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reportagem cultural

- Publicada em 28 de Janeiro de 2021 às 19:36

Músico e agitador cultural, Carlinhos Hartlieb abriu caminhos na cena gaúcha

No aniversário de sua morte, ele é lembrado por parceiros como artista consagrado à música e aos amigos

No aniversário de sua morte, ele é lembrado por parceiros como artista consagrado à música e aos amigos


GERSON SCHIRMER/DIVULGAÇÃO/JC
Nesta sexta-feira (29), passageiro como um risco no céu, completam-se exatos 37 anos desde que o cantor, compositor e agitador cultural Carlos Alberto Weyrauch Hartlieb, o multifacetado Carlinhos Hartlieb, partiu deste mundo em circunstâncias, até hoje, não esclarecidas. Quando foi encontrado morto em sua cabana na Praia do Rosa, em Imbituba (SC), o ariano Carlinhos estava prestes a iniciar mais um ciclo de vida dali dois meses, quando faria aniversário.
Nesta sexta-feira (29), passageiro como um risco no céu, completam-se exatos 37 anos desde que o cantor, compositor e agitador cultural Carlos Alberto Weyrauch Hartlieb, o multifacetado Carlinhos Hartlieb, partiu deste mundo em circunstâncias, até hoje, não esclarecidas. Quando foi encontrado morto em sua cabana na Praia do Rosa, em Imbituba (SC), o ariano Carlinhos estava prestes a iniciar mais um ciclo de vida dali dois meses, quando faria aniversário.
A precoce morte, porém, não impediu que sua breve passagem pela vida fosse repleta de realizações artísticas, seja no teatro, na música ou na vida pública. Carlinhos Hartlieb literalmente fez e aconteceu. Considerado um dos nomes mais importantes da cena musical gaúcha entre o final dos anos 1960 e o início dos 1980, por seu trabalho de compositor e por sua atuação como líder cultural, Carlinhos, sobretudo, foi um aglutinador de pessoas e ideias.
Amante da bossa nova e apaixonado por rock'n'roll, especialmente os Beatles (John Lennon era seu ídolo maior), Hartlieb deu luz às suas primeiras criações musicais em 1965. E, por outro lado, seu arrebatamento pela natureza era tão intenso quanto seu pendor artístico. Carlinhos amava o mar e seus abissais mistérios e, em terra firme, foi um aficionado pelos aracnídeos, o que lhe valeu entre os amigos o apelido de "Aranha".
Envolvido na "teia" tropicalista, em 1968 o compositor inscreveu-se na etapa regional do II Festival Universitário de Música de Porto Alegre, onde, acompanhado pelo grupo de rock mais notório da cidade, o Liverpool Sounds, arrebatou o primeiro lugar com Por favor, sucesso. Daí surgiu o convite para o Festival Internacional da Canção no Rio de Janeiro (marcado pela estrondosa vaia tomada por Caetano Veloso em É proibido proibir; Carlinhos, aliás, na ocasião também tomou uma saraivada de vaias).
Em 1969, pela gravadora Equipe, o Liverpool gravou no Rio o LP Por favor, sucesso, um dos primeiros álbuns lançados por uma banda de rock gaúcha. Além da celebrada faixa-título, Carlinhos ainda assinava no disco outras duas canções: Água branca e Cabelos varridos. Mimi Lessa, lendário guitarrista do Liverpool e do Bixo da Seda, diz que foi Hartlieb quem mostrou a todos eles, "guris provincianos do IAPI", um lado mais "intelectual" e cosmopolita da arte. "A linguagem de compositor do Carlinhos, na época, era léguas mais avançada do que a nossa", confessa Mimi.
De volta a Porto Alegre, em 1972, após passagem pelo Teatro Oficina, fundado pelo dramaturgo José Celso Martinez Corrêa, Carlinhos montou seu primeiro show, Sempre é assim, no Teatro de Câmara. O músico e iluminador cênico Gerry Marquez o acompanhou ao contrabaixo desse período até seus últimos dias. Para Gerry, Carlinhos foi o cara que (ao infundir gêneros como milonga, jazz, rock e pop) conseguiu, pela primeira vez, amalgamar o urbano com o folclore gauchesco, modernizando, dessa forma, a tradicionalíssima música campeira. "Nós éramos os 'novos gaúchos'", preconiza.
No clímax do escaldante verão de 1975, Carlinhos passou a organizar, no Teatro de Arena, em Porto Alegre, as efervescentes Rodas de Som. As rodas foram responsáveis por apresentar à cidade (e ao Estado) os novos nomes da música gaúcha daqueles dias, como Nelson Coelho de Castro, os grupos Utopia, de Bebeto Alves, e Hallai Hallai. Seria apenas três anos depois, contudo, que Carlinhos finalmente faria sua estreia discográfica gravando (juntamente com artistas como Raul Ellwanger, Cláudio Vera Cruz e Nando D'Ávila, entre outros) no LP coletivo Paralelo 30 - tido como um marco da música pop gaúcha - as faixas Admirado por todos e Maria da Paz.
Em 1983, Carlinhos Hartlieb dedicou-se inteiramente à concepção de seu primeiro álbum individual. Concluídas as gravações em novembro, no estúdio ISAEC, rumou para o Rio em busca de uma grande gravadora que topasse o lançamento, mas não foi bem-sucedido. Nos primeiros dias de 1984, querendo recobrar energias, Carlinhos foi passar uns dias em sua casinha de madeira, defronte ao verdejante mar do Rosa. Na noite de 29 de janeiro, em uma festa com amigos, cantou e tocou violão madrugada adentro. Seu corpo foi encontrado no dia 3 de fevereiro, enforcado, dentro de sua cabana. Embora sua morte permaneça sem resposta, mais de três décadas depois, Carlinhos, pelo menos, morreu envolto pela natureza que tanto amava.  

