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Reportagem Cultural

- Publicada em 19h18min, 29/04/2021.

Como Iara Deodoro consolidou a dança afro-gaúcha

Coreógrafa e bailarina tem 47 anos de trajetória, com mais de 30 espetáculos na carreira

Coreógrafa e bailarina tem 47 anos de trajetória, com mais de 30 espetáculos na carreira


JOSEMAR/AFROVULTO/DIVULGAÇÃO/JC
Priscila Pasko, especial para o JC*
Nos idos dos anos 1970, o poeta e professor de português e literatura Oliveira Silveira (1941-2009) realizava um trabalho de dança afro com os seus alunos no colégio Anchieta, em Porto Alegre. Perguntou para a professora, bailarina e coreógrafa Nilva Pinto (1934-2020) se ela poderia colaborar, mas a colega disse não conhecer o assunto. Entretanto, lembrou que uma aluna "esperta" sua, de outra escola, encaminhava-se para o tema em questão. "Iarinha" a questionava muito a respeito dessas danças.
Nos idos dos anos 1970, o poeta e professor de português e literatura Oliveira Silveira (1941-2009) realizava um trabalho de dança afro com os seus alunos no colégio Anchieta, em Porto Alegre. Perguntou para a professora, bailarina e coreógrafa Nilva Pinto (1934-2020) se ela poderia colaborar, mas a colega disse não conhecer o assunto. Entretanto, lembrou que uma aluna "esperta" sua, de outra escola, encaminhava-se para o tema em questão. "Iarinha" a questionava muito a respeito dessas danças.
"Eu devia ter uns 18, 19 anos. Nilva me colocou em contato com o Oliveira Silveira e acabamos ficando amigos". É o que conta a, hoje, mestra Iara Deodoro, uma das maiores referências de Dança Afro do Sul do Brasil. Ela é fundadora, diretora artística e coreógrafa do Instituto Sociocultural Afro-Sul Odomodê, fincado na avenida Ipiranga, n° 3.850, em Porto Alegre.
Iara também – importante dizer – é filha de Dona Verônica Santos, conhecida como Tia Lili, e Vilson dos Santos. Tia Lili ficou viúva quando Iara tinha cerca de quatro anos de idade. Trabalhava quase que ininterruptamente como empregada doméstica e sempre incentivava as atividades extracurriculares da filha. Sua importância e ensinamentos em vida foram tão marcantes, assim como a sua participação ativa na formação do Grupo Afro-Sul, que até mesmo quem não a conheceu menciona o seu nome como uma referência.
São 47 anos de trajetória, tendo dirigido mais de 30 espetáculos ao longo da carreira. Iara se formou na Escola de Danças Folclóricas da acima mencionada Nilva Pinto, na Capital, entre 1968 e 1978. Atualmente, é coordenadora pedagógica do grupo de Escolas Preparatórias de Dança (EPDs).
Foi também no colégio Anchieta que Iara conheceu o jovem Marco Farias, o único aluno negro que atuava no coral da instituição. Fora dali, Marco fazia parte da banda Afro-Sul, junto a outros garotos, quando convidou Iara para coreografar a música Pergunta, que o grupo tocaria em um festival no ano de 1974. Surgia ali não apenas uma forte identificação, uma amizade, que duraria mais de quatro décadas, mas também o grupo Afro-Sul de Música e Dança.
"A Iara sempre foi uma pessoa com quem eu contei mesmo em pensamento", diz o maestro, compositor e arranjador Marco Farias. "A veia artística presente nela foi influência decisiva na minha vida. Acho que a nossa amizade era tão forte que tínhamos certeza de que o outro daria forças para os projetos artísticos. E isso nos levava adiante, a liberdade de poder criar".
A mestra não para, segue construindo o seu caminho. Mas, se antes ela precisou trilhar um chão pedregoso e inexplorado, hoje, os seus pés pisam sobre flores e ervas ofertadas pelas alunas e alunos em forma de retribuição por todo o aprendizado recebido. Uma geração que tem a chance de reverenciar, em vida, o conhecimento de uma mulher preta mais velha.
E foi este séquito que organizou os saberes da mestra no Curso de Introdução à Metodologia de Dança Afro Gaúcha Iara Deodoro, promovido de forma remota e gratuita, no mês de abril, para 14 cidades do Rio Grande do Sul. Entre elas, Pelotas, Santa Maria, Porto Alegre, Viamão, Osório e Bagé - projeto realizado com recursos da Lei Aldir Blanc. Pergunto a Iara o que significa compartilhar um método desenvolvido durante toda a vida e que leva o seu próprio nome. "Um luxo", responde orgulhosa. Não é para menos.

