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reportagem cultural

Notícia da edição impressa de 27/03/2020. Alterada em 27/03 às 10h26min

Da economia à cultura: o legado de Luiz Fernando Cirne Lima

Empresário foi o responsável por criar o ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento

Empresário foi o responsável por criar o ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento


LUIZA PRADO/JC
Márcio Pinheiro, especial para o JC
A carta enviada ao general Emilio Garrastazu Médici, então presidente do Brasil no começo da década de 1970, não deixava dúvidas. Era incisiva, vigorosa e, mais do que tudo, elegante. Não precisava ser desaforada, como não era o feitio de seu autor, tampouco recorrer a subterfúgios. Claro e direto, o documento era explícito, e por isso causara surpresa. Não para quem conhecia Luiz Fernando Cirne Lima, na época com 40 anos, e já com coragem e currículo para se dirigir daquela forma a um poderoso ditador. A carta, anunciando seu pedido de demissão do prestigiado Ministério da Agricultura, foi tão espantosa que os jornais não sabiam como publicá-la e a censura não tinha como impedi-la.
A carta enviada ao general Emilio Garrastazu Médici, então presidente do Brasil no começo da década de 1970, não deixava dúvidas. Era incisiva, vigorosa e, mais do que tudo, elegante. Não precisava ser desaforada, como não era o feitio de seu autor, tampouco recorrer a subterfúgios. Claro e direto, o documento era explícito, e por isso causara surpresa. Não para quem conhecia Luiz Fernando Cirne Lima, na época com 40 anos, e já com coragem e currículo para se dirigir daquela forma a um poderoso ditador. A carta, anunciando seu pedido de demissão do prestigiado Ministério da Agricultura, foi tão espantosa que os jornais não sabiam como publicá-la e a censura não tinha como impedi-la.
"O maior problema advém da debilidade das nossas instituições, desproporcional ao crescimento de alguns poucos interesses dentro do país", alegava Cirne Lima. Em outro trecho - um dos que tornou-se mais conhecidos - , fazia referência ao ministro Delfim Neto: "Reiterou-me, mais uma vez, um colega, também ministro de Vossa Excelência, que o governo é um ente essencialmente aético, e como tal são válidos todos os meios para atingir os fins desejados... Há entre essa afirmativa e minhas convicções um grande abismo, não posso atravessá-lo. Sempre acreditei que a verdade é melhor que a falsidade, e a coragem melhor que a covardia. Hoje, confronto-me com meus próprios princípios".
A imprensa ficou num labirinto. O sisudo O Estado de S. Paulo, órgão comandado pela família Mesquita - apoiadora de primeira hora do golpe e conspiradora ao lado de Carlos Lacerda - adotara a prática de assinalar a intervenção da censura mediante a publicação, no lugar das matérias vetadas, de versos de Camões, cartas de leitores e receitas culinárias. Dessa vez, porém, foi quase explícito: abaixo da manchete referente à demissão, uma publicidade de estação de rádio onde se lia: "Agora é samba". O Jornal da Tarde, irmão mais jovem e desaforado do diário quatrocentão, só pôde informar o nome do sucessor, sem explicar a causa da saída. E a revista Veja, na época mais honesta e aguerrida, usou de um estratagema quase cifrado, citando como fonte o jornal Guaru News, de Guarulhos (SP), para dar a entender que a saída de Cirne Lima decorrera de divergências com Delfim Neto.
"Anos depois, a capa do Estadão fez parte de uma antologia das melhores primeiras páginas. Fico feliz de ter tido este protagonismo", diz Cirne Lima, com indisfarçável orgulho. Já a presidência da República, sem ter o que fazer diante de tamanha repercussão, divulgou apenas uma nota de seis linhas, três das quais usadas para anunciar o nome do novo ministro, José de Moura Cavalcanti.
Enviada a carta, Cirne Lima não aguardou a repercussão. Ou melhor, aguardou a distância, já em Porto Alegre. Sabia da responsabilidade do seu gesto, de como abalara a estrutura de um poder marcado pela força, pelo arbítrio e - principalmente - pelo silêncio, mas não poderia recuar. Se recuasse, estaria ferindo algo que sempre valorizou desde criança: o senso ético.
As primeiras lições de ética, responsabilidade e de combate a qualquer impostura, Luiz Fernando teve em casa. Filho do advogado e jurista Ruy Cirne Lima e da dona de casa Maria Velho Cirne Lima, foi criado entre livros e num ambiente que estimulava a discussão de ideias. A formação inicial se daria através dos rígidos ensinamentos alemães, uma preliminar do que seria aperfeiçoado a partir da entrada no Colégio Anchieta, outro ambiente com forte presença germânica naquele início dos anos 1940. A carga desta herança cultural lhe pareceria insuportável aos 11 anos, em 1944, quando teve um de seus primeiros choques de realidade. Naquele ano, já nos estertores da Segunda Guerra Mundial, o Brasil entraria no conflito e os alemães se tornariam inimigos da nação. O impacto na provinciana Porto Alegre de então - com forte presença alemã no comércio, na indústria, no ensino, na culinária e na cultura - seria avassalador, com perseguições, boicotes, delações e depredações.
O menino Luiz Fernando sofreria diretamente. Apesar de nenhuma herança germânica, evidenciada pelo sobrenome, tanto materno quanto paterno, o garoto de cabelos claros e olhos azuis, com formação alemã e domínio do idioma, seria alvo de intimidações e agressões. Encontraria refúgio e abrigo na biblioteca família. Apesar da precocidade, o menino sabia que a Alemanha não deveria ser confundida com Adolf Hitler, mas ele era dos poucos que fazia essa diferenciação. Assim, sem capacidade argumentativa, restava buscar na literatura a compreensão dos fatos - e os elementos que ajudariam a formar seu caráter.
E foi sobre caráter, ética, honra, grandes gestos (e também atos mesquinhos) que conversamos por mais de três horas num restaurante escolhido por ele em Porto Alegre. Não estava ali o empresário reconhecido, o líder de classe ou o político (que disputou apenas uma eleição e se declara arrependido) e, sim, o homem que se sente realizado aos 87 anos e ainda reluta em deixar seu depoimento em forma de memórias. "O que as pessoas gostariam de saber de um velho como eu?", pergunta, sem convencer a mim e a também jornalista Luciana Moglia, sua assessora. Durante o tempo que estivemos ouvindo Cirne Lima falar, ambos ficamos sempre interessados nas tantas histórias que ele tinha para contar. O que será lido daqui por diante é um pálido retrato destas quase nove décadas de vida.