Cabelos varridos

Morte do músico Carlinhos Hartlieb completa 37 anos nesta sexta-feira (29)

Morte do músico Carlinhos Hartlieb completa 37 anos nesta sexta-feira (29)


CURTA UM RISCO NO CÉU/REPRODUÇÃO/JC
De forte essência lírica, as faixas sulcadas no LP Risco no céu resumem a equilibrada junção de bossa nova, rock e folclore sulista sensivelmente forjada pelo habilidoso Carlinhos Hartlieb. Arregimentados por Carlinhos, participa do disco (cujo lançamento, que contou com o decisivo apoio do jornalista Juarez Fonseca e do produtor Ayrton dos Anjos, o Patineti, deu-se apenas em 1988, por iniciativa da então recém-criada Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre), uma pequena constelação de músicos gaúchos. Dentre inúmeros outros, os saudosos Bebeco Garcia (Garotos da Rua) e Flávio Chaminé (Succo), Fernando Pezão (Musical Saracura) e Pery Sousa (Almôndegas).
Em 2004, com produção de Fonseca e Gerry Marquez e lançamento viabilizado pelo selo Barulhinho, o álbum voltou a riscar as ondas sonoras, dessa vez no formato de um CD. Com nova mixagem, feita por Marcos Abreu a partir da fita-máster original, a reedição de Risco no céu ganhou o acréscimo de seis faixas-bônus: Por favor, sucesso, Azulão, Sonho campeiro, Teiniaguá, Associação das cigarras e a clássica Maria da Paz.
No disco, que não chegou ver brilhar nem tampouco rodar, Carlinhos divide composições com Bebeco Garcia (no hino Nós que ficamos sós) e Hermes Aquino, que musicou a canção Linda. O autor dos hits Nuvem passageira e Machu Picchu lembra a ocasião em que Carlinhos lhe mostrou o que havia escrito e perguntou a ele o que achara: "Olhei rapidamente [a letra] e comentei que, fora a interessante mensagem, tinha boa métrica". Como a música era romântica, Hermes conta que deu a ela um "clima de balada lenta", quase latina. "Enviei a canção completa, em fita, pro Carlinhos. Daí, algum tempo depois, ele me ligou dizendo que marcara um horário em estúdio pra gente gravar. Coloquei o violão, criando uma base, e cantamos. Essa foi minha participação. É, de fato, como diz o nome, uma linda canção."
A parceria entre Hermes e Carlinhos era antiga. Vinha desde os tempos de Por favor, sucesso, no qual divide com ele, naquele disco, a autoria das faixas Água branca e Cabelos varridos ("Ah, teus cabelos varridos/ Pela chuva oblíqua/ Me locomovem, ao eterno êxtase").
Aquino recorda que a colaboração aconteceu numa das mesas do histórico bar Alaska, fincado na avenida Osvaldo Aranha, em Porto Alegre: "Foi muito divertido. O bar estava lotado. Vozerio. Um dizia uma frase e o outro complementava. Fomos apimentando a letra. Colocando coisas com algum sentido e outras meio nonsense. Eu, na época, estudava ali perto e estava com meu inseparável caderninho, onde anotei as ideias. Ainda devo ter esse caderno em algum lugar".