Mudanças que construíram uma história

Coreógrafa conta que termo afro-gaúcho parte de uma provocação do seu marido, Paulo Romeo
Coreógrafa conta que termo afro-gaúcho parte de uma provocação do seu marido, Paulo Romeo
MACIEL GOELZER/DIVULGAÇÃO/JC
O Afro-Sul nasceu como um grupo de dança e música, em 1974, e seguiu se metaforseando. Anos mais tarde, em março de 1980, o núcleo fundou a Sociedade Cultural Beneficente Escola de Samba Garotos da Orgia, na Capital. Iara Deodoro, que foi porta-bandeira e coreógrafa de alas e comissões de frente, conta que os temas da escola giravam em torno das culturas africanas e afrobrasileiras, uma condição presente no estatuto da entidade. "Dava muito certo porque tu ouvias as pessoas cantando palavras em iorubá presentes no samba-enredo. Então, como digo, não é só dança, não é só Carnaval, é além disso".
Em 1998, a escola se despediu da avenida, fazendo o seu último desfile no Carnaval de Porto Alegre. Foi então que a agremiação foi assumida pelo Afro-Sul, e formou o carnavalesco Bloco Afro Odomodê. A jovialidade e energia se mantêm. A palavra "garotos" da antiga escola é substituída pelo termo Odomodê, que, no idioma iorubá, significa jovem.
Desde então, o instituto atua em duas frentes. O Grupo Afro-Sul de Música e Dança se dedica à pesquisa e difusão da dança, música, moda e gastronomia sob a perspetiva da cultura afro-gaúcha. Na outra ponta, estão as ações da Sociedade de Ação Social Odomodê, direcionadas a programas e projetos sociais.
Griô cantor e compositor, educador musical e ativista cultural, Paulo Romeo Deodoro é um dos fundadores do Afro-Sul. Ele compartilha 47 anos de trajetória artística e de casamento com Iara. Para ele, uma das características que se manteve desde o início do grupo foi justamente a mudança. “A gente considera [o Afro-Sul] uma escola de formação com uma perspectiva social e artística. Sempre estivemos muito atentos ao que estava acontecendo na diáspora africana e que o que chegava até nós aqui no Rio Grande do Sul como afro-gaúchos que somos”.

