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reportagem cultural

- Publicada em 20h14min, 11/02/2021. Atualizada em 11h59min, 12/02/2021.

Guilhermino Cesar, o mineiro que escreveu a história da literatura do RS

Pesquisador é autor da icônica obra 'História da Literatura do Rio Grande do Sul (1737-1902)'

Pesquisador é autor da icônica obra 'História da Literatura do Rio Grande do Sul (1737-1902)'


GUILHERMINO CESAR MEMÓRIA E HORIZONTE/REPRODUÇÃO/JC
Rafael Gloria*
Ao chegar em Porto Alegre, em 1943, vindo de Minas Gerais, sua terra natal, Guilhermino Cesar percebeu, com o faro de pesquisador que teve por toda vida, várias oportunidades à frente: uma universidade pública se estruturando, uma história do Rio Grande do Sul agitada e uma rica e fértil literatura. Nesta época, ele já tinha ajudado a fundar o curso de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais e agora era indicado para um período de três anos como chefe da Casa Civil do Rio Grande do Sul pelo interventor federal Ernesto Dornelles. Vivia-se sob o Estado Novo, caracterizado pela centralização do poder na figura de Getúlio Vargas, nacionalismo, anticomunismo e autoritarismo.
Ao chegar em Porto Alegre, em 1943, vindo de Minas Gerais, sua terra natal, Guilhermino Cesar percebeu, com o faro de pesquisador que teve por toda vida, várias oportunidades à frente: uma universidade pública se estruturando, uma história do Rio Grande do Sul agitada e uma rica e fértil literatura. Nesta época, ele já tinha ajudado a fundar o curso de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais e agora era indicado para um período de três anos como chefe da Casa Civil do Rio Grande do Sul pelo interventor federal Ernesto Dornelles. Vivia-se sob o Estado Novo, caracterizado pela centralização do poder na figura de Getúlio Vargas, nacionalismo, anticomunismo e autoritarismo.
Entre as tantas funções que desempenhou, em diferentes áreas, a de historiador da Literatura do Rio Grande do Sul é uma das mais importantes e celebradas, principalmente devido ao livro História da Literatura do Rio Grande do Sul (1737-1902), que teve a sua primeira publicação em 1956. Considerada uma obra importante na formação cultural e intelectual do Estado, a publicação procura estabelecer as origens da tradição literária local.
Para o doutor em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Jocelito Zalla, o trabalho de Guilhermino Cesar na historiografia literária é reconhecido por várias gerações de intelectuais e pesquisadores. "Ainda hoje, é lido na busca de fontes, informações e até mesmo de análises e interpretações sobre a produção literária gaúcha. Talvez pelo domínio das ferramentas críticas, por sua experiência com a escrita e com a vida literária no cenário mineiro, ou mesmo pelo trato com autores sofisticados e relevantes de Porto Alegre", diz. Zalla estudou em sua tese a interpretação nacionalista da literatura gauchesca a partir de um enquadramento de memória realizado pela geração modernista nos anos 1950, da qual Cesar é um dos maiores expoentes no Estado.
O livro segue uma metodologia de trabalho composta por uma ampla investigação que aumentou o conhecimento acadêmico sobre a literatura produzida no Rio Grande do Sul no século XIX, com idas também para o período colonial, tratando de escritores até de Colônia de Sacramento, como Hipólito José da Costa, por exemplo. "De fato, ele empreendeu um verdadeiro trabalho arqueológico nas bibliotecas mais antigas do Estado, levantando títulos desconhecidos e autores esquecidos pelo tempo, o que permitiu outra visão, quase sistêmica, da tradição literária regional", explica Zalla. Para a professora aposentada da Letras da Ufrgs, Léa Masina, sua História da Literatura renovou a postura herdada dos manuais do século XIX, nitidamente historicistas, pela inclusão de um recorte teórico-crítico atualizado, presente desde o projeto do livro: "Cabe referir também os inúmeros ensaios que publicou sob a forma de livros e artigos, todos submetidos ao rigor e ao esmero intelectual que o caracterizavam".
A sensibilidade modernista de Guilhermino Cesar também fez diferença na escrita da obra, trazendo assuntos mais populares. "Ele tratou de autores consagrados da elite, mas também olhou para a cultura oral, abordou o cancioneiro, redescobriu poetas populares e enfatizou a presença feminina na vida letrada da província. De certa maneira, pode-se dizer que o livro estabeleceu uma agenda paralela, menos aristocrática, de preocupações para o próprio historiador e outros estudiosos", diz Zalla. Ele pondera, entretanto, que faltou uma teoria da história que lhe permitisse avaliar o sentido do conjunto levantado: "Como fez, por exemplo, o seu contemporâneo Antonio Candido em São Paulo, principalmente em Formação da Literatura Brasileira, de 1959".
A obra foi reeditada em 1971 e em 2006, já depois da morte de Guilhermino Cesar, que aconteceu no dia 7 de dezembro de 1993. Logo depois, em 1995, a Ufrgs, do qual foi professor durante muitos anos, o homenageou com a inauguração da Praça Guilhermino Cesar, junto ao Instituto de Letras, no Campus do Vale.