Homem-Aranha

No mesmo ano em que Risco no céu era lançado, o nome de Carlinhos Hartlieb era inscrito nas enciclopédicas páginas da história natural e da biologia. Em 1988, o emérito professor Herbert Levi, curador de aracnologia do Museu de Zoologia Comparativa da Universidade Harvard (EUA), catalogou uma espécie de aranha descoberta por Carlinhos, no Morro Santa Teresa, na Capital. Registrado como "Alpaida Hartliebi", o animal foi reconhecido por Levi como uma nova espécie de aracnídeo. Conforme Ricardo Ott, curador do Museu de Ciências Naturais do Rio Grande do Sul, na realidade existem, na coleção do museu, outros impressionantes 309 lotes de aranhas coletadas por Hartlieb, a maioria entre 1961 e 1964.
Em O som e a aranha, reportagem publicada na edição de 11 de março de 1973 do carioca O Jornal, Carlinhos demonstra o profundo respeito que nutria pelos aracnídeos. Biólogo nato, ele relembrou: "Tinha mais ou menos 11 anos quando me interessei pela primeira aranha, acompanhei sua vida, a construção da teia, a alimentação dos filhotes". E, com singelo desprendimento, sem desconfiar que um dia seu sobrenome seria dado a uma espécime de aracnídeo, dizia não fazer questão de reivindicar cientificamente as suas descobertas: "O nome científico [das aranhas] não tem, para mim, importância alguma. E, se fosse eu o descobridor de uma nova espécime, botava nela outro nome, nada científico".

