Porto Alegre, sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020.

Jornal do Comércio

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reportagem cultural

Notícia da edição impressa de 28/02/2020. Alterada em 27/02 às 19h44min

Mulheres conquistam seu espaço na música tradicionalista

Analise Severo faz uma crônica sobre a vida da mulher moderna na canção 'Bem gaúcha'

Analise Severo faz uma crônica sobre a vida da mulher moderna na canção 'Bem gaúcha'


CLEUSA JUNG/DIVULGAÇÃO/JC
Patrícia Lima, especial para o JC
“Eu que me renda desse destino de prenda contemporânea gueixa, gaúcha, dar-se feito oferenda
“Eu que me renda desse destino de prenda contemporânea gueixa, gaúcha, dar-se feito oferenda
Prenda tem voz, conteúdo que atenda, cerne que acenda”
(Clarissa Ferreira)
“Quero a vida com respeito, por quem sou, pelo meu jeito
Alma de mulher gaúcha
Sou bem gaúcha, sou bem gaúcha"
(Analise Severo)
Represento a mulherada e me sinto bem gaúcha”Os dois conjuntos de versos, profundamente distintos, revelam as variadas manifestações de um mesmo fenômeno. As porteiras da música gauchesca estão finalmente abertas para as mulheres - e elas estão entrando de lote, cada qual com seu talento, sua expressão e sua linguagem. Todas marcando presença em um universo desde sempre machista e masculinizado, que reservava à mulher um lugar acanhado, que muitas vezes se reduziu ao estereótipo da prenda delicada, talhada para o cuidado com a família e sujeita ao espírito livre do homem campeiro. Herdeiras das que primeiro desbravaram esse redondel de machos, cantoras, instrumentistas e compositoras estão ganhando a cena e, principalmente, tomando a palavra. Seja o que for que queiram dizer por meio de sua arte, agora são elas mesmas quem falam.
O primeiro verso desta reportagem abre a canção Manifesto líquido, lançada em 2018 pela violinista, compositora e doutora em Etnomusicologia Clarissa Ferreira. Suas pesquisas a levaram a debater o que se compreende por tradição musical gaúcha. Uma mistura de rap com tango conduz uma letra meio declamada, meio cantada por Clarissa. No clipe, a artista permanece sempre presa a uma moldura, empilhando e desconstruindo referências da cultura regional, como as cuias de chimarrão. Nos versos, fala sobre a sociedade patriarcal que alimenta os estereótipos que oprimem e objetificam as mulheres.
Já o segundo conjunto de versos está na canção Bem gaúcha, lançada em 2019 por Analise Severo. Depois de receber centenas de comentários de mulheres nas redes sociais, opinando sobre o que deveria inserir em seu repertório, a cantora lançou a música, um vaneirão em estilo baile que tem a participação especial da lendária Berenice Azambuja. A abertura do clipe mostra Analise passando batom e escovando os cabelos. Ao longo da canção, as duas cantam o dia a dia corrido das mulheres modernas, que dividem-se entre o trabalho e a família. Integradas à cultura e se apropriando da noção de identidade coletiva que é cara ao movimento tradicionalista, elas não são mais prendas ou morochas. São, simplesmente, bem gaúchas.