Uma vida em movimento

Formado em Agronomia, Luiz Fernando Cirne Lima logo ganhou notoriedade na área e foi presidente da Farsul
Formado em Agronomia, Cirne Lima logo ganhou notoriedade na área e foi presidente da Farsul
ACERVO PESSOAL/DIVULGAÇÃO/JC
Luiz Fernando Cirne Lima começou quase tudo pelo começo. A começar pelo nascimento, no primeiro dia de 1933. A infância tranquila no Centro de Porto Alegre só seria abalada pelos acontecimentos de 1944. Aos 11 anos, aluno do Colégio Anchieta, Luiz Fernando descobriria as primeiras noções de honra, ética e solidariedade. Se o clima era de polarização e de frequentes agressões, mesmo entre jovens alunos, Luiz Fernando formaria amizades duradouras.
Desta fase, dois nomes se destacam: o já falecido professor de Filosofia Leônidas Xausa e o ainda ativo Luiz Osvaldo Leite, professor emérito da Ufrgs, ex-diretor da Ospa, e um dos primeiros amigos de Luiz Fernando. Os três se aproximariam pela curiosidade intelectual, pelo cinema, pelo teatro e, pelo menos Luiz Fernando e Leite, pela paixão pelo Rolo Compressor, o lendário time do Internacional na época.
Ficariam próximos por toda a vida. "Como alunos do Anchieta, sofremos uma forte influência alemã. E o professor que mais nos influenciou foi o padre Pauquet, que ficou conhecido como empreendedor de obras e um especial educador de jovens", lembra Leite.
Dez anos depois de 1944, Luiz Fernando teria nova demonstração da intolerância causada pelo clima político polarizado. Aos 21 anos, concluindo o curso na Faculdade de Agronomia e Veterinária, pela qual se formaria engenheiro-agrônomo, veria Porto Alegre incendiada - literal e metaforicamente - pelos acontecimentos resultantes do suicídio de Getúlio Vargas. Jovem sem atuação na política estudantil e nutrindo desinteresse pelos dois personagens centrais daquele período, Getúlio (pela dissimulação) e Carlos Lacerda (pela agressividade), Luiz Fernando viu como a política influenciava diretamente a vida das pessoas comuns - muitas vezes, de maneira enviesada.
O País sobreviveu a mais esta crise, e Luiz Fernando saiu mais maduro (embora não menos descrente) desses episódios. No ano seguinte, já estaria lecionando na cadeira de Zootecnia da faculdade em que estudara. Também ampliaria suas atividades em outras duas frentes: como membro de júris em diversas exposições pecuárias no Brasil e no exterior - em especial, na Inglaterra -, e como redator do suplemento rural do Correio do Povo, este último cargo atendendo a um convite de Breno Caldas, então o grande barão da imprensa gaúcha e amigo próximo do pai de Luiz Fernando.
O golpe de 1964 o pegaria na redação do Correio do Povo. Sem atividade político-partidária, Luiz Fernando já estava desempenhando funções na Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), onde, em 1968, aos 35 anos, se tornaria presidente, o mais jovem a comandar a entidade. "É bom lembrar que, nessa época, anos 1960, começava a revolução tecnológica da lavoura no Rio Grande do Sul, o apogeu dos suplementos rurais. Foi eleito presidente da Farsul, com o apoio da velha guarda, liderada por Saint Pastous de Freitas, Dacio Assis Brasil, Balbino Mascarenhas e Alberto Severo", recorda o jornalista José Antônio Severo, filho de Alberto e amigo de Luiz Fernando há quase 60 anos. "Conheci ele como agrônomo e o mais jovem professor da faculdade de Agronomia. Quando entrei para o jornalismo, em 1963, como redator do extinto Jornal do Dia, no Suplemento Agropecuário Semanal, Cirne Lima era uma das estrelas do jornalismo técnico".
