástico gaúcho Iberê Camargo (1914-1994) já era considerado um nome de destaque no mundo das artes. Radicado no Rio de Janeiro, veio a Porto Alegre para ministrar uma oficina de pintura na então Galeria de Arte Municipal, em dezembro daquele ano.
Além de compartilhar seus conhecimentos e apresentar ensinamentos práticos, Iberê também causou um alvoroço na "província", com algumas declarações em que expressava suas impressões sobre a capital gaúcha. O artista ficou espantado com o cenário que viu. Para Iberê, a "movimentação cultural" de Porto Alegre de 1960 estava mais para um "marasmo cultural".
Houve reações indignadas. A repercussão deflagrou um debate público que culminou, no ano seguinte, de forma prática, na criação de um Atelier Municipal. Tudo aconteceu de maneira muito rápida, entre o mês de dezembro de 1960 e abril do ano seguinte.
Artistas se reuniram e até o poder público se envolveu. Assim, a Galeria Municipal foi transformada em Atelier Municipal, um espaço de ensino das artes plásticas, que incentiva novas gerações de artistas a criar e a interagir com mestres, que se renovavam nesses encontros.
No dia 10 de abril de 1961, o então secretário municipal de Educação, Carlos de Brito Velho, nomeava o primeiro diretor do Atelier Livre. O escolhido foi o escultor, gravador e desenhista Francisco (Xico) Alexandre Stockinger (1919-2009). Xico Stockinger, na época, trabalhava e morava na Capital, e integrava a equipe do jornal A Hora, onde era ilustrador. Os primeiros cursos no Atelier Livre foram de xilogravura e de história da arte.
Ano após ano, o Atelier contribuiu para que alunos se tornassem mestres, e que os mestres virassem imortais - não por acaso, anos depois, ganhou a denominação de Atelier Livre Xico Stockinger. Muitos artistas consolidaram sua obra e impulsionaram suas trajetórias a partir dali.
São várias histórias e muitos os envolvidos: além dos já citados Iberê Camargo e Xico Stockinger, também Danúbio Gonçalves dedicou tempo ao Atelier. Ícones das artes plásticos no Rio Grande do Sul lecionaram no espaço, com aulas de desenho, pintura, gravura e escultura, arte fotográfica e linguagens contemporâneas. Sempre com acesso público.
Do iniciante ao graduado em artes, todos desenvolvem o seu talento no Atelier, que nasceu no tempo dos bondes - seu primeiro espaço foi nos Altos do Abrigo da Praça XV. Em 2021, o Atelier Livre completou seis décadas e seguiu em frente com o propósito de compartilhar o conhecimento da arte de forma pública.
Tal como ocorreu com outros eventos, as comemorações foram adaptadas às restrições que a pandemia de Covid-19 impôs. Renata Timm, atual diretora do Atelier, relata que "foram suspensas as atividades presenciais no final de março de 2020".
Porém, está no DNA do Atelier renovar-se a cada dificuldade encontrada. "Em conjunto com os professores regulares e extras, a programação seguiu em frente: Atelier na Quarentena com aulas abertas, lives e produção de conteúdos online para que não suspendesse as atividades", observa a diretora.