Marcas profundas na universidade

Escultura e praça em homenagem ao escritor em frente ao Instituto de Letras no Campus do Vale da Ufrgs
Escultura e praça em homenagem ao escritor em frente ao Instituto de Letras no Campus do Vale da Ufrgs
MARIANA ALVES/JC
Guilhermino Cesar, como professor catedrático de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Ufrgs, marcaria também a vida de alunos e orientandos, formando toda uma geração de pesquisadores e intelectuais. Maria do Carmo Campos, atualmente professora aposentada na área de Letras da Ufrgs, foi sua aluna na cadeira de Literatura Brasileira em 1965. Na época, o professor já tinha sido agraciado com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Coimbra, na qual também lecionou - o que, de alguma forma, tornava toda aura ao seu redor ainda mais imponente.
O trabalho da cadeira era escrever uma monografia sobre um escritor brasileiro à escolha do estudante, sendo que o projeto era avaliado em uma entrevista prévia com o próprio Guilhermino. "Quando respondi que queria escrever sobre Guimarães Rosa, a reação dele foi de evidente contrariedade. Por tratar-se de um escritor recente na época, com obra desafiadora, não poderia ser estudado por aluna iniciante. Nós, alunos de Letras, enfrentávamos dois interrogatórios exigentes no início e no final do trabalho, todo realizado sob a responsabilidade do aluno. Não havia a figura do orientador. Fiquei surpresa quando, ao final de 1967, o eminente mestre concedeu-me uma nota 'máxima', o que me encorajou para outros desafios", diz Maria.
Léa Masina acredita que, além de participar da renovação do curso de graduação, talvez a maior contribuição de Guilhermino tenha sido a postura ética e aberta à exposição e ao debate de ideias que disseminava através de suas aulas. "Em um período conturbado e difícil como foi o da ditadura militar no Brasil, Guilhermino conseguiu renovar os estudos literários na Universidade, introduzindo na área uma visão crítica, de acordo com seu projeto intelectual revisionista. Sua contribuição foi a de submeter o viés historicista dominante nas abordagens dos estudos literários ao eixo disciplinar da Teoria e da Crítica Literária", diz. Ela também tem passagens marcantes com o professor Guilhermino. "Ele atendia aos alunos com hora marcada, para além da aula. Com uma pequena máquina de escrever tipo Olivetti, entrevistava um a um os pretendentes, preenchendo fichas individuais. Queria saber o que o aluno lera até então. Quais os autores preferidos? Se lia poemas. E também se era casado, se tinha filhos, e se namorava. E quantas horas por dia restavam para o estudo e a leitura", afirma. No prazo de um mês, então, ele retornava para as entrevistas. "Ele lia, comentava e não poupava ninguém. Guilhermino orientava individualmente todos os trabalhos com rigor", aponta.
O professor foi também um dos fundadores do curso de pós-graduação da instituição, em 1972, época em que especializações desse tipo ainda eram restritas. "Não consta que houvesse bolsas de estudo e o nível de rigor e exigências aos alunos pautava-se por critérios 'indiscutíveis'. Foi fundador, professor e orientador de várias dissertações de mestrado em Literaturas da Língua Portuguesa. Lembro de um inesquecível semestre por ele ministrado sobre toda a obra de Graciliano Ramos, no qual muitos horizontes se abriram", lembra Maria do Carmo. Léa recorda que a cadeira de Literatura Sul-Rio-Grandense, que existe até hoje no currículo do curso, foi criada por ele após ter ministrado no mestrado a disciplina sobre Regionalismo e obra de Simões Lopes Neto. "Nos anos 1970, a literatura sul-rio-grandense começava a ser mais conhecida, lida e divulgada no Estado. E mais publicada através de esforços conjugados entre novas editoras que surgiam e o Instituto Estadual do Livro", explica Léa. Atualmente, há também o Núcleo de Literatura Brasileira Guilhermino Cesar, inaugurado em 1999, que recupera o seu nome e o patrimônio da área da literatura brasileira no Instituto de Letras da Ufrgs.