Porém, antes de ser empossado como presidente da Farsul, Luiz Fernando seria abalado por um acontecimento político local e de alcance nacional e ao qual ele estava ligado por laços familiares. Em julho de 1966, seu pai foi lançado candidato à eleição indireta para o governo do Rio Grande do Sul pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB), obtendo o apoio de uma ala da Aliança Renovadora Nacional (Arena). A ditadura, já demonstrando que não estava aí para negociar, atropelou qualquer discussão e, para garantir uma maioria favorável à candidatura do governista Walter Peracchi Barcelos na Assembleia Legislativa, cassou os mandatos de quatro deputados estaduais do MDB. Luiz Fernando, posteriormente, analisaria: "Anos depois, já como ministro, fui convidado por Aliomar Baleeiro, então presidente do STF, para frequentar o local. E nessas ocasiões, muitas vezes, eu me sentia mal, pensando que quem deveria estar ali era meu pai", recorda. "A indicação dele ao cargo seria o caminho natural. Chegaram a lhe oferecer a vaga se ele retirasse a candidatura. Mas isso era impensável."

Passagem (rápida) pela política nacional

Cirne Lima julgou em exposições pecuárias no Brasil e no exterior
Cirne Lima julgou em exposições pecuárias no Brasil e no exterior
/ABCD/DIVULGAÇÃO/JC
À frente da Farsul, Luiz Fernando ampliaria e modernizaria a política da entidade. O trabalho, ágil e de longo alcance, projetaria o jovem engenheiro, e, já no ano seguinte, com a posse de Médici, Luiz Fernando seria nomeado ministro da Agricultura. No cargo, Luiz Fernando se envolveria em conflito direto com o então ministro da Fazenda, Antônio Delfim Netto. A queda de braço culminaria com sua saída do governo e com a publicação da famosa carta lembrada no início da reportagem. Antes disso, Luiz Fernando deixara sua marca com pelo menos a criação de dois importantes projetos: o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), com a função primordial de comandar o processo de colonização da Amazônia, parte importante da chamada "política de integração nacional", e a Embrapa, para viabilizar soluções de pesquisa, desenvolvimento e inovação.
Afastado dos cargos públicos, Luiz Fernando passou a integrar, ainda em 1977, o conselho de administração do jornal Gazeta Mercantil, no qual permaneceria até 1993, e a diretoria da Empresa Agropecuária Plantel, cargo que ocuparia até novembro de 1985, pertencentes ao grupo do deputado federal paulista Herbert Levy. Com a abertura democrática do começo na década de 1980, Luiz Fernando ajudaria na organização do Partido Popular, comandado pelos mineiros Tancredo Neves e Magalhães Pinto. A sigla teria vida curta, logo sendo incorporada ao PMDB. Luiz Fernando, então, se filiaria ao Partido da Frente Liberal (PFL) pelo qual integraria a chapa encabeçada pelo senador Carlos Chiarelli na candidatura ao governo do Rio Grande do Sul em 1986.
Afastado definitivamente da vida partidária, Luiz Fernando se sentiria mais ativo como participante do Conselho Superior de Orientação política e Social da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e, em dezembro de 1993, da diretoria da Companhia Petroquímica do Sul (Copesul). A partir de então, daria talvez a sua maior contribuição à causa pública e conquistaria um lugar de destaque no desenvolvimento da vida cultural do Estado e do País.
 