O discurso pelo corpo

Curso ministrado em abril sobre dança afro no RS levou nome da mulher à frente do Afro-Sul Odomodê
Curso ministrado em abril sobre dança afro no RS levou nome da mulher à frente do Afro-Sul Odomodê
MARCO QUINTANA/JC
Desde que a pandemia impôs a quarentena, as atividades do Afro-Sul foram interrompidas. Quem frequentava a avenida Ipiranga, tocando e conhecendo os tambores, o maracatu, as manifestações populares; ou participando das rodas de samba, shows, apresentações e oficinas de música e dança, sentiu falta. Foi então que a diretora e coreógrafa Iara Deodoro, junto à equipe do Afro-Sul, passou a ocupar o espaço virtual em lives, promovendo e sendo convidada para debates e aulas introdutórias de dança afro.
Aos 66 anos, Iara teve de se adaptar a uma nova forma de se conectar com o seu público. Nenhum mistério para alguém com o histórico da bailarina. É inegável, porém, que o cenário é bastante diferente dos anos 1970, quando ela não contava com referências e oferta abundante de materiais que pudessem dar conta do seu interesse pela dança afro. É história conhecida de quem já acompanha os relatos da mestra que a jovem assistia aos filmes de Tarzan na TV aberta para reproduzir os movimentos executados pelas tribos africanas que apareciam nas tramas. "Era o jeito. Até então, minha vivência toda em dança havia sido totalmente eurocentrada. Era a única negra em vários espaços. Coreografia de dança afro nem se falava", lembra.
Os filmes, claro, serviriam apenas como ponto de partida de um exigente mergulho em pesquisas. Um processo que, como coreógrafa, foi amadurecendo e segue até hoje. "Tenho medo de passar a informação errada em meus espetáculos. Porque é uma história milenar que nós [negros] temos. É linda, mas também distorcida, pois viemos de uma cultura de oralidade e o 'telefone sem fio' modifica", observa Iara, que graduou-se em Serviço Social e realizou pós-graduação em Educação Popular e Gestão em Movimentos Sociais.
O rigor foi importante para que a coreógrafa pudesse consolidar o seu trabalho, que, décadas depois, faria parte de um método próprio. Iara conta que seu letramento racial e a observação consciente das lutas políticas raciais que ocorriam no mundo naquele período foram estimuladas pelas discussões com os garotos da banda Afro-Sul e pelos textos traduzidos de revistas norte-americanas por amigos e conhecidos. "No contato com essa gurizada, começo a perceber que eu era negra e que por trás de mim havia uma história que não era apenas de escravidão. Aprendi muito pelas leituras. Para qualquer espetáculo, nos debruçávamos sobre pesquisas."
A produção de intelectuais negros brasileiros também foi chegando às mãos do grupo, que se entendia não do movimento negro, mas "negros em movimento". A adoção de tal postura dentro de um contexto combativo gerou críticas, pois, ao invés de se inserirem de forma mais ativa no debate racial, o grupo Afro-Sul "apenas" dançava: "Nos consideravam alienados". Iara recorda que conversou com o poeta e professor Oliveira Silveira a respeito. "Ele me disse: 'esse movimento que vocês fazem é tão ou mais importante do que a gente está fazendo. Porque a fala nem sempre é escutada, já o movimento sempre é visto'. E isso se tornou a minha bandeira, até hoje."
A publicitária Camila Camargo, uma das ministrantes do Curso de Introdução à Metodologia de Dança Afro Gaúcha Iara Deodoro, não apenas compreende, como também aplica este método em sua vida. Ela tem formação em balé clássico pela escola Elisabeth Santos e em dança afro pelo Afro-Sul, onde atua há 15 anos. A bailarina conta que sua inserção no grupo despertou o interesse em aprender mais sobre negritude e menciona Abdias do Nascimento (1914-2011) e a sua teoria a respeito do quilombismo, que propõe mobilização política da população afrodescendente com base na sua própria experiência histórica e cultural: "A gente faz isso, se aquilomba e pensa em estratégias para se manter vivo, feliz e saudável psiquicamente. É muito mais do que dançar. Produzimos e criamos cultura a partir das nossas práticas".
Taila Santos é bailarina do Grupo Afro-Sul de Música e Dança desde 1994 e, atualmente, também é coreógrafa e graduada em Educação Física. Após tantos anos, a sua história se mistura com a do Afro-Sul, este espaço tão familiar, composto por pessoas com as quais ela sempre se identificou. Por isso, vivenciar a dança e o método aplicado no grupo acabou interferindo em outros aspectos da sua vida. “Está no meu modo de caminhar, me comunicar, me identificar como uma mulher negra no contexto do Rio Grande do Sul. Quando danço, me sinto aberta, segura. Dentro do Afro-Sul há homens e mulheres muito bem sucedidos para além da dança, mas na vida profissional também.”
É este compromisso que Iara leva aos seus mais de 30 espetáculos, entre eles, O feminino sagrado: um olhar descendente da Mitologia Africana (2016) – indicado a seis categorias e vencedor de uma no Prêmio Açorianos de Dança 2017 – e Reminiscências – Memórias do nosso Carnaval (2019) – uma releitura das participações do Afro-Sul nestas festas em Porto Alegre. Para a coreógrafa, o seu compromisso, além de dançar, é a de instrumentalizar o seu povo. Ela acredita que os seus espetáculos fogem dos padrões mais contemporâneos. “Eu não dou a liberdade de imaginar: é aquilo que se vê no palco e pronto. O público principal que eu quero atingir é o meu povo, para quem nem sempre - por todas as nossas condições de vida, de fata de oportunidades e estudo - essa compreensão é fácil.”

Leciane Ferreira é bailarina do Afro-Sul desde 2007. É graduada em Serviço Social e facilitadora de Círculos de Construção de Paz e Justiça. Ela conta que é comum momentos antes dos ensaios o grupo conversar e ouvir Iara contextualizar a pesquisa que está sendo feita e de que forma ela se insere no espetáculo.
A bailarina chama a atenção para a construção artística de Iara, um processo bastante intuitivo e espiritual. É o sonho, que a mestra chama carinhosamente de ‘Chico’. “Existe a conversa, a troca, a pesquisa. Mas nesta metodologia há sempre o momento em que ela sonha e a partir disso propõe mudanças, acrescenta elementos, adapta. Sou apaixonada por esse processo criativo da Iara”, comenta Leciane.

A memória dos gestos

Espetáculo Feminino sagrado  tem olhar da mitologia africana
Espetáculo Feminino sagrado tem olhar da mitologia africana
/BRUNO GOMES/DIVULGAÇÃO/JC
Observar um corpo reproduzir movimentos das danças afro leva o espectador a desconstruir uma ideia engessada sobre o que é, o que pode ser a dança e quem "pode" dançar. Geralmente, o senso comum enquadra o ideal de bailarino em um corpo esguio, execução de movimentos eretos, simétricos, de elevação, a ponta dos pés, quase flutuação - isso para mencionar os segmentos mais clássicos e eurocentrados.
Então, um dia, o espectador se enxerga diante de um espetáculo que tem como carro-chefe a dança das iabás - orixás mulheres, por exemplo. No palco, bailarinas e bailarinos de idades - crianças a idosos - e portes distintos; mulheres magras, mas também, senão principalmente, aquelas que fogem do padrão geralmente exigido no circuito da dança. E, muitas vezes, é apenas nestes corpos que determinado movimento faz sentido, revelando a sua beleza.
Iara Deodoro é quem diz: o corpo da dança afro é qualquer um. "É a dança do dia a dia. É algo ancestral, o nosso corpo tem essa memória. O que se precisa é trabalhar nisso para ele responder. Mas, claro, há pessoas que não conseguem dançar, não vamos generalizar", adverte ela. "Quando a gente é criado e educado dentro de uma perspectiva que não tem nada a ver com esse lugar, nada além da cor da pele, tu achas mais difícil. É preciso desenvolver aos poucos a prática."
A mestra comenta que, quando mais jovem, não se adaptava ao balé clássico, mas a prática fazia parte do programa do curso que frequentava. Apesar desta formação eurocentrada, a mestra Iara faz questão de dizer que é a professora Nilva Pinto a sua base na dança. “Eu tive uma professora muito sensível. Acho que ela entendeu primeiro do que eu que a dificuldade que eu tinha estava no perfil do meu corpo. Quando entendi, parei de sofrer. Eu dançava, dançava muito, mas do meu jeito”. 
Entre as principais bases técnicas da dança que são trabalhados pelo Método de Iara, estão a 'famosa" Contração do corpo - considerada pela coreógrafa um dos fundamentos estéticos da dança afro-gaúcha -, o movimento Suave e Forte e o Contratempo. Aos que nunca tiveram contato com este segmento da dança, alguns estranhamentos se manifestam.
Por ser um estilo mais aterrado, na qual o tronco se volta ao solo, se contrai, mas que também se expande (um dos “sotaques” da dança afro gaúcha); por ser preciso tocar e conectar a sola nua do pé inteiro no chão; por ser necessário convidar o pescoço e a cabeça a acompanhar os movimentos; por fazer toda a diferença expressar no rosto a alegria, a bravura, a delicadeza ou a seriedade; por exigir fôlego e muita preparação física; por possibilitar que se encontre em uma música mais de um ritmo; por fazer até mesmo um sujeito negro questionar o quanto o seu corpo é colonizado culturalmente; por essas razões, e muitas outras, as danças afros desacomodam certas lógicas e acolhem aquelas que até então não encontravam um idioma com o qual o corpo pudesse dialogar.
 

A dança afro-gaúcha: criando epistemologias

Filha de Iara, Edjana Deodoro é coreógrafa e bailarina do grupo Afro-Sul
Filha de Iara, Edjana Deodoro é coreógrafa e bailarina do grupo Afro-Sul
BRUNO GOMES/DIVULGAÇÃO/JC
Iara Deodoro não se priva em dizer que a dança tem sotaque, e não seria diferente no Rio Grande do Sul, onde os saberes e os traços culturais do povo afro-gaúcho apresentam uma identidade própria que também se manifesta no corpo. A coreógrafa conta que o termo afro-gaúcho parte de uma provocação do seu marido, Paulo Romeo. O músico costumava comentar que a música produzida no Estado não se projetava em outros lugares do Brasil, parecia faltar identidade, complementava Iara. Sim, um toque afro-gaúcho. "E dali em diante a gente passou adotar o termo", explica Iara. A expressão foi usada em seu trabalho de conclusão no curso de Serviço Social. "Os professores queriam saber de onde havia saído aquilo. Diziam que não dava para usar sem nenhuma referência bibliográfica. Então vamos começar a usá-la, eu disse."
Durante muito tempo, Iara diz que o Afro-Sul foi mais conhecido em suas participações no Carnaval do que como um grupo de dança, propriamente. Não faziam parte das atividades do circuito no Estado. "Mas, quando precisavam de alguma apresentação relacionada aos negros, era a gente que chamavam." Ela lembra que os bailarinos começaram a serem vistos quando Airton Tomazzoni assumiu, em 2005, o Centro Municipal de Dança da Capital.
O coreógrafo, jornalista, diretor do Centro Municipal de Dança de Porto Alegre e diretor do Grupo Experimental de Dança da Capital (GED) conta que em sua chegada encontrou um cenário que se direcionava especialmente ao balé e à dança contemporânea e algumas ações bastante pontuais, como esporádicos festivais de folclore. Tomazzoni comenta que a intenção foi reconhecer e valorizar o Afro-Sul não como um grupo exótico, mas de quem conta com "uma produção cênica valiosa". "Temos, sim, uma grande mestra e professora que apresenta outros parâmetros de movimentos e de vocábulo. Traz um enriquecimento de qualidades de movimentação que muitas outras técnicas não utilizavam ou não tinham o entendimento", destaca.
Um dos frutos dos anos de prática de Iara Deodoro é o Grupo Afro, de Nova Prata. Criado em 1998 por jovens e adolescentes, o seu principal objetivo é o resgate da cultura negra. Rosa Gotardo foi Secretária de Assistência Social de Nova Prata e coordenou o projeto Arte e Vida, desenvolvido pelo poder público, que apoiou o Grupo Afro, no ano de 2000.
Ela conta que, com a orientação de Iara, teve início o resgate da valorização da cultura negra através da dança, além da coreógrafa ter um papel fundamental no incentivo e nos ensinamentos aos participantes. “Ela fez um trabalho maravilhoso no qual o grupo começou a participar do festival internacional de folclore de Nova Prata. Iara afetou e ainda afeta os integrantes do grupo, pois deixou neles o espírito de valorização e de que podem, se quiserem, lutar por seus sonhos.”
Na conversa com a reportagem do Jornal do Comércio, a coreógrafa e bailarina do grupo Afro-Sul Edjana Deodoro intercala a menção à fundadora da instituição entre "Iara" e "minha mãe". Essas figuras se fundem no discurso e na vida. "É o ventre de onde eu vim, minha provedora de vida. Tenho uma relação para muito além da dança. Mas, claro, ela é uma referência para mim, porque é a base de toda a minha trajetória artística", diz Edjana, que também menciona o pai, o cantor e compositor Paulo Romeo. "Posso dizer que fui educada desde pequena pela metodologia Iara Deodoro."
Edjana, que foi uma das ministrantes do Curso de Introdução à Metodologia Iara Deodoro, qualifica a sistematização da mestra como intuitiva, porque Iara enxerga a singularidade de cada bailarino, ultrapassando questões de rendimento e cobrança de padrões. Isso acaba sendo reproduzido no palco, pois, mesmo que a coreografia seja a mesma para todo o grupo, ela preza pela personalidade manifestada por cada corpo. Edjana chama a atenção para a conexão presente entre os integrantes do grupo, construída no dia a dia.
Crianças circulavam pelo espaço durante os ensaios antes da quarentena, eram cuidadas pelos colegas enquanto os pais dançavam. Os bailarinos mantinham contato fora da instituição. "Quem é aluno do Afro-Sul precisa entender que isso faz parte da metodologia. A riqueza que as pessoas veem no palco não é produto apenas de ensaio, de concepção de coreografia. Ela é fruto desta vivência", comenta a filha do meio de Iara e Paulo Romeo. O casal tem outras duas filhas: a jornalista Paola Deodoro e a médica Khadija Deodoro.
Mas a dança não se faz sozinha no Grupo Afro-Sul. Desde a sua criação, ela anda junta com a música - este, aliás, foi o mote que uniu os jovens em 1974. Paulo Romeo, junto aos demais músicos, é quem executa as músicas ao vivo nos ensaios e espetáculos. O compositor comenta que, na cosmovisão africana, música e dança estão sempre juntas e, assim, funciona na prática: “Às vezes, acontece de eu ter uma música e a Iara criar uma coreografia em cima, noutras eu compor a música a partir de uma coreografia”.
Durante as aulas cotidianas, a trilha sonora do grupo é composta por compositores e intérpretes negros gaúchos, como Giba Giba, Glau Barros, Kako Xavier, Jorge Foques, Loma, Marco Farias e o próprio Paulo Romeo.

A dança é um vazio preenchido

Sou assistente social de profissão e coreógrafa e bailarina de paixão, declara Iara Deodoro
BRUNO GOMES/DIVULGAÇÃO/JC
Uma das bailarinas do grupo de Música e Dança Afro-Sul, e que também ministrou o Curso de Introdução à Metodologia Iara Deodoro, Natália Dornelles destaca que a importância de Iara se dá pelo fato de ela ser uma mulher negra e conseguir resgatar, manter e preservar o conhecimento de sujeitos afrodiaspóricos que descendem de uma cultura que faz parte do Brasil.
Para Natália, isso deveria ser assimilado na formação de uma concepção em dança. "Não tem como a gente refletir em dança sem essa corporealidade, que é fundamental para a gente se pensar como pessoas pretas no mundo, assim como sem a oralidade das mais velhas."
Natália também é educadora social e integrante dos projetos Corpo Negra e Brincantes do Paralelo 30 - ambos desenvolvidos na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
A bailarina acrescenta que, por muito tempo, Iara ocupou o lugar de "a única mulher preta" no cenário de Porto Alegre e do Estado como um todo. Por isso, ela se torna uma referência para estudantes e comunidade negra da dança. Entretanto, Iara - e não apenas ela - quer mais, e dá o recado: "Eu digo aos estudantes negros de dança quando me convidam para alguma palestra na faculdade: hoje vocês estão aqui, sentados estudando. Mas eu quero que amanhã um de vocês me convide para ministrar uma palestra na aula em que sejam vocês os professores. Caso contrário, não vai adiantar".
A beleza e a fluidez dos movimentos das bailarinas e bailarinos do Grupo Afro-Sul podem se explicar, em parte, pelo que Iara Deodoro entende por dança. Ela explica que a dança poderia ser entendida como "movimento". Mas para que se enxergue a dança entre a elevação de um braço, por exemplo, e a de outro existe um espaço. "Para mim, a dança está neste ponto. É toda a tua subjetividade, a tua alegria, a tua tristeza, o teu sorriso. É o que tu entendeu entre o primeiro e o segundo movimento. Tu não consegues dançar sem colocar sentimento. Senão tu não estás dançando, mas executando movimentos."
O que é ser bailarina para uma artista com mais de quatro décadas de carreira? Para Iara, é ter paixão pela dança, foge da questão de ter uma formação que seja acadêmica: "Eu sempre digo que sou assistente social de profissão e coreógrafa e bailarina de paixão. Não fosse isso, com certeza eu não estaria aqui conversando contigo, nem este grupo não existiria".

* Priscila Pasko é escritora e jornalista. É autora do livro de contos Como se mata uma ilha (Zouk, 2019) - Prêmio Açorianos 2020 na categoria conto. Também integra a coletânea Novas contistas da literatura brasileira (Zouk, 2018).
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