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Reportagem Cultural

- Publicada em 21h23min, 06/05/2021.

A vida e obra de Cenair Maicá, um dos troncos da música missioneira

 Monumento a Cenair Maicá foi instalado em São Miguel das Missões em fevereiro e aguarda condições favoráveis para evento de inauguração

Monumento a Cenair Maicá foi instalado em São Miguel das Missões em fevereiro e aguarda condições favoráveis para evento de inauguração


/LETICIA BELMONTE/DIVULGAÇÃO/JC
João Vicente Ribas, especial para o JC*
Escutando Argentino Luna e Tránsito Cocomarola no toca-fitas, Cenair Maicá percorria com seu Chevette a rodovia RS 536 no Noroeste do Estado. Essa estrada é a que leva os viajantes da BR 285 até São Miguel das Missões, onde o cantor e compositor viveu nos anos 1970 e administrou o restaurante que recebia os turistas nas ruínas das reduções jesuítico-guaranis.
Escutando Argentino Luna e Tránsito Cocomarola no toca-fitas, Cenair Maicá percorria com seu Chevette a rodovia RS 536 no Noroeste do Estado. Essa estrada é a que leva os viajantes da BR 285 até São Miguel das Missões, onde o cantor e compositor viveu nos anos 1970 e administrou o restaurante que recebia os turistas nas ruínas das reduções jesuítico-guaranis.
Agora, esse caminho possui um novo nome: "Rodovia Cenair Maicá". Pois, no ano passado, a Assembleia Legislativa aprovou um projeto de lei de autoria do deputado e músico Luiz Marenco, que propôs a homenagem.
É também na cidade de São Miguel que outro tributo está sendo preparado. Já está em pé desde fevereiro uma estátua de Cenair Maicá, de quatro metros de altura e quatro toneladas de concreto armado. Devido à pandemia de Covid-19, a festa de inauguração está adiada por tempo indeterminado, bem como a conclusão da praça no entorno.
Essa homenagem contou com fãs do missioneiro que realizaram uma campanha de arrecadação e o apoio da prefeitura municipal. A escultura é obra de Vinicius Ribeiro, autor de monumentos a outros artistas, como Jayme Caetano Braun, Mano Lima e Noel Guarany.
Desde que faleceu em 1989, Cenair Maicá se consagrou em uma série de reverências nos municípios em que viveu. Na terra natal, Tucunduva, e em Santo Ângelo, logo batizaram travessas com seu nome. A comunidade de São Luiz Gonzaga inaugurou um palco e os santo-angelenses instalaram um busto do cantor, confeccionado por Tadeu Martins, e um mausoléu no cemitério onde estão seus restos mortais.
Sua presença também se impôs postumamente nos palcos e fonogramas. Além do relançamento de alguns LPs em formato CD, em 2004, filhos, irmãos e sobrinhos reuniram-se e gravaram um primeiro álbum interpretando músicas de Cenair para marcar 15 anos de saudade. Uma década depois, gravaram outro.
Neste meio tempo, Patrício Maicá lançou um disco tributo ao pai, contendo uma canção inédita, Potranca tordilha, guardada pelo violonista Paulo Guerra, que o acompanhou nos últimos anos de vida em Soledade. O músico também esteve envolvido em uma série de shows realizados na cidade em homenagem ao colega. "Cenair era fantástico, muita simplicidade, mas muito conhecimento, um verdadeiro mestre", recorda.
As composições de Cenair Maicá são pedras fundamentais do repertório missioneiro. Trinta anos depois, seguem ganhando regravações, a exemplo das que Angelo Franco registrou para Balaio, lança e taquara e Mágoas de posteiro. "Todo missioneiro da minha geração já nasceu ouvindo, já nasceu fã do Cenair Maicá", afirma.
Mas de onde vem tanta reverência? Para compreender um pouco desta importância, buscamos nesta reportagem recuperar arquivos e depoimentos que ajudam a pontuar a trajetória de Cenair Maicá. Uma das principais fontes está na biografia escrita por Valter Portalete, que desvenda detalhes de sua vida e de sua morte, em 1989, por complicações nos rins, após uma série de problemas que teve desde a juventude, quando foi baleado.
Conversando com o filho Patrício, sabemos que seu pai era uma pessoa muito calma, embora artisticamente inquieto. "Pai estava à frente do tempo dele", afirma. E confessa que tem muita saudade: "Eu queria ver o pai vivo hoje, ver sobre o que estaria escrevendo". Nos últimos anos, Patrício tem se dedicado ao legado musical de Cenair Maicá, pois percebe que há reconhecimento. Por isso, emociona-se ao cantarolar uma das canções: "Mas se algum dia meu cantar for sufocado/ Por negra morte ou por capricho do destino/ Há de ficar meu canto xucro perpetuado/ No assobio de alguma boca de menino".
Já o historiador Tau Golin, amigo de diversas aventuras, define-o como um baita parceiro: "Gostava de encontros, de cantar no meio das pessoas". Ao mesmo tempo, lembra que Cenair era introspectivo, falava só o necessário. "Lá fora, encilhava um cavalo e saía sozinho pelo campo. Ficava contemplativo", recorda.
Além dos depoimentos de quem conviveu com o músico, acessamos arquivos que revelam sua própria voz. Um grande achado foi uma entrevista em áudio do acervo do Museu Antropológico Diretor Pestana.
Outro documento significativo foi uma edição da revista Tarca, em que Cenair conta histórias de quando foi participar de um show ao lado de nomes como Chico Buarque e Milton Nascimento, mas a censura acabou cancelando. Na revista, fala também das origens e do reconhecimento da música missioneira, em uma época em que predominavam os estilos de baile serrano e sertanejo.
Por isso, acreditava ter criado um novo estilo, ao lado de Noel Guarany, Pedro Ortaça, Chaloy Jara e Jayme Caetano Braun. "Acho que o músico, além de cantar as coisas bonitas, a alegria, tem que ser um porta-voz do povo", sustentava.