Sessões da meia-noite

No início de 1975, músico passou a organizar as Rodas de Som, no Teatro de Arena

No início de 1975, músico passou a organizar as Rodas de Som, no Teatro de Arena


CURTA UM RISCO NO CÉU/REPRODUÇÃO/JC
Carlinhos Hartlieb foi, acima de tudo, um incansável agitador cultural. Além de sua diversificada música, no início de 1975, durante dois meses, passou a organizar as míticas Rodas de Som, no Teatro de Arena. As rodas, em cuja concorrida estreia se apresentou o Bixo da Seda, aconteciam sempre às sextas-feiras no "maldito" horário da meia-noite.
No livro Teatro de Arena: Palco de Resistência (Libretos), do jornalista Rafael Guimaraens, consta que, na primeira noite, 200 "magrões e magrinhas" ocuparam os assentos, os corredores e o hall de entrada. E, do lado de fora, quase mil pessoas queriam invadir o teatro: "Amontoados do lado de fora, eles [o público] puderam, pelo menos, ouvir o Bixo tocar".
Duas tardes por semana, das 16h às 20h, Carlinhos Hartlieb dava plantões no Teatro de Arena. Recebia inscrições e ouvia fitas cassete de artistas novos - alguns apresentavam suas músicas na hora e ele fazia a triagem. Naqueles dias, os jovens (os mais velhos idem) músicos, definitivamente, quase não tinham lugares na cidade onde tocar.
Foi o diligente Carlinhos, com as Rodas de Som, que deu palco para aquela nova geração. A iniciativa ajudou a lançar muitos artistas que, em meados dos anos 1970, iniciavam suas carreiras. Muitos deles, caso de Nelson Coelho de Castro, estrearam individualmente nas Rodas de Som.
Nelson recém completara 20 anos quando, de maneira "quase burocrática", ele diz, conheceu Carlinhos Hartlieb. Ele e o compositor Jorge Almeida, o "Bandolho", hoje artista plástico, se apresentariam na segunda edição das rodas, realizada na noite de 14 de fevereiro de 1975.
Às gargalhadas, Nelson relembra o encontro: "O Carlinhos levou eu e o Bandolho pra uma sala que existia lá no Arena e nos pôs a tocar ao vivo pra ele. Ele tomou umas notas ali na hora e, alguns dias depois, ligou dizendo: 'Ó, foram aprovados'. O jeito como o Carlinhos deu o anúncio era muito engraçado", diverte-se.
Nelson guarda vividamente na memória os olhos arregalados de Carlinhos Hartlieb, durante a triagem, quando os dois, ainda adolescentes, lhe mostraram suas canções. Eram tempos, define o compositor, em que as músicas ainda "mal ficavam de pé". Pessimista, Estranho moço, a composição de Bandolho, ele recita, pranteava: "Que estranho moço aquele/ Sorumbático, calado, olhos tristes marejados de estranha e profunda dor/ Em direção ao cemitério". Palco, a canção de Castro, por sua vez, era mais "metafísica": "Tudo está douto, as lâminas estão por perto/ Só falta agora o louco assassinar o incerto". Nelson diz que jamais vai esquecer a expressão, de total lividez, estampada na face do curador. "O Carlinhos deve ter pensado: 'Como pode uns guris desses, tão jovens, mas tão sérios?'", conta.
Densidade poética à parte, Nelson e Bandolho, no final, acabaram sendo chamados para tocar nas Rodas de Som. E o primeiro cachê de suas vidas, ri Nelson, eles, faceiros da vida, beberam até o último centavo no Chalé da Praça XV. "Foi uma noite absolutamente maravilhosa. Tínhamos o sonho de nos tornarmos compositores e o Carlinhos, sempre agregador, tornou esse nosso sonho - na realidade um sonho coletivo - realidade".
 

'Voltas' que o mundo dá

Show foi gravado ao vivo em fita cassete no Auditorium Tasso Correa do IA/Ufrgs em 1977

Show foi gravado ao vivo em fita cassete no Auditorium Tasso Correa do IA/Ufrgs em 1977


NELSON SOARES/DIVULGAÇÃO/JC
Em 2003, o aclamado show Voltas, gravado ao vivo em fita cassete no Auditorium Tasso Correa, no Instituto de Artes da Ufrgs, em 1977, após ser remasterizado pelas mãos do disputado Marcos Abreu, ganhou lançamento em CD pelo selo UPA. E no ano de 2020, em plena pandemia, as gravações, que também podem ser ouvidas no YouTube, foram novamente reabilitadas. O espetáculo Voltas reunia nomes fundamentais da chamada "Música Popular Gaúcha": Bebeto Alves, Dé Santana, Everton Pires, Carlos Trein, o "Cao", e Carlinhos Hartlieb.
Francamente de influência latina/sul-americana, define Bebeto, o show, além de explorar as raízes folclóricas do Rio Grande do Sul, também flertava com as temáticas urbanas. A vocação latino-americano estampada num tom marcante da textura musical: "Sim, naquele período se pensava a unidade da Latino-América através da música e da cultura. Sempre a música, e a cultura, dando régua e compasso ao cenário político", sublinha.
Carlinhos Hatlieb marca presença no espetáculo com Tô aí, Criar, Manhãs (sob o poema de Nei Duclós), a instrumental Entardecer (parceria com Trein) e, ainda, Sonho campeiro, Maria da Paz e Voltas. No show, além de cantar, Carlinhos toca violão de aço e charango. Sua grande contribuição, diz Bebeto, além do trabalho musical, foi ter emprestado ao espetáculo sua singularidade poética. "Isso fez toda a diferença", acredita.