Reverenciando o teatro e a obra de Qorpo Santo

Guilhermino Cesar com a sua esposa e seu filho na Europa em 1965
Guilhermino Cesar com a sua esposa e seu filho na Europa em 1965
GUILHERMINO CESAR MEMÓRIA E HORIZONTE/REPRODUÇÃO/JC
Em 1969, Guilhermino Cesar publicou a primeira antologia de peças de Qorpo Santo: As relações naturais e outras comédias. A consagrada obra apresenta e faz uma análise rigorosa do dramaturgo-escritor do século XIX que, até então, permanecia esquecido. Na primeira parte, Cesar apresenta uma biografia detalhada e na segunda parte faz uma reflexão crítica e chega a situá-lo como o "criador" do Teatro do Absurdo.
Neste sentido, há também a conhecida disputa com o jornalista Aníbal Damasceno Ferreira acerca de quem seria o verdadeiro responsável pelo redescobrimento da obra de Qorpo Santo. Conforme a pesquisadora Maria Clara Gonçalves, em tese defendida na Unicamp em 2017, Aníbal interessa-se por Qorpo Santo ao ter contato com sua poesia ainda na juventude, ao ler um poema do autor publicado em uma obra de seu tio, o conhecido historiador Athos Damasceno. Atraído pela excentricidade de seus versos, ele inicia um processo de investigação acerca de sua produção literária e acaba encontrando dois volumes da Ensiqlopédia.
Resumidamente, Aníbal decide emprestar os livros ao professor Guilhermino Cesar que, logo depois, viaja a Portugal para lecionar na Universidade de Coimbra sem devolvê-los. A procura por Cesar se justifica por ele já ser um dos intelectuais mais respeitados da época, com o livro História da Literatura do Rio Grande do Sul (1737-1902) já publicado. Em seguida, Aníbal recupera os livros com o filho de Guilhermino que ainda estava em Porto Alegre, e escolheram as três peças para uma tentativa de encenação. Segundo consta na pesquisa de Maria Clara Gonçalves, o diretor do curso de Artes Dramáticas da Ufrgs, quando soube que os livros haviam sido tirados daquela forma da casa do professor Guilhermino Cesar, sem que ele estivesse presente, não permitiu a encenação e mandou devolvê-los. Anos mais tarde, entretanto, em 1966, com o apoio de Guilhermino, que já havia retornado de Portugal, a peça foi encenada.
Conforme o artigo Guilhermino Cesar, Qorpo Santo e os radicais livres, do pesquisador e professor Flávio Aguiar, a disputa, entretanto, continuou quando o jornalista Janer Cristaldo escreveu um texto intitulado Qorpo Santo e os hipotróficos, publicado no Caderno de Sábado, em 1968, acusando Guilhermino Cesar de se apropriar da redescoberta, e que na verdade ela se devia graças a Aníbal Damasceno. Ele se defendeu no mesmo jornal, escrevendo uma série de artigos, intitulada Minha participação no caso Qorpo Santo, onde recusa o título de descobridor. Aníbal Damasceno também escreveu sobre o caso no mesmo espaço, e não reivindicou o título. Na opinião do pesquisador Luís Francisco Wasilewski, a obra de Qorpo Santo se tornou conhecida porque Guilhermino Cesar acabou referenciando o trabalho. "Com a antologia, ela pode ser estudada e pesquisada, a edição com o teatro completo e a crítica é uma maravilha", diz.
Ainda segundo Wasilewski, Guilhermino Cesar foi um agitador cultural da época, ajudando a criar o curso de Artes Dramáticas da Ufrgs, em 1958, sendo também um dos seus primeiros professores, por um breve período. Além disso, dirigiu alguns espetáculos, como Antigone, de Jean Anouih, em 1948, e o Festival Tchekov, dedicado à obra do autor russo, em 1949, ambas produções pelo pelo Teatro de Estudantes do Rio Grande do Sul - movimento embrião do processo de modernização do teatro em Porto Alegre.