Mudanças de endereço ao longo dos anos

Primeira sede do Atelier Livre foi em espaço localizado em cima do Abrigo da Praça XV
Primeira sede do Atelier Livre foi em espaço localizado em cima do Abrigo da Praça XV
/ARQUIVO ALRS/DIVULGAÇÃO/JC
Ao todo, o Atelier ocupou quatro sedes em Porto Alegre. Primeiro, foi um espaço em cima do Abrigo da Praça XV, depois, passou um período de 10 anos no Mercado Público. Em seguida foi para a rua Lobo da Costa, no bairro Cidade Baixa, e instalou-se por último no Centro Municipal de Cultura Lupicínio Rodrigues, onde está desde 1978. O espaço da prefeitura de Porto Alegre hoje está vinculado à Coordenação de Artes Plásticas da Secretaria Municipal da Cultura.
A primeira mudança, para o Mercado Público, ocorreu por necessidade. A prensa de xilogravura de Xico Stockinger não conseguia passar pela escada para a parte de cima do Abrigo da Praça XV. Do outro lado do hoje Largo Gênio Peres, o entreposto mais popular da cidade, que recebe diariamente todo tipo de mercadoria, recebeu em meados dos anos 1960 possivelmente sua encomenda mais inusitada. Com o aparato instalado no edifício do Mercado, se encerrava a primeira sede do Atelier Livre de Porto Alegre.
No novo local, as oficinas de gravura, pintura, desenho, cerâmica e teoria da arte passaram a ter três salas. O Atelier chegou a contar com cerca de 400 alunos. Havia uma mostra anual dos trabalhos em um dos quadrantes do Mercado. Começaram as exposições não só em Porto Alegre, mas também pelo Brasil e o mundo: Curitiba (PR), Buenos Aires (Argentina) e até Tóquio (Japão).
Foi também durante a permanência no Mercado que um dos mestres do ofício, o artista Marcello Grassmann, introduziu e ministrou as primeiras oficinas de litogravura. Méritos para o Atelier, que pôde apresentar à comunidade uma expressão artística até então de difícil acesso.
Depois que Xico Stockinger disponibilizou sua prensa para xilogravura, muitos alunos tiveram a chance de desenvolver seu talento. Foi o caso de Anestor Tavares, com quem Xico trabalhou diretamente. Danúbio Gonçalves (1925-2019), o segundo artista a dirigir o Atelier Livre, conta a trajetória de Tavares na apresentação de uma retrospectiva sobre este gravurista e entalhador, em 1996. Nascido em Camaquã (1919), foi funcionário público municipal desde 1960. "O convívio com artistas que frequentavam o Atelier e a tradição da xilogravura gaúcha foi um estímulo para que ele gravasse uma série, e logo passou a participar de exposições coletivas e individuais", relatou Danúbio. Anestor Tavares é apenas um entre tantos que se tornaram artistas relevantes e aprenderam a ensinar o que receberam nas classes do Atelier.
O professor, pesquisador e artista José Francisco Alves, que também já esteve à frente da direção do Atelier Livre Xico Stockinger, ressalta a importância da colaboração de artistas na formação do projeto: "O Xico como fundador, junto com o crítico de arte Carlos Scarinci, viabilizaram os primeiros anos, foram os responsáveis por botar a escola de pé".
Daisy Viola, que também dirigiu a instituição, descreve o Atelier e seu significado: "é mais que um lugar, é um espaço. E não só físico: é um espaço na vida de quem o frequenta ou um dia frequentou". A ex-diretora orgulha-se de "viver em uma cidade que oferece ao seu público uma escola de arte livre para adultos, de universos muitas vezes opostos, de tempos distantes". Para Daisy, uma cor ou pincelada transformam colegas em amigos, quase como uma passagem secreta para um mundo mágico, "onde todos ficamos mais próximos de realizar nossos sonhos de expressão artística", discorre.
Para a atual diretora, Renata Timm, adversidades também podem ser oportunidades. "O Atelier Livre na Quarentena agregou um novo jeito de ensinar e aprender", conta. O ambiente virtual possibilitou a expansão de um ensino de qualidade, inovador e participativo, conforme a diretora. "Graças à tecnologia, foi possível ampliar a conectividade e interação de muitos lugares, dentro e fora do Brasil."
Tanto Daisy Viola como Renata Timm reafirmam que o objetivo do Atelier foi e continua sendo o mesmo: a experimentação de técnicas; a existência de um espaço de trabalho para os artistas produzirem suas obras, sob orientação de professores-artistas; o intercâmbio com artistas do Brasil e exterior; a realização de exposições e eventos; a divulgação da história da arte e da profissionalização da arte.
 

Um espaço de resistência política

Iberê Camargo (esquerda), Xico Stockinger e Danúbio Gonçalves foram figuras de vulto na história do Atelier, contribuindo na formação de gerações de artistas
Iberê Camargo provocou as discussões que levaram ao processo de criação do Atelier Livre
LUIZ EDUARDO ROBINSON ACHUTTI/DIVULGAÇÃO/JC
O Atelier sempre foi um lugar de resistência política. Em agosto de 1961, pouco mais de quatro meses depois de sua inauguração, artistas e intelectuais assinaram um manifesto em defesa da Campanha da Legalidade. No seu livro Stockinger - Vida e Obra (MultiArte, Porto Alegre, 2012), José Francisco Alves ressalta que o primeiro nome a assinaro documento era o de Francisco Stockinger.
O golpe de 1964 também pôs em risco o Atelier. Atento, foi Anestor Tavares quem deu sumiço em muitos cartazes, criados no espaço, que falavam em liberdade e organização sindical. Sobrou até para Stockinger, que divida as atividades do Atelier com a direção do Museu de Artes do Rio Grande do Sul (Margs).
Sem Stockinger no comando, coube a Danúbio Gonçalves manter o espaço aberto. Para se avaliar a importância que o Atelier Livre vinha obtendo, Danúbio que à época lecionava no Instituto de Artes da Ufrgs, passou a se dedicar exclusivamente ao primeiro.
 