Memórias em cena

Porto Alegre em Cena promoveu espetáculo em sua homenagem em 2012

Porto Alegre em Cena promoveu espetáculo em sua homenagem em 2012


POA EM CENA/DIVULGAÇÃO/JC
Em 2012, a obra de Carlinhos foi revisitada no espetáculo Memórias - Uma homenagem a Carlinhos Hartlieb, que abriu a 19ª edição do Porto Alegre em Cena. O espetáculo teve direção de René Goya Filho, diretor do curta-metragem Um risco no céu, e direção musical de Marcelo Delacroix. A produção do curta trouxe uma grata surpresa, desencravada por familiares de Carlinhos: uma caixa contendo 32 fitas-rolo originais, repletas gravações caseiras feitas pelo músico.
Entre registros de ensaios, shows e experimentos sonoros, elenca Delacroix, que contabilizou ao todo 65 gravações, também havia, nas fitas, inúmeras canções inéditas. Pinçadas por Delacroix, músicas como Menina linda, Calmaria infinita e O poeta seriam, pela primeira vez, apresentadas ao público durante o espetáculo Memórias. Em três ocasiões, ao longo de 17 anos, Delacroix urdiu forças para tentar lançar o material por meio de editais públicos de incentivo à cultura. Porém, não obteve sucesso. Mas Delacroix não se dá por vencido e logo, ele garante, deverá buscar uma forma de viabilizar o lançamento das gemas contidas neste tesouro do cancioneiro porto-alegrense.

Risco no céu

Capa do LP de 1988 retrata cabana na praia do Rosa onde artista foi encontrado morto

Capa do LP de 1988 retrata cabana na praia do Rosa onde artista foi encontrado morto