A única vaidade no mundo

Com Ascanio Lopes e Francisco Ignácio Peixoto, amigos da revista Verde, de Cataguases (MG)
Com Ascanio Lopes e Francisco Ignácio Peixoto, amigos da revista Verde, de Cataguases (MG)
GUILHERMINO CESAR MEMÓRIA E HORIZONTE/REPRODUÇÃO/JC
Em entrevista à Léa Masina e a Vera Morganti, publicada na série Autores Gaúchos, pelo Instituto Estadual do Livro, em 1996, Guilhermino Cesar disse: "Mas se um dia alguém quiser lembrar de mim depois da minha morte, que se lembre do poeta. É a única coisa que me identifica. Eu só tenho essa vaidade no mundo. Me considero poeta. Acho que pela educação que tive e a experiência poética que tenho hoje, vivo a poesia".
De fato, segundo a professora Maria do Carmo Campos, a poesia sempre esteve presente na vida de Guilhermino, desde a infância. Jovem, começou a publicar poemas na revista Verde, de Cataguases, que marcou história como uma das mais importantes vertentes do movimento modernista em Minas Gerais.
Sua obra de estreia é o livro Meia-pataca, que escreveu em parceria com Francisco Inácio Peixoto, em 1928. Na mesma época, conheceu escritores e poetas que começavam a ganhar notoriedade, como João Alphonsus, João Dornas Filho, e Carlos Drummond de Andrade, que, inclusive, depois seria seu padrinho de casamento e, em 1978, homenageou o amigo com Sequestro de Guilhermino Cesar, situação imaginária em que ele e outros poetas mineiros viriam a Porto Alegre na calada da noite para levá-lo de volta.
Já no Rio Grande do Sul, Cesar continuou seu trabalho poético em paralelo à pesquisa histórica e literária. Para Maria do Carmo, a sua obra poética é tecida por metáforas remotas e modernas, que frequentam os mais diferentes lugares para onde o autor foi em viagem ou na fantasia: "Sua imaginação era arquitetada pelo saber da vida e das leituras, do convívio com a poesia brasileira, portuguesa, francesa e outras. Os poemas registram fontes históricas e memória poética de diferentes espaços, apresentando uma inusitada toponímia".
É consenso que o autor não é tão lembrado pelo seu trabalho poético, em frente a suas contribuições nas áreas de pesquisa histórica. A doutora em Letras Vivian Albertoni diz que é uma pena que ele não seja mais conhecido por esse lado: "Especialmente por Sistema do imperfeito, de 1977, quando critica a sociedade desumanizada, o crescimento da tecnologia". Ela vê um paralelo com As impurezas do branco (1973), de Drummond: "A impressão é que eles estavam sentindo mais ou menos o mesmo, uma sociedade ficando cada vez mais mecanizada no Brasil, que perdia muito de sua sensibilidade".
Léa Masina acredita que os poemas de Sistema do imperfeito acabam revelando o humanismo de Guilhermino Cesar, que era pouco afeito à religiosidade e ao sentimentalismo, mas profundamente verdadeiro. "Há poemas de uma grandeza impressionante como O animal da tarde, com cortes bruscos e ritmos surpreendes, e lembro versos de outro pequeno poema (Viver no ácido) que resume um lado expressivo do autor: "Viver no ácido é o meu sistema/ Não que o tenha inventado/ Eu/ Recebi de presente, não sei como/ É um modo de morrer se esfarelando".