Cantor das águas e dos livres

Biografia do músico foi escrita por Valter Portalete e lançada em 2012
Biografia do músico foi escrita por Valter Portalete e lançada em 2012
/FURI/DIVULGAÇÃO/JC
Quando se pesquisa no Google o nome Cenair Maicá, chega-se a um conjunto de dados básicos. Na Wikipédia, lê-se que "foi um cantor e instrumentista brasileiro de música nativista, conhecido por cantar a natureza e os índios". Nos resultados da busca, enumeram-se seus três maiores sucessos: Canto dos Livres, Baile do Sapucay e Rio de minha infância. Para completar, a rede digital lista datas e locais de nascimento (3 de maio de 1947, Tucunduva) e falecimento (2 de janeiro de 1989, Porto Alegre).
Mas logo que se começa a pesquisar a fundo o ícone da música missioneira Cenair Maicá, por outras fontes menos informatizadas, notam-se incongruências. Por exemplo, quando se lê o livro Terra e cidadania na obra de Cenair Maicá (FuRi, 2012), de Valter Portalete, pode-se corrigir um equívoco repetido na internet a respeito de sua discografia. As fontes do ciberespaço omitem sua primeira gravação, o compacto duplo Belezas missioneiras, lançado em 1970 pelo selo Solar Discos. Em seu lugar, destacam o compacto simples que gravou acompanhando Noel Guarany, no mesmo ano, chamado Filosofia de gaudério.
Quando acessamos as plataformas de streaming, descobrimos que apenas Meu canto (1985) e Troncos Missioneiros (1989) estão disponíveis no Spotify e no Deezer. É preciso acessar o YouTube para conseguir ouvir outros álbuns, mas a discografia não está acessível de forma completa. Um dos vídeos mais acessados, com quase 300 mil visualizações, é o de uma apresentação no programa Oigalê Tchê, da RBS TV de Chapecó, em que canta ao lado de Chaloy Jara e Jayme Caetano Braun, no ano de 1984.
Ainda insistindo na pesquisa via internet, no site Letras.mus.br, encontramos na página destinada a Cenair Maicá suas 20 mais tocadas. Compilando os versos digitalizados, foi possível compor uma nuvem de palavras com o aplicativo Wordart.com. Desta forma concluímos que a palavra mais recorrente é "rio", seguida de "terra", "milonga" e "amor". Esse resultado oferecido pela tecnologia provavelmente não surpreende os fãs. Afinal, ainda em vida, ficou conhecido no popular como Cantor das Águas.