Para Clarissa Ferreira, é preciso haver mais liberdade de criação
Para Clarissa Ferreira, é preciso haver mais liberdade de criação
PATRICIA ASTUDILLA/DIVULGAÇÃO/JC
Não é novidade a participação feminina na música gauchesca. Mas também é verdade que elas sempre estiveram em menor número. Intérpretes, eram poucas. Compositoras e instrumentistas, menos ainda. E é justamente isso que vem mudando, de uns tempos para cá. A jornalista Tânia Goulart, fundadora do portal ABC do Gaúcho e especialista no tema, percebe o aumento vertiginoso de mulheres nos palcos nativistas na última década. Ela credita essa presença crescente aos festivais que ocorrem regularmente em todos os cantos do Estado e que, a cada ano, recebem mais meninas nas categorias "piás", ou seja, nas modalidades infantis e juvenis. Ali, segundo Tânia, é revelada a esmagadora maioria das mulheres que seguem na vida artística. "Já vemos muito mais meninas do que meninos nas etapas infantis dos festivais em todas as modalidades, seja tocando instrumentos, declamando, cantando. A tendência é que a música gauchesca tenha cada vez mais mulheres em todas as vertentes."
Os fundamentos do feminismo estão presentes na fala de todas elas, como uma espécie de mantra. Estão ali para ocupar o seu espaço e provar que música nativista também é lugar de mulher. Quase nenhuma, porém, assume-se feminista, apesar de disseminarem os princípios de igualdade de direitos preconizados pelo movimento. Preferem ser chamadas de "femininas", frisando sempre que não desejam se aproximar das correntes mais radicalizadas do movimento.
Pelo menos desde 2014 já existe um debate acirrado sobre o tema no meio. Nesse ano, ao criar o blog Gauchismo Líquido, Clarissa publicou um texto mencionado pesquisas sobre a temática da mulher no cancioneiro regional. Ela demonstra que, na maior parte das composições, a mulher é comparada a animais, atrelada ao consumo, como um objeto, ou ainda colocada em posição de contemplação. Em 2017, a cantora e apresentadora do Galpão Crioulo, Shana Muller, gerou grande polêmica ao repercutir o texto de Clarissa em seu blog, Posteira. Na coluna intitulada Não sou china, nem égua e nem quero que o velho goste, Shana discute a violência contra a mulher perpetrada pelas letras de algumas canções. O texto teve enorme repercussão, com reações de todos os lados - apoio de muitos, desaprovação de tantos outros, inclusive de mulheres do movimento tradicionalista.
Feministas assumidas ou não, a verdade é que as mulheres estão ocupando espaços em busca da igualdade na música gauchesca. Sem necessariamente renegar os homens, mas justamente aproveitando a proximidade com eles, para construir uma linguagem artística própria. Um evento emblemático que simbolizou esse momento foi a primeira edição do Peitaço da Composição Regional, festival exclusivo para mulheres organizado no ano passado por Shana em sua fazenda, no interior de Júlio de Castilhos, reunindo 40 cantoras, instrumentistas e compositoras para debater e fazer música. "Desde 2017, quando escrevi um texto sobre como as mulheres eram retratadas na música gaúcha, essa inquietação veio mais à tona. Percebi que tínhamos poucas compositoras, e esse evento talvez seja uma das formas de tentar solucionar isso, trazendo a visão do feminino para a cultura regional", disse Shana à época. A segunda edição do festival já está marcada para o inverno deste ano.

No rastro das pioneiras

Trabalho de Loma, que fez história com o grupo Pentagrama, tem forte expressão na música regional
Trabalho de Loma, que fez história com o grupo Pentagrama, tem forte expressão na música regional
ROSANE SCHERER/DIVULGAÇÃO/JC
A primeira mulher a assumir a presidência do poderoso Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), Gilda Galeazzi, foi eleita em 2019, tomando posse no mês passado. Elas já faziam parte do movimento, mas somente agora detêm o protagonismo. Na música acontece mais ou menos a mesma coisa, em diferentes proporções. Presentes desde sempre na vida artística, é recente o fato de cantarem, tocarem e comporem em maior número e com mais regularidade. As novas gerações que surgem quebrando paradigmas e provocando debates são fruto das pioneiras que há pelo menos 50 anos dão murro em ponta de faca em busca da sua voz e do seu espaço no universo artístico em que a figura masculina é onipresente.
A pioneira talvez tenha sido Mary Terezinha, a acordeonista de Teixeirinha que acabou se tornando sua dupla no palco e sua companheira por mais de 20 anos. Berenice Azambuja, nascida em 1952, em Porto Alegre, começou a tocar acordeom com sete anos e, aos 15, já tocava música regional em bailes. Para se apresentar, adotou o chiripá, veste masculina ligada à tradição indígena, o que gerou protestos e cara feia. Berenice, no entanto, não deu ouvidos às críticas, já que os pesados e bufantes vestidos de prenda tiravam a mobilidade da acordeonista. A indumentária é uma de suas características marcantes ainda hoje.
Já na era dos festivais, as mulheres tiveram atuação marcante, embora pouco numerosa. O mais importante de todos, a Califórnia da Canção, em Uruguaiana, teve a participação feminina desde a primeira edição, em 1971. A terceira Califórnia consagrou a voz feminina, quando Canto de morte de Gaudêncio Sete Luas, poema de Luiz Coronel e melodia de Marco Aurélio Vasconcellos, foi a grande campeã do festival, interpretada pela cantora Rosa Maria, uma das estrelas em muitas edições. No ano seguinte, 1974, ela interpretou um de seus grandes sucessos, Leontina das Dores, poema de Luiz Coronel que fala da condição da mulher nas estâncias, quando elas não podiam escolher com quem casar e eram sujeitas a uniões arranjadas pela família, para aumentar as propriedades. A música foi gravada, um tempo depois, por Fafá de Belém.
Nesse ano também ocorreu a primeira apresentação do Grupo Pentagrama, com a participação de uma jovem negra desconhecida, que emprestou a voz poderosa para a estilização poética da lenda do Negrinho do Pastoreio, na canção Côto de vela. O grupo se desfez pouco tempo depois, mas Loma seguiu em busca de sua expressão dentro da música regional, trabalho que faz até hoje. Quem também surgiu nos festivais foi Oristela Alves, que começou cantando com o grupo Os Uruchês. Em 1976, em sua segunda participação, Oristela interpretou a canção vencedora da Califórnia, ao lado de César Passarinho. Ainda hoje ela canta, grava discos e atua como produtora cultural em Santa Maria.
Nos países do Prata, cuja raiz folclórica é muito próxima da música gauchesca, as mulheres tiveram mais protagonismo. Ícone máximo, que ainda inspira artistas de todas as vertentes, foi a argentina Mercedes Sosa, que explorou os ritmos tradicionais para embalar os temas sociais do seu interesse. Transitando livremente por entre as referências do folclore latino-americano e da cultura do seu país, Mercedes levou sua ascendência ameríndia e sua música para o mundo, no movimento que ficou conhecido como Nueva Canción. Outra referência é Ramona Galarza, que surgiu mais ou menos na mesma época, durante o boom da música folclórica argentina. Natural de Corrientes, Ramona ganhou o país interpretando os chamamés típicos da sua região.
Mais recentemente, em meados dos anos 1990, a argentina Soledad Pastorutti começou a se apresentar nos festivais interpretando de um jeito jovem e renovado os grandes clássicos do folclore, de zambas a chacareras, de chamamés a tangos. Criticada por muitos por imprimir uma pegada pop nas canções tradicionais, Soledad já revisitou os principais nomes da música nativista do seu país, ao mesmo tempo em que segue gravando músicas de apelo comercial. Ela é o principal nome de um movimento de retorno ao folclore pelas novas gerações de argentinos.