Inspiração civilizatória em suplemento literário

Pesquisador mantinha biblioteca no apartamento da rua Senhor dos Passos
Pesquisador mantinha biblioteca no apartamento da rua Senhor dos Passos
/Guilhermino Cesar Memória e Horizonte/REPRODUÇÃO/JC
Intelectual versátil que era, Guilhermino também se enveredou nas páginas de jornal, sendo um colaborador fixo do famoso semanário Caderno de Sábado, do Correio do Povo, que marcou época na segunda metade do século XX. Segundo Vivian Albertoni, que estudou os textos de Cesar no suplemento em sua tese de doutoramento na pós-graduação em Letras da Ufrgs, é difícil ter noção hoje da importância que era ter uma página inteira na publicação. "Tratava-se do lugar da Cultura, lugar nobre do Correio, que era o grande jornal da época", diz.
O professor colaborou em dois momentos distintos, logo no início do Caderno, em 1967, já no primeiro número, e então de forma esparsa nos anos seguintes, até 1971, quando iniciou uma publicação semanal, que se estenderia pelos próximos dez anos. Para Vivian, Guilhermino tem uma espécie de projeto civilizatório na sua participação no suplemento. "Ele utiliza aquele espaço gigantesco na imprensa para disseminar conhecimento. Não vejo outro motivo para ele aceitar compartilhar suas reflexões sobre diversos temas com os leitores em um jornal de grande circulação, sendo que ele não precisava disso e nunca os utilizou para autopromoção", diz. Entre alguns dos autores mais citados em suas colunas, por exemplo, estavam Guimarães Rosa, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade e Mário de Andrade.
Artigos referentes à história do Rio Grande do Sul também eram frequentes. "O nome da minha tese é Em busca do ouvido certo, porque assim como na poesia em que ele vai colocar muitas referências e o leitor que vá atrás, no Caderno de Sábado vão ter artigos históricos, relatando o que ele descobriu em suas pesquisas, que são espécies de ensaios, sempre jogando o nível para cima", acredita. Em 1994, foi organizado pela professora Tânia Carvalhal, já falecida, uma seleção com 48 textos publicados por Guilhermino no Caderno de Sábado que tratavam da Literatura do Rio Grande Sul, intitulada Notícias do Rio Grande.
 