Fronteiras do Pensamento: uma referência cultural

Idealizado pelo empresário, ciclo de palestras trouxe ao Estado grandes pensadores como Mario Vargas Llosa
Ciclo de palestras trouxe ao Estado grandes pensadores como Mario Vargas Llosa
Luiz Munhoz/ Fronteiras do Pensamento/ Divulgação/JC
À frente da Copesul, Luiz Fernando Cirne Lima pôde continuar atuando política e empresarialmente mas abriria uma nova linha de atuação que mudaria o cenário cultural rio-grandense e lhe daria talvez sua maior satisfação profissional. Interessado no desenvolvimento da cultura e tendo noção de que caberia a empresa deixar um legado, esforçou-se para incrementar projetos culturais.
O de maior alcance e visibilidade talvez tenha sido o Fronteiras do Pensamento. Projetado em 2006, o ciclo de conferências surgiu com a ideia de oferecer uma ampla compreensão das mudanças sociais, econômicas, culturais e políticas do mundo contemporâneo. Com suas palestras contando com nomes expressivos nacionais e internacionais, o Fronteiras do Pensamento se tornou uma referência cultural. No total destes 14 anos, já foram realizadas mais de 200 conferências assistidas por mais de 170 mil pessoas. O Fronteiras trouxe aos palcos brasileiros nomes como Mario Vargas Llosa, Edgar Morin, Christopher Hitchens, Amós Oz, David Lynch, Thomas Piketty, Wim Wenders e Philip Glass.
O pensamento de Luiz Fernando sobre como contornar adversidades e apresentar soluções foi explicitado pelo jornalista José Antônio Severo em um texto publicado há dois anos. Severo escreve: "Uma maneira de contornar a estridência e a capacidade de articulação internacional das ONGs ambientalistas instaladas no poder no Brasil e chegar em seus financiadores no Primeiro Mundo foi superada no Rio Grande do Sul nos anos 1990. Naquela época, o Polo Petroquímico era demonizado pela propaganda do ambientalismo militante. Foi quando o presidente Luiz Fernando e a executiva da área ambiental na empresa, Carla Rangel, foram à Europa entender-se com os patrocinadores dessa ONG, demonstrando a segurança do projeto ambiental do Polo Petroquímico. Foi um banho de água fria nas organizações ambientalistas hostis. E a Copesul mudou de demônio à aliada e passou a ser referência de bom comportamento, e de patinho feio a orgulho do Rio Grande do Sul".
O mesmo movimento Luiz Fernando faria em relação à cultura, designando o tema como projeto prioritário de sua gestão. "Ele percebeu duas coisas", recorda Severo. "Primeiro que o Polo seria a maior empresa privada do Estado, portanto teria grandes desafios para sua integração na comunidade a que pertencia. E segundo: com seus recursos, poderia ser um mentor do reencontro do Estado com seus valores".
Luiz Fernando teve como projeto inaugural o livro Netto perde sua alma, e reuniu ao seu redor nomes como Tabajara Ruas, Elmar Bones, Assis Hoffmann e Luis Fernando Verissimo. O lançamento foi num espetáculo no Theatro São Pedro com Paulo Autran e Tônia Carrero dirigidos pelo gaúcho Luiz Carlos Maciel.
Severo também elogia a persistência do amigo na criação do Fronteiras do Pensamento. O modelo, lembra Severo, veio da École des Hautes Études, de Paris, e ganhou uma cara original. "Luiz Fernando soube empregar como poucos empresários a prerrogativa de reverter para a sociedade, por meio da cultura, parte da rentabilidade de uma grande empresa. Na essência, ao promover ações na literatura, no teatro, na música e por aí afora, estávamos investindo na autoestima dos gaúchos, na valorização da diversidade cultural e no elogio aos valores humanos, sociais e intelectuais", ressalta Carmen Langaro, atual secretária de Estado adjunta da Cultura e que durante 10 anos foi assessora de Luiz Fernando na Copesul. "Ter podido encerrar minha participação como empresário deixando um legado como esse foi o que mais gratificante poderia me acontecer", afirma ele.