Em busca da própria voz

Lu Schiavo sente falta de músicas compostas por mulheres
Lu Schiavo sente falta de músicas compostas por mulheres
/cleusa junj/divulgação/jc
A chegada em massa das mulheres ao universo da música gauchesca trouxe para o centro dos debates uma questão já mais bem articulada em outros estilos e ritmos: a voz feminina. Com a maior parte das composições ainda escritas por homens, mais e mais mulheres se descobrem diante do desafio de encontrar a própria voz dentro do espectro regional, com uma arte que respeite e reflita quem elas realmente são e o que querem dizer.
Apaixonada por escrever desde pequena, Bianca Bergmam começou a inscrever poesias nos festivais ainda criança e nunca mais parou. Já venceu inúmeros e segue compondo, cada vez mais próxima de músicos e arranjadores para transformar também em letras de canções os versos que escreve. Ligada por laços de amizade a muitos músicos homens, afirma que nunca sentiu preconceito, mas admite que ainda são poucas as mulheres que se arriscam a buscar a sua própria expressão nas composições. "O que sinto é uma barreira cultural, que está aos poucos caindo. As mulheres estavam convencidas de que a música, a poesia, nada disso é lugar para elas. E ficavam de fora", afirma. Na busca de sua voz, Bianca busca observar o mundo com olhar feminino, sem restrição de temas, lugares e ritmos. "A lírica da mulher cabe em todas as linguagens. Temos que falar sobre o que nos toca, seja o que for, e não ficarmos presas às coisas consideradas femininas. Está tudo aberto para nós, e isso é maravilhoso", ressalta.
Com uma voz já conhecida pelos festivais nativistas, Lu Schiavo sente falta de compositoras para interpretar. Por isso mesmo está se aventurando nos instrumentos para compor melodias, tamanha é a falta que sente de músicas que façam sentido para o seu repertório. Frequentadora dos eventos musicais desde criança, lembra da convivência com muitas meninas nas etapas infantis - número que vai diminuindo conforme elas crescem e a carreira se torna mais profunda e exigente. Por isso a quase ausência de mulheres instrumentistas e compositoras. "As mulheres precisam sempre encontrar brechas para seguir", destaca.
A busca pela expressão mais verdadeira de uma personalidade artística persegue as mulheres desde há muito. Revelada na Califórnia da Canção, a cantora Loma é um exemplo de como essa busca pode conduzir a caminhos inesperados. Depois do enorme sucesso que fez com o grupo Pentagrama, ela buscou no Rio de Janeiro mais conhecimento sobre si e sobre a arte que poderia lhe representar. "Lá me dei conta de que cada um que chegava trazia um pouco da sua linguagem, da sua identidade. Pensei então que eu também tinha a minha, e precisava encontrar", relembra. De volta a Santo Antônio da Patrulha, iniciou suas pesquisas na música de influência negra e açoriana, tomou contato com as melodias dos Ternos de Reis, das Cantigas de Oilarai e dos Bailes de Masques. "À medida em que fui descobrindo essas coisas, me dava conta de que eu não sou tradicionalista, sou do Litoral e sou negra. Minha arte tem que refletir quem eu sou." Em 2019, Loma recebeu o Prêmio Açorianos pelo conjunto de sua obra. Na cerimônia, cantou um "maçambique", gênero recuperado por ela e que preserva as tradições religiosas sincréticas do litoral gaúcho.