Rastros do historiador do Rio Grande do Sul

Esforço em ampliar fontes e documentos sobre o passado da região é reconhecido
Esforço em ampliar fontes e documentos sobre o passado da região é reconhecido
ACERVO DE FAMÍLIA/DIVULGAÇÃO/JC
A produção de Guilhermino Cesar como historiador do Rio Grande do Sul se insere em um momento em que os estudiosos locais tendiam priorizar a contribuição lusa à formação do Estado, descartando a contribuição jesuítico-espanhola presente na Região das Missões, que só tardiamente foi incorporada ao domínio português.
Em entrevista ao Jornal do Comércio, o doutor em História pela UFRJ Jocelito Zalla fala sobre a importância do trabalho de Guilhermino no quesito de fontes históricas: "Em suma, ele estendeu alguns limites ideológicos da historiografia tradicional na qual foi socializado, valendo-se de um levantamento muito mais apurado de documentos, mas não superou os preconceitos de sua geração. Para isso, foi preciso mesmo esperar pela pesquisa histórica universitária, informada pelos desenvolvimentos paralelos da Sociologia, da Arqueologia e da Antropologia". 
JC Viver - Qual o papel de Guilhermino Cesar no sentido das fontes históricas do Estado?
Jocelito Zalla - Acredito que aqui possa se encontrar o legado de Guilhermino Cesar para a área. É digno de reconhecimento seu esforço em ampliar as fontes e os documentos conhecidos sobre o passado da região, mapeando também autores esquecidos pelo tempo, em fundos arquivísticos os mais variados, incluindo acervos de países vizinhos.
Em 1969, o historiador reuniu esse material no livro Os primeiros cronistas do Rio Grande do Sul, lançando luz sobre o período da ocupação espanhola do espaço geográfico que se tornaria o Rio Grande, algo bastante negligenciado pela sua geração, em razão de compromissos políticos nacionalistas. Com certeza, esses textos ainda têm validade para pesquisas históricas contemporâneas sobre o século XVIII, exigindo apenas os cuidados usuais da historiografia científica com a crítica de fontes.
Vale destacar ainda que, mesmo não abrindo mão de interpretações lusitanistas, empenhadas em certificar a brasilidade do estado pela colonização luso-brasileira tardia da fronteira Sul, Guilhermino Cesar não teve pudores em levantar documentos históricos de língua espanhola, produzidos pela administração das províncias rio-platenses. Nem mesmo em dialogar, em seus textos, com historiadores da Argentina, do Uruguai, e do Paraguai, espécie de tabu dos anos 1920-1930, reanimado pelos equívocos “patrióticos” de Moysés Vellinho.
Viver - O que significa isso na prática?
Zalla - A ampliação das fontes significou, portanto, uma dilatação da perspectiva. Nesse sentido, há em Guilhermino Cesar também uma expansão ideológica, que superava entraves básicos da compreensão do nosso passado. Algo desse plano ocorria no seu reconhecimento do papel das tradições de matriz africana na cultura gaúcha, consideradas como “das mais típicas”, em um de seus textos para o livro Rio Grande do Sul: Terra e Povo (1964).
De outro lado, o autor ainda insistia em estigmas raciais históricos. Em muitas passagens, reproduziu o mito de que escravidão não foi massivamente usada no estado, minorando a presença negra na população local, “demograficamente em percentagem muito inferior”, usando suas palavras.
Em Origens da economia gaúcha, chamou os conquistadores portugueses de “promotores da civilização”, revelando uma concepção eurocêntrica de cultura, já bastante atrasada. Não bastasse, repreendeu a suposta dificuldade do indígena em desenvolver o hábito do trabalho, “por ele desempenhado sem muito gosto”.
Em outra passagem do mesmo livro, é o catolicismo que interfere na descrição e análise dos fatos. No caso, a resistência indígena à aculturação. Cesar lamentou que o povo guarani não tenha aproveitado o estilo de vida do jesuíta, que foi romantizado como “um branco que lhe trazia, com a palavra do Evangelho, a proteção material e um carinho verdadeiramente exemplar”. Uma visão paternalista muito ingênua das dinâmicas de colonização não apenas das terras, mas também das ideias e dos corpos, quer dizer, da dominação simbólica e da exploração do trabalho dos povos autóctones.

Principais publicações


/EDITORA GLOBO/EDUCS/DIVULGAÇÃO/JC
Historiografia
O criador do romance no Rio Grande do Sul (estudo sobre Caldre e Fião) In: Fundamentos da cultura rio-grandense - Porto Alegre, 1955
História da Literatura do Rio Grande do Sul (1737 - 1902) - Porto Alegre, 1956
A Primeira Geração Romântica da Literatura Rio-Grandense - Araújo Porto Alegre In: Fundamentos da cultura rio-grandense - Porto Alegre, 1957
O Barroco e a Crítica Literária no Brasil In: Atas do V Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros - Rio de Janeiro, 1963
Primeiros cronistas do Rio Grande do Sul (1605-1801) - Porto Alegre, 1969
História do Rio Grande do Sul no Período Colonial (Porto Alegre, 1970)
O contrabando no Sul do Brasil - Porto Alegre, 1978
Poesia
Lira Coimbrã e Portulano de Lisboa - Coimbra, 1965
Arte de matar - Porto Alegre, 1969
Sistema do imperfeito e outros poemas - Porto Alegre, 1977
Cantos do Canto Chorado - Porto Alegre, 1990

* Rafael Gloria é jornalista, mestre em Comunicação pela Ufrgs e editor fundador do Coletivo de Jornalismo Cultural Nonada – Jornalismo Travessia e sócio da agência Riobaldo.
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