"Quem ouvir esta minha voz levantará"

Fundação de centro cultural nativista em São Miguel e uma universidade das Missões estavam nos seus planos
Fundação de centro cultural nativista em São Miguel e uma universidade das Missões estavam nos seus planos
ARQUIVO VALTER PORTALETE/DIVULGAÇÃO/JC
Cenair Maicá elaborava teses: "Na verdade, o nativismo nasceu com Sepé Tiaraju nas Missões. Foi o primeiro nativista registrado na história. Um cara que se ergueu e morreu pela terra dele, pelas coisas dele, isso é a base do nativismo".
Afirmações prenhes de posicionamento como essa recheiam a edição número 5 da revista Tarca, publicada em setembro de 1984. Nela, uma entrevista de três páginas. Entre anúncios da CRT e JH Santos, o jornalista Adalberto Jardim afirmava que Cenair Maicá era uma das vozes mais respeitadas do meio artístico gaúcho. "Respeito que se impôs pela lucidez com que Maicá tem interpretado os sentimentos do homem simples, que não precisa se utilizar da linguagem rebuscada - e às vezes enganosa - para exercer um agudo senso crítico", escreveu.
Na revista, revela-se que o cantor estava "temporariamente afastado da atividade artística, por causa da saúde abalada". Havia seis meses enfrentava insuficiência renal, fazendo hemodiálise e aguardando para realizar um transplante de rim. Mas já projetava a volta aos palcos.
Pode-se observar na fala do músico críticas à falta de diversidade nos festivais nativistas e aos limites do movimento tradicionalista, embora reconheça o papel importante na preservação de raízes. Sobram reprovações também à "alienação bárbara e americanista" do Rock in Rio, e a Teixeirinha: "Distorceu que o gaúcho é fanfarrão, que mata 50, que dá tiro, que é agressivo". Por outro lado, fala de projetos, como a fundação de um centro cultural nativista em São Miguel e a criação de uma universidade das Missões.

Entrevista inédita

Noel Guarany e Cenair Maicá se apresentam juntos, mas discordam em entrevista
Noel Guarany e Cenair Maicá se apresentam juntos, mas discordam em entrevista
/ARQUIVO VALTER PORTALETE/DIVULGAÇÃO/JC
O Museu Antropológico Diretor Pestana, em Ijuí, guarda em seu acervo uma entrevista histórica, gravada em fita em 1982. A convite de pesquisadores, conversaram por mais de duas horas Cenair Maicá, Chaloy Jara, Dedé Cunha, Noel Guarany e Pedro Ortaça. Neste arquivo inédito, os músicos missioneiros comentam sobre a cena musical da época, avaliando a conduta dos CTGs e das gravadoras. Fazem comparações com a música folclórica argentina, que recebia subsídios governamentais para pesquisa e difusão. Dão aula sobre a cultura e a história das Missões, destacando o elo latino-americano, a origem do chamamé e a presença do bandoneon.
Com volume e firmeza na voz, Cenair intervém na conversa em diversos momentos, inclusive discordando de Noel Guarany em alguns pontos. Adverte que não se considera pesquisador, mas que canta o que aprendeu na infância. Fala da "infiltração" da música estrangeira, mais especificamente a norte-americana, que teria despertado a adesão dos músicos da região, por questão de sobrevivência. "Nós, os poucos idealistas que sobraram, resolvemos até trabalhar em outros empregos, mas conservamos a bela música que aprendemos", afirma.
Um dos assuntos mais abordados na conversa foram os festivais, dos quais participou muito mais como contratado para shows do que concorrendo. "Quem pode julgar a arte é o povo mesmo, e não meia dúzia de pessoas que se dizem intelectuais da música gaúcha", critica. Já quando perguntado sobre a diferença entre nativismo e sertanejo, Cenair destaca o romantismo. Observa que não há problema em cantar o amor, mas que o sertanejo cantava o amor "para fazer dinheiro". E com isso não concordava.
 

A trajetória breve e intensa de Cenair Maicá

Cantor e compositor queria ser porta-voz do povo, gravou sete discos e faleceu aos 41 anos
Cantor e compositor queria ser porta-voz do povo, gravou sete discos e faleceu aos 41 anos
ARQUIVO VALTER PORTALETE/DIVULGAÇÃO/JC
A primeira posição que aprendeu no violão foi dó maior. Depois aprendeu gaita. Aos 10 anos já tocava e cantava nas rádios em Santa Rosa, em dupla com o irmão Adelque. Estes detalhes estão presentes na entrevista concedida à equipe do museu de Ijuí. Nela, também salienta que todos os seus oito irmãos tinham vocação musical (após sua morte, o que mais prosperou foi Valdomiro Maicá, autor de mais de 20 discos). Recuperando sua árvore genealógica, sabemos que seus três filhos mais velhos, Potiguara, Patrício e Miguel Caraí, são do casamento com Maria Geceli. Já Catira e Gabriel, que morreu aos 21 anos de leucemia, são filhos com Issara Hactz.
Cenair fazia questão de contar que ainda criança foi morar em Misiones, na Argentina, pois seu pai era balseiro e se instalou na região de fronteira. Essa experiência de vida teria marcado sua obra. Logo no primeiro álbum, Rio de minha infância (1978), convidou para acompanhá-lo dois grandes músicos argentinos: Chaloy Jara e Martín Coplas.
Seu biógrafo Valter Portalete recupera fragmentos importantes de sua importância no mercado musical. Em 1970, Cenair Maicá conheceu o empresário Arlindo Gagliotto, que lhe propôs a representação das gravadoras RDB, Solar Discos e Pampa Discos. Uma das primeiras duplas descobertas por Cenair foram as Gauchinhas Missioneiras. Diversificando sua fonte de renda, nesta época também foi representante das máquinas de escrever Olivetti.
Uma segunda edição ampliada da biografia de Cenair Maicá está sendo preparada pelo autor para este ano. O livro inclui histórias das parcerias com José Mendes, com quem tocou bailes, e com Noel Guarany, com quem venceu um festival em Santo Tomé. A partir daí passou a pesquisar e a compor sobre as Missões. Vivendo em São Miguel, também se aproximou de Pedro Ortaça. Seu filho Patrício relata que lá o pai "recebia os indígenas e fazia registros, como um antropólogo". Paralelamente, Cenair Maicá apresentava programas nas rádios Repórter de Ijuí e Sepé Tiaraju de Santo Ângelo.
Sua vida de radialista teria continuidade nos anos 1980, quando ingressou na Liberdade FM em Viamão, a convite do jornalista Paulo Mendonça. "Cenair pode ser considerado um dos compositores mais importantes de todos os tempos no Rio Grande do Sul. Suas canções possuem signos terrunhos e leveza universal", avalia.

Às voltas com a censura

Para a revista Tarca, artista 
conta que disco Cantos dos Livres foi censurado em São Paulo
Para a revista Tarca, artista conta que disco Canto dos Livres foi censurado em São Paulo
REPRODUÇÃO/JC
Um dos momentos marcantes de sua trajetória se deu quando a censura do regime militar impediu que Cenair Maicá cantasse uma canção que acabaria sendo um dos seus maiores sucessos: Canto dos Livres. Aquela que possui os versos: "Quisera um dia cantar com o povo/ Um canto simples de amor e verdade/ Que não falasse em misérias nem guerras/ Nem precisasse clamar liberdade".
Hoje, para revelar as memórias daqueles tempos, é possível pesquisar no Arquivo Nacional. Nele encontram-se documentos processados na Divisão de Censura de Diversões Públicas. Ao inserir as palavras-chave "Cenair Maicá" e "Canto dos Livres" no mecanismo de busca digital do arquivo, localizam-se apenas letras aprovadas pelos censores para gravação em disco e apresentação em festivais. Incluída Canto dos Livres. Então, quando teria ocorrido a censura? Em entrevista à revista Tarca, Cenair comenta o episódio: "Fomos pra São Paulo pra fazer o lançamento do meu novo disco e nos barraram lá. Trancaram o disco, dois meses censurado".
Em resenha do jornal Zero Hora de 1983, o jornalista Juarez Fonseca relata que a canção "teve execução em rádio proibida" e que Cenair estava aguardando a ação que a gravadora WEA havia promovido para liberá-la. Já Tau Golin, que organizava shows dos missioneiros naquela época em Santa Maria, recorda que Canto dos Livres tinha que escolher onde ia cantar. "Havia dedos-duros e pressão por vias não-oficiais, por isso Cenair foi realmente tocar ela em público só no período de abertura, antes não", lembra.

Gana missioneira

Show de Chaloy Jara, Cenair e Jayme Caetano Braun está nos registros do filho Patrício Maicá
Show de Chaloy Jara, Cenair e Jayme Caetano Braun está nos registros do filho Patrício Maicá
ARQUIVO PATRÍCIO MAICÁ/DIVULGAÇÃO/JC
Cenair Maicá foi um dos Troncos Missioneiros da música e poesia popular do Rio Grande do Sul no século XX. Ao lado de Noel Guarany, Jayme Caetano Braun e Pedro Ortaça (único ainda vivo), cantou a natureza, as lutas do homem do campo, a história e cultura da região das Missões. O tema já foi destaque nas reportagens culturais do Jornal do Comércio. O caderno Viver publicou anteriormente as biografias de Braun, Ortaça e Guarany.
Os Troncos Missioneiros ofereceram uma via estética alternativa na cultura gaúcha. Iuri Daniel Barbosa, músico e mestre em Geografia (Ufrgs), comenta que o grupo buscou abrir um outro mercado que não era nem de festival nem de baile. E obtiveram reconhecimento da crítica, inclusive do Centro do País. Barbosa define o estilo inaugurado por eles como Música Regional Missioneira, para diferenciá-la da música missioneira histórica. Até hoje, Pedro Ortaça, Jorge Guedes, entre outros, seguem nesta linha.
Barbosa destaca que Cenair era multi-instrumentista e analisa sua performance vocal: "Era sensível, um cantar mais calmo, menos empostação". Também avalia os arranjos com mais elementos harmônicos, que se aproximam de uma música mais urbana. Esta aproximação se dá também na gravação de canções de Jerônimo Jardim e Raul Ellwanger, que foi produtor do disco Caminhos (1980).
Atualmente, sua escola influencia novas gerações. Angelo Franco, por exemplo, conviveu com Cenair Maicá. Suas famílias eram amigas e tocavam Baile do Sapucay em São Luiz Gonzaga. "Tenho muita afinidade com a obra do Cenair, carinho por esta história indígena, este respeito, este quase remorso, entre aspas, que a gente carrega pelo genocídio indígena", revela.
Do ponto de vista estético, Franco pegou sua influência de cantar em espanhol, e, na questão política, de "fazer um protesto exortativo, não impositivo". Por fim, observa que Cenair ajudou a entender que há uma música que está presente nos dois lados do rio Uruguai e além.
Afora a vivência fronteiriça e com indígenas, Cenair Maicá teve vivência campeira. Frequentou estâncias próximas a Santa Maria, junto a Tau Golin. Com isto, o historiador acredita que o amigo tentava resolver o conflito existencial entre o gaúcho e o indígena, que gera uma inquietação estética entre latifúndio privatizado oligárquico e a organização coletiva e familiar missioneira. Mesmo gostando da lida campeira, teria sido responsável por tirar o "absolutismo do imaginário do campo" na música gaúcha e trazer os ribeirinhos. "Missioneiros como o Cenair nos colocaram na América Latina, fizeram com que nós tivéssemos esta fronteiridade", pontua.

Lista cronológica dos LPs lançados pelo artista


ARTE/JC
1970Belezas missioneiras (Solar Discos)
1978Rio de minha infância (Companhia Industrial de Discos/Itamaraty)
1980Caminhos (Rodeio/WEA)
1983Canto dos Livres (Rodeio/WEA)
1985Meu canto (Gravações Elétricas/Continental)
1987Companheira Liberdade (RCA/WEA)
1989Troncos Missioneiros (Discoteca)

* João Vicente Ribas é jornalista, doutor em Comunicação pela Pucrs e professor na Universidade de Passo Fundo.

Leia as demais reportagens culturais sobre os troncos missioneiros

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