Identificação é fundamental

 Juliana Spanevello é uma das mais consagradas artistas da nova geração
Juliana Spanevello é uma das mais consagradas artistas da nova geração
Karine Viana/Palácio Piratini/Divulgação/JC
Imersas em um dia a dia de múltiplas funções, as mulheres artistas precisam conviver com as mulheres reais e, na busca desse equilíbrio, encontrar a voz lírica que as representa. Uma das mais consagradas representantes da nova geração de cantoras nativistas, Juliana Spanevello divide seu tempo entre a arte, os negócios da família e a criação das duas filhas. Por sua escolha, leva a carreira de forma mais esporádica para estar com as meninas. Quando pensa nos projetos que vai assumir, intuitivamente busca aqueles que se identifiquem com seu momento e com o estilo de vida que adotou. "Nunca pensei em fazer arte para mulher, mas fazer a arte com a qual me identifico, na qual acredito. Mas hoje sei que o mundo está mudando e que qualquer obra de arte é também a nossa expressão. Por isso continuo fazendo apenas a música que significa alguma coisa para mim. Hoje sei que isso também é arte de mulher", diz Juliana. Atualmente, ela prepara um livro infantil com canções e também um projeto de voz e violão para veicular nas redes sociais.

Afinal, tem machismo?

Charlise Bandeira se destaca por ser flautista em um meio no qual ainda há poucas instrumentistas
Charlise Bandeira se destaca por ser flautista em um meio no qual ainda há poucas instrumentistas
/daniel bastos/divulgação/jc
Respirando música nativista desde o início da década de 1990, Analise Severo orgulha-se de viver de música e diz nunca ter experimentado na pele situações de machismo explícito. Afirma que hoje seu público feminino é enorme e que, desde o lançamento de Bem gaúcha, vem descobrindo o quanto as mulheres se reconhecem na expressão da sua música, que é leve, bem-humorada, animada e, mesmo assim, não deixa de cantar o dia a dia feminino. "Eu nunca sofri machismo, mas vi acontecer. Até mesmo nas chances de gravar, de interpretar uma boa canção, de se destacar, os meninos sempre tiveram mais oportunidade. Mas isso está mudando rapidamente. Fico muito feliz por ver essa mudança e por ser referência para essa nova geração de meninas que está chegando na música, como outras grandes mulheres foram para mim", diz Analise.
Instrumentista que vem do jazz, Charlise Bandeira convive no meio nativista há sete anos empunhando um som não tão arraigado no meio: a flauta. Vencedora de muitos festivais e requisitadíssima para acompanhar músicos de todas as vertentes, afirma ter muito apoio e incentivo entre os homens, que se tornam amigos e parceiros de arte. Mas não nega a existência de machismo, pelo contrário: "Nos festivais, já me perguntaram se eu não tinha louça para lavar em casa ou se eu estava ali para servir cafezinho. E, quando vou dar uma entrevista, a maioria supõe que sou cantora, já que as mulheres não tocam instrumentos. Mas isso está mudando, as mulheres estão ocupando muitos espaços. Logo eles vão pensar duas vezes antes de falar".
"O debate sobre uma criação artística mais liberta está recém começando. Muitas mulheres ainda estão presas às regras criadas pelos homens e aos rótulos de identidade gaúcha construídos. É necessário pensar sobre novos caminhos", afirma Clarissa Ferreira. Em seus projetos musicais, a violinista busca justamente a discussão desses padrões, para desconstruir os ritmos, combater a romantização do regionalismo e propor linguagens mais libertárias para a expressão artística das mulheres.
 

* Natural de Rio Grande, Patrícia Lima é jornalista formada Universidade Católica de Pelotas, especialista em Estudos de Jornalismo pela UFSC e mestre em Literatura pela Ufrgs. Lançou, com Luís Augusto Fischer, o livro Inquéritos em contraste: crônicas urbanas de Simões Lopes Neto (Edigal, 2016).