Movimento pelo Atelier

Compartilhar conhecimento da arte de forma pública é uma das diretrizes do espaço
Compartilhar conhecimento da arte de forma pública é uma das diretrizes do espaço
/ARQUIVO ATELIER LIVRE/DIVULGAÇÃO/JC

Nem tudo é celebração nos 60 Anos do Atelier. A atual diretora Renata Timm, que foi aluna na década de 1990, depois estagiária na instituição e sempre teve o espaço "como um referencial na cidade", encarou dificuldades quando assumiu o comando:."Foi chocante perceber o esvaziamento do quadro, a estrutura delicada e o desconhecimento da instituição por parte da comunidade, e até mesmo de jovens estudantes de artes visuais da cidade".

A diretora relata os esforços para amenizar a situação. "Desde 2017 a Coordenação de Artes Visuais trabalha na recuperação da grade de cursos, através do lançamento de editais, e na promoção de iniciativas importantes para a categoria", informa. "Assim se pode restabelecer a conexão e importância do Atelier Livre no cenário das artes visuais e na cidade".

Para Luiz Eduardo Achutti, fotógrafo, antropólogo e professor do Instituto de Artes da Ufrgs, a entidade já foi mais valorizada em gestões anteriores. "Traziam eventos e pessoas importantes", exemplifica. Também lembra dos tempos em que havia uma loja com toda produção cultural existente, graças ao incentivo público municipal do Fumproarte.

A comunidade artística, de qualquer modo, está mobilizada em defesa do Atelier. O movimento Livre Atelier Livre é Resistência reúne profissionais da cultura, professores, artistas e alunos. Também agrega cidadãos unidos em defesa da gestão pública, democrática e transparente do Atelier Livre Xico Stockinger, da Pinacoteca Ruben Berta e da Cinemateca Capitólio, explica a artista Rosane Morais, via e-mail, falando pelo movimento.

São três os focos neste momento: gestão pública, concurso para professores e eleição de diretor. Para o grupo, a atual gestão da prefeitura, através de contratualizações, reduz a responsabilidade pública. E acrescenta que o financiamento continua sendo público, mas sem a garantia de participação ou responsabilidade social.

Local de formação e fomento das artes

Xico Stockinger foi primeiro diretor do Atelier, e teve papel importante na formação de gerações de artistas
Xico Stockinger foi primeiro diretor do Atelier, e teve papel importante na formação de gerações de artistas
LUIZ EDUARDO ROBINSON ACHUTTI/DIVULGAÇÃO/JC
Uma das festividades que marcaram os 60 anos do Atelier foi a 34ª edição do Festival de Arte da Cidade de Porto Alegre. Em 2021, o artista destacado foi Fernando Limberger, gaúcho, nascido em Santa Cruz do Sul, em 1962, e atualmente radicado em São Paulo. Por e-mail, Limberger falou sobre seu trabalho e sua relação com o Atelier Livre Xico Stockinger. "Nunca fui aluno do Atelier Livre, mas sempre acompanhei o que nele acontecia, principalmente as exposições, quando ainda estava em formação no Instituto de Artes da Ufrgs", conta.
Limberger participou "de pelo menos duas exposições coletivas" do Atelier, e também teve espaço em três edições dos festivais, ministrando oficinas. "Todas com abordagens dinâmicas a partir da paisagem da cidade, e com resultados na produção dos alunos."
Ele fala "da grande satisfação" de participar das comemorações de 60 anos do Atelier Livre com sua Ocupação Cromática. O artista vê extrema importância no Atelier, "um local de formação e fomento de artes plásticas na cidade, em que toda a comunidade é beneficiada, diretamente, pelos cursos, exposições, eventos e festivais". Mesmo de modo indireto, as iniciativas do Atelier "terminam por influir que os artistas ali formados atuem em outros espaços e instituições", conclui.
Ocupação Cromática tem curadoria da professora Fernanda Albuquerque, da Ufrgs. Ela explica que o trabalho "foi especialmente pensado e desenhado para o porão do Paço Municipal", ou seja, só faz sentido neste espaço. Espalha-se por todo o porão da prefeitura de Porto Alegre, com 10 diferentes instalações que se articulam. Trata-se, segundo Fernanda, de um conjunto de instalações como uma espécie de paisagem onírica que toma conta do porão, um local que nos prédios públicos é muitas vezes desconhecido.