Memórias e leituras

livros simões lopes neto e reverbel - foto reprodução
Obras de Simões Lopes Neto e Carlos Reverbel foram editadas por meio de projeto da Copesul
REPRODUÇÃO/DIVULGAÇÃO/JC
Em matéria de memória, Luiz Fernando Cirne Lima ainda reluta em deixar seu depoimento definitivo. Escreve todos os dias, mas apenas para consumo interno. Eventualmente envia alguma colaboração a algum jornal. Afora isso, escreve à mão - "para não perder o exercício intelectual da escrita", explica -, pede para que a secretária coloque no computador. Tudo fica guardado.
Por enquanto só pensa em reunir em livro o que seriam seus comentários sobre as obras que foram importantes na sua formação. Já chegou a falar por alto com Luís Augusto Fischer, professor de Literatura da Ufrgs, sobre o projeto, mas por enquanto não há nada de muito definitivo. Por ordem de entrada, o primeiro livro lembrado é Coração (Cuore), escrito em 1886 por Edmundo de Amicis. Livro de cabeceira de Manuel Bandeira e Paulo Mendes Campos, Coração é narrado como o diário do menino Enrico. É um clássico romance de formação sobre as experiências de uma turma de garotos.
"Me marcou muito pelos ensinamentos de lealdade e de companheirismo", explica Luiz Fernando. "Não foi apenas o Luiz Fernando. Eu e muitos da nossa geração fomos impactados pela leitura desse livro", recorda Luiz Osvaldo Leite, destacando que a obra tinha sua leitura aprovada pelos mestres do Anchieta.
Na sequência, a segunda escolha seria a obra completa de Simões Lopes Neto, que Luiz Fernando teve o prazer de patrocinar uma edição pela Copesul, e os dois volumes de O continente, que abrem O tempo e o vento, de Erico Verissimo. "São dois clássicos formadores da cultura gaúcha. Monumentais e difíceis de serem igualados", avalia. Sobre O tempo e o vento, há ainda o peso da proximidade. "Erico e meu pai foram muito amigos. Exceto por um pequeno período em que estiveram em lados opostos, os dois sempre se frequentaram e se admiraram. Também me agrada a coincidência de que os dois tiveram em épocas próximas dois filhos com o mesmo nome", destaca, em alusão ao também escritor Luis Fernando Verissimo.
Além dos livros, Luiz Fernando tem grande interesse pela oratória, destacando como peças formadoras do seu pensamento discursos como o de Marco Antônio nos funerais de Júlio César, o de Gettysburg, proferido por Abraham Lincoln, o de Winston Churchill sobre Dunquerque e o da cerimônia de posse de John Kennedy.
Todos estes textos, Luiz Fernando teve a oportunidade de discutir com o jornalista e escritor Carlos Reverbel, a quem considerava um de seus mestres, "o maior depois de meu pai". "Dom Carlos, como eu o chamava, foi fundamental no meu desenvolvimento cultural. Na idade adulta, o livro que mais lhe marcou foi Memórias de Adriano, da francesa Marguerite Yourcenar. Comecei a leitura do livro numa sexta à noite, segui no sábado e só parei domingo à noite. Fiquei tão impactado que segunda pela manhã saí da minha casa a pé para visitar Dom Carlos e comentar com ele", lembra. "Ele ainda não havia lido, embora outros já tivessem recomendado, e o que disse a ele na época é o que sigo acreditando: este livro é um tratado sobre a grandeza humana. Algo tão fácil de compreender, tão difícil de detalhar e impossível de explicar para que não tem".

* Márcio Pinheiro é porto-alegrense e jornalista. Trabalhou em diversos veículos de Porto Alegre, de São Paulo e do Rio de Janeiro.