IRIA PEDRAZZI/DIVULGAÇÃO/JC
Na década de 1970, a repressão policial, em Santa Catarina, acossou vários artistas brasileiros. Além de Gil, preso e julgado em Florianópolis, em 1976, por posse de maconha, e do escritor Caio Fernando Abreu, detido e torturado em Garopaba (acusado de "homossexualismo", vadiagem e drogadição), os cabeludos "freaks" do grupo Bixo da Seda inteiro também caíram nas redes - ou melhor, no xilindró - da ditadura militar em território catarinense.
Em 3 de fevereiro de 1984, nos estertores da ditadura, o corpo de Carlinhos Hartlieb foi encontrado morto em sua cabana na praia do Rosa, em Imbituba. Na ocasião, a polícia catarinense sustentou a tese de suicídio por "asfixia decorrente de estrangulamento". O laudo da necropsia, atenta o jornalista e escritor Rossy Berny, que pesquisou a fundo a vida de Carlinhos na biografia Carlinhos Hartlieb (Coleção Esses Gaúchos), não constatou lesão cervical, e apontou a falta de 11 dentes.
O fato intrigante, ressalta Berny, é que o corpo de Carlinhos, quando achado, encontrava-se na mesma posição em que o jornalista Vladimir Herzog, morto em outubro de 1975, foi achado em sua cela no Doi/Codi, em São Paulo. E não apresentava fratura na coluna cervical - o que exclui, portanto, a hipótese de estrangulamento. O laudo médico também atestou que Carlinhos não apresentava as lesões que são características de quem se enforca, o que levanta ainda mais dúvidas sobre o caso.
Na época, sem aguardar o resultado da necropsia e outras evidências, o delegado de polícia de Imbituba responsável pelas investigações, Haroldo Amorim Vicente, deu o caso por encerrado. Uma morte suspeita e sem solução até hoje. Uma coisa é certa: entre os amigos mais chegados, a exemplo de Juarez Fonseca, Raul Ellwanger e Cláudio Levitan, a hipótese de suicídio nunca foi aceita. Todos concordam que Carlinhos era uma pessoa muito alegre, vibrante e, sobretudo, calma. Que, em seus últimos dias, estava empenhado em concretizar o sonho de lançar seu primeiro disco.
A notícia de sua morte chegou a Raul Ellwanger, um dos últimos a estar com Carlinhos, no Rio de Janeiro, onde residia, por meio de um telefonema do ator José de Abreu. "Foi um choque", relembra com pesar. "Ficamos todos acabados." Ellwanger , por sua vez, descarta a possibilidade, que se especulou à época, de o amigo ter arrumado uma briga com as autoridades catarinenses: "Carlinhos era um sujeito muito cuidadoso, na dele. Ele, aliás, tinha muito medo de perseguição política e policial". Da mesma forma, repudia veementemente a versão do suicídio, dada como "oficial": "Lembro que, em seus últimos dias, Carlinhos andava com aquela 'fitona' dele [contendo as gravações de Risco no céu] pra cima e pra baixo, empolgadíssimo, que ele levava consigo para mostrar aos produtores das grandes gravadoras". Um dia, recorda Ellwanger, Carlinhos chegou e disse: "Ó, pessoal, estou indo embora. Vou passar o Natal com a minha avó em Porto Alegre". "Seria a última vez que falaríamos com ele", diz o amigo. Após as festas de fim de ano, Carlinhos foi descansar no Rosa e, como se sabe, de lá não retornou.
Falecido em 2016, o músico e radialista Mutuca Weyrauch, primo-irmão do "Aranha" e um dos precursores do rock no Estado, até o fim acreditou que Carlinhos, de fato, tenha sido assassinado. "Mas, infelizmente", lamentou Mutuca, "nunca tivemos provas concretas que nos possibilitassem sustentar quaisquer acusações, só conjecturas". Porém, mesmo que uma linha de raciocínio clara tenha sido estabelecida, ao longo das investigações, apontando culpados, disse o primo, nunca foi possível acusar ninguém.
 

Conhecendo Carlinhos

- Documentário Um risco no céu (15'), de Rene Goya Filho, com depoimentos de José Abreu, José Celso Martinez Corrêa, Bebeto Alves, Gerry Marquez, Nelson Coelho de Castro, entre outros. Disponível no YouTube.
- Biografia Carlinhos Hartlieb, de Rossyr Berny e Jimi Neto (Editora Tchê, 1985, 84 páginas)
Espetáculos
- Sempre é assim (1972), primeiro show de Carlinhos, em cartaz no Teatro de Câmara.
- O toque (1974), ao lado de Claudio Vera Cruz, com repertório exclusivamente roqueiro.
- Tempo de borboleta (1981)
- Só sai se não chover (1982)
- Encontro das águas (1982), parceria com Pery Souza

* Cristiano Bastos é jornalista e autor dos livros Gauleses irredutíveis - Causos & atitudes do rock gaúcho; Julio Reny - Histórias de amor e morte; Júpiter Maçã: A efervescente vida e obra; Nelson Gonçalves: O rei da boemia e Nova carne para moer. Também dirigiu o documentário Nas paredes da pedra encantada, sobre o álbum Paêbirú, de Lula Côrtes e Zé Ramalho.