Dupla homenagem no Paço Municipal

Exposição celebra os 60 anos do Atelier Livre
Exposição celebra os 60 anos do Atelier Livre
/SECRETARIA MUNICIPAL DA CULTURA/PMPA/DIVULGAÇÃO/JC
Duas exposições alusivas à efeméride estão abertas num mesmo espaço. Ali é possível conferir o talento e a diversidade das gerações que passaram e ainda passam pelo Atelier. Uma das mostras está na Pinacoteca Aldo Locatelli do Paço Municipal, o prédio da prefeitura, no Centro Histórico de Porto Alegre. Lá estão obras de todas as expressões; pintura, escultura, gravura e desenho, de nomes como o de Vasco Prado, Daisy Viola, Anestor Tavares, Cláudia Sperb, Henrique Fuhro, Wilson Cavalcante e Vera Wildner, entre tantos outros. Resume a trajetória que "sempre teve dificuldade em ser sonho, sempre foi sólido, sempre a mão na pedra, no metal, no desenho", conforme está escrito no texto de apresentação de 60 Anos no futuro: Atelier Livre o Artista-professor.
São peças pertencentes ao acervo da Pinacoteca, obras de 35 artistas-professores que passaram e marcaram sua passagem pelo Atelier Livre Xico Stockinger. Perspectivas surgidas de uma arte livre, que vem desde o passado até o que virá nos próximos tempos. Cada peça da exposição presta homenagem a seu autor, marcando o tempo em que se dedicou ao Atelier. A exposição vai até fevereiro de 2022. No porão do mesmo Paço Municipal, está o trabalho de Fernando Limberger, Ocupação Cromática, que fica aberta até 3 de janeiro.
 

Um Atelier que não para

Ocupação Cromática, de Fernando Limberger, é uma das exposições alusivas aos 60 anos do Atelier
Ocupação Cromática, de Fernando Limberger, é uma das exposições alusivas aos 60 anos do Atelier
ÍRIS ZANETTI/DIVULGAÇÃO/JC
Apesar das críticas, a atual diretora Renata Timm projeta, com ânimo, os próximos 60 anos do Atelier Livre Xico Stockinger. "Primeiramente, dar seguimento ao trabalho de formação e capacitação em técnicas e linguagens artísticas", afirma. O propósito de "continuar sendo uma escola aberta de formação, conhecimentos e pesquisa aplicada em artes visuais, aberto a população" seguirá firme, e a diretora também pretende ampliar ações para além da sua sede, atuando em polos de inovação, promovendo intercâmbios e atendendo comunidades em vulnerabilidade social.
Com a retomada das atividades presenciais no Centro Municipal de Cultura, será possível programar os trabalhos para 2022, depois de muito tempo operando apenas em plataforma digital. Para o próximo ano, "prevemos a volta das atividades presenciais, com o desafio de constituir um modelo hibrido, considerando que os cursos online também irão constituir a grade de cursos do Atelier."
Também está prevista uma programação especial para celebrar os 250 anos de Porto Alegre, em março. E Renata Timm conclui: "o Atelier Livre merece investimento e todo o nosso respeito! Tem na sua base uma construção maravilhosa e rica nesses 60 anos".
 

Para ver de perto

60 Anos Atelier no futuro: Atelier Livre o Artista-professor
Pinacoteca Aldo Locatelli (Paço dos Açorianos, Praça Montevidéu, 10) até 25 de fevereiro.
De segunda a sexta-feira das 9h às 12h e das 13h30min às 17h.
Visitas devem
ser agendadas via e-mail:
 

Projetos do Atelier Xico Stockinger 2021/22

Atelier Livre está localizado nas dependências do Centro Municipal de Cultura
Atelier Livre está localizado nas dependências do Centro Municipal de Cultura
ANDRESSA PUFAL/JC
Edital para seleção de 12 cursos extras / online - ao todo, serão 18 cursos online
Dois cursos abertos / gratuitos
Reedição do Concurso Outdoor (60 anos)
Um Selo Comemorativo (60 anos)
Resgate Memória Atelier Livre para redes sociais
Publicação do Almanaque de Observação Orgânica (60 anos)
Publicação de 20 artistas | Poro Fogo e Pó | Imagem & Palavra (60 anos)
 

* José Weis é jornalista desde 